App para sintomas: “Temos dados de três milhões de pessoas e isso permite aprender muito sobre a covid-19”

Dados recolhidos por uma aplicação de rastreio de sintomas da covid-19, lançada em Março de 2020, permitem detectar novos pólos de infecção uma semana antes de serem reportados casos.

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A aplicação não regista se o utilizador está perto de outros utilizadores infectados VALENTYN OGIRENKO/Reuters
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A aplicação não regista se o utilizador está perto de outros utilizadores infectados Valentyn Ogirenko/Reuters

Informação recolhida diariamente por uma aplicação móvel de registo de sintomas da covid-19 — utilizada por mais de três milhões de pessoas no Reino Unido e EUA — sugere que a ferramenta pode ajudar a prever pólos de infecção com uma semana de avanço, detectar novos padrões de sintomas, e sugerir formas de tratamento mais eficazes. Agora, a equipa de investigadores responsável pela sua criação espera que a solução seja adoptada em mais países e já está a trabalhar com instituições no Canadá, Austrália e Suécia.

Foi no final de Março que o Consórcio de Epidemiologia da Pandemia do Coronavírus (COPE), um grupo com dezenas de investigadores, médicos e engenheiros de várias áreas, se juntou para desenvolver a aplicação Covid Symptom Tracker (disponível para Android e iOS). O objectivo da equipa, que inclui profissionais do Hospital Geral do Massachusetts e da Universidade de Harvard, nos EUA, e do King's College de Londres, no Reino Unido, era perceber se recolher e estudar dados em massa sobre sintomas de covid-19 podia ajudar a identificar novos sintomas e zonas de risco.

Um estudo publicado na revista científica Science, sobre os dados recolhidos durante os primeiros cinco dias de uso da aplicação no Reino Unido, sugere que sim. “Os nossos resultados indicam que testar indivíduos que reportam mais sintomas em simultâneo deve ser uma prioridade. A perda de olfacto, em particular, parece ser sintoma importante a ter em atenção numa fase inicial”, explica ao PÚBLICO Cristina Menni, autora do estudo e investigadora num dos departamentos de epidemiologia do King's College. “Isto permitiu-nos desenvolver um modelo de previsão da taxa de infecção de covid-19 em algumas zonas.”

Para tal, todos os dias a aplicação, que foi lançada dia 24 de Março no Reino Unido e cinco dias mais tarde nos EUA, perguntava se os utilizadores se sentiam bem, se tinham sintomas associados à covid-19, e se estavam em casa ou tinham sido hospitalizados. Utilizadores que fossem diagnosticados com covid-19 também deveriam partilhar a informação com a aplicação. 

Dados iniciais de 1,6 milhões de utilizadores do Reino Unido, com idades entre os 18 e os 90 anos, revelaram uma correlação positiva entre diagnósticos de covid-19 e pessoas que reportam uma combinação de três ou mais sintomas, incluindo tosse, fadiga, diarreia, febre e anosmia (perda total ou parcial do olfacto). Este último sintoma era mais prevalente do que febre em pessoas diagnosticadas com covid-19. 

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A aplicação sugere que o utilizador actualize os seus sintomas diariamente Zoe Global

Os resultados levaram a equipa a desenvolver um modelo de previsão que permitiu alertar autoridades de saúde em Gales, no Reino Unido, sobre dois picos de diagnósticos de covid-19 uma semana antes de serem oficialmente reportados casos da doença.

Receios de privacidade dificultam trabalho

Os autores reconhecem, no entanto, que há receios de privacidade devido à enorme quantidade de dados recolhidos pela aplicação, que pergunta aos utilizadores o nome, email, idade, sexo, peso, altura, zona de residência, problemas de saúde e medicamentos usados. Somam-se inquéritos diários sobre sintomas de covid-19 ou sobre tratamentos, no caso de pessoas com teste positivo.

“A nossa aplicação foi criada para ser de uso voluntário. Perguntamos o email e o nome, é verdade, mas as pessoas não têm de dar essa informação”, frisa Cristina Menni. “As pessoas apenas partilham aquilo com que estão confortáveis e podem pedir para a aplicação apagar a informação recolhida a qualquer altura. Seguimos à risca regras nacionais e internacionais como o Regulamento Geral para a Protecção de Dados na Europa.”

À semelhança de informação como etnia e orientação sexual, na União Europeia o Regulamento para a Protecção de Dados (RGPD) proíbe o tratamento de dados de saúde sem o consentimento explícito dos utilizadores. O artigo 9.º do RGPD nota, porém, que são permitidas excepções em situações de interesse público com base em “medidas adequadas e específicas que salvaguardem os direitos e liberdades do titular dos dados”.

Os criadores da aplicação dizem que os dados recolhidos são todos agregados e anonimizados antes de serem partilhados com os investigadores para análise. Em teoria, isto quer dizer que os dados não podem ser associados a pessoas específicas. A aplicação também não regista quando o utilizador está perto de utilizadores diagnosticados com covid-19.

“A grande questão sobre a privacidade que está a ser debatida prende-se com aplicações que registam a localização e contactos do utilizador. A nossa aplicação não segue o utilizador”, realça Cristina Menni. “Só sabemos aquilo que o utilizador regista.”

Nas últimas semanas, vários países, incluindo Portugal, têm apresentado propostas de aplicações de rastreio de contágio para alertar utilizadores quando estiveram em contacto próximo com pessoas infectadas. No caso português, a aplicação de uso voluntário não guarda informação pessoal (nunca é perguntado o nome, idade, localidade ou qualquer informação que possa identificar o utilizador), nem partilha dados automaticamente com autoridades de saúde. Contrariamente à Covid Symptom Tracker, o único objectivo da aplicação portuguesa é ajudar as pessoas a perceber se devem isolar-se para evitar a propagação da doença.

Os criadores da Covid Symptom Tracker acham que um tipo de aplicação não invalida outros tipos, e que há mais do que uma forma de usar a tecnologia móvel para lidar com a pandemia. “O nosso foco tem sido identificar sintomas de risco, mas os dados que recolhemos podem dar resposta a uma enorme variedade de questões”, partilha Cristina Menni, cujo trabalho se tem centrado no impacto da hereditariedade ao estudar a covid-19 em gémeos. A equipa também está a analisar os efeitos de medicamentos para regular a pressão arterial e os riscos para profissionais de saúde que não têm acesso a equipamento de protecção suficiente. A longo prazo, há ainda a possibilidade de perceber o impacto da doença na saúde mental e nas finanças pessoais. 

“O poder da nossa aplicação é que temos dados de três milhões de pessoas e isso permite aprender muito sobre a covid-19”, resume a investigadora do Reino Unido. “Se mais pessoas utilizarem a aplicação, teremos mais informação para aprender.”

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