Afinal a Rapariga com Brinco de Pérola já teve pestanas e a “pérola” não passa de uma ilusão

Há dois anos, o célebre retrato de Vermeer voltou a ser examinado e desde então conservadores e cientistas têm tratado a informação recolhida. Descobriram, por exemplo, que o artista mudou várias vezes de ideias enquanto pintava e que usou pigmentos do México e do Afeganistão.

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Imagem de macro raio-X que mostra que Vermeer pintou pestanas nos olhos da jovem mulher Cortesia: Museu Mauritshuis/Annelies van Loon: Mauritshuis/Rijksmuseum
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Cortesia: Museu Mauritshuis
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O aparato montado na sala do museu para que os cientistas pudessem trabalhar Cortesia: Museu Mauritshuis
Garota com Brinco de Pérola
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A assinatura do pintor de Delft Cortesia: Museu Mauritshuis
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Pormenor do rosto seguido de duas imagens técnicas que mostram a mistura de pigmentos invisível a olho nu Cortesia: Museu Mauritshuis
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Abbie Vandivere, conservadora-chefe de pintura do museu, examina a obra a olho nu Cortesia: Museu Mauritshuis

Sedutora e misteriosa, Rapariga com Brinco de Pérola é há décadas a imagem de marca do Museu Mauritshuis, mas nunca foi tanto The Girl in the Spotlight (“a rapariga no centro das atenções”) como nos últimos dois anos. 

Este programa de investigação, que o museu de Haia lançou em Fevereiro de 2018 para ficar a conhecer melhor o retrato de Johannes Vermeer que tem em exposição desde 1881 e é hoje uma das pinturas mais celebradas da idade de ouro holandesa, chegou agora ao fim, embora tenha deixado, como é hábito em qualquer projecto científico com ambição e rigor, muitas perguntas por responder. 

Continuamos sem saber quem é esta rapariga que parece ter cativado Vermeer irremediavelmente, mas a equipa multidisciplinar liderada por Abbie Vandivere, conservadora-chefe de pintura do museu, está agora em condições de dizer que o artista chegou a pintar-lhe pestanas e a colocar uma cortina verde em fundo, que desapareceu por completo para dar lugar a um espaço escuro, vazio. Também se ficou a saber, por exemplo, que o artista, muito exigente na hora de preparar as suas tintas, não olhou a despesas e comprou pigmentos oriundos de Inglaterra, do México ou do Afeganistão (o azul que usa no lenço da cabeça da sua rapariga foi feito a partir de lápis-lazúli, uma rocha que era mais preciosa do que o ouro na segunda metade do século XVII).

A questão das pestanas parece de somenos, mas tem sido tema de debate entre especialistas ao longo dos anos, já que há quem argumente que a sua ausência pode significar, como lembra a conservadora do Mauritshuis num vídeo disponível no site do museu, que Rapariga com Brinco de Pérola (c. 1665) não é o retrato de uma jovem real, mas uma abstracção, a representação de uma mulher idealizada. “As nossas descobertas tornam a Rapariga mais ‘pessoal’ do que até aqui se julgava”, continua.

Se Vermeer teve à sua frente uma modelo em tudo ou quase tudo semelhante à rapariga que hoje vemos, ou se simplesmente a imaginou, no seu vulgar casaco ocre e no seu exótico turbante a evocar o Oriente que chegava com frequência de navio a Delft, a cidade onde vivia, sob a forma de mercadorias várias, muitas delas de luxo, oriundas das colónias holandesas, é algo que talvez nunca venha a saber-se. 

“Conseguimos descobrir muitas coisas sobre os materiais e as técnicas que Vermeer usou, mas continuamos sem saber ao certo quem é esta rapariga”, reconhece Abbie Vandivere, aqui citada pelo diário britânico The Guardian. “É bom que alguns mistérios se mantenham e que todos possam especular. Isso dá a cada um de nós a possibilidade de estabelecer uma relação muito pessoal com a pintura, com a forma como os nossos olhos se encontram com os dela.”

Para a conservadora que esteve à frente dos trabalhos – uma operação que implicou técnicos de várias instituições, como as universidades de Antuérpia, Delft e Maastricht, a National Gallery de Washington e o Instituto dos Países Baixos para a Conservação, Arte e Ciência, que conta com o know-how do Rijksmuseum –​, o lado de enigma desta pintura é o que a mantém eternamente “fresca” e “estimulante”.

Mudar de ideias

Noutro filme breve que também pode ver-se online, Martine Gosselink, directora do Mauritshuis, lembra que a última vez que a pintura esteve, por assim dizer, ao microscópio data já de 1994, quando foi sujeita a um complexo processo de restauro, após o qual andou em digressão pelos Estados Unidos, por Itália e pelo Japão, enquanto o museu era ampliado. Uma digressão que incluiu outras obras de relevo desta galeria de pintura real, como A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt, e que muito contribuiu para a popularidade de que actualmente goza este retrato que não se cansa de interpelar o espectador.

Desta vez não houve qualquer intervenção de restauro “porque a pintura está estabilizada”, garante Vandivere, mas isso não impediu que as amostras de tinta recolhidas há 25 anos voltassem a ser escrutinadas e que toda a obra fosse analisada ao mais ínfimo pormenor através de técnicas de imagem não-invasivas (que não obrigam a que se toque na superfície da pintura), como a radiografia, a reflectografia de infra-vermelhos, a microscopia digital ou a fluorescência de macro raios-X, todas permitindo aos cientistas aceder ao que a camada visível esconde. 

Graças a elas, a conservadora de pintura e a sua equipa podem hoje dizer, com segurança, que o artista mudou várias vezes de ideias ao executar a pintura. “A pesquisa mostra que Vermeer fez alterações à composição enquanto pintava: a posição da orelha, o topo do lenço que tem na cabeça e a base do pescoço mudaram”, diz o comunicado que resume o projecto divulgado pelo museu holandês.

A mesma tecnologia, que evoluiu muitíssimo nos últimos 25 anos, permitiu identificar as várias fases de execução da obra, desde a camada preparatória àquilo que seria a versão final quando Vermeer a deu por terminada (se é que deu). “O pintor trabalhou sistematicamente em direcção ao primeiro plano: depois de pintar o fundo esverdeado e a pele da cara da Rapariga, passou ao casaco amarelo, ao colarinho branco, ao lenço da cabeça e à ‘pérola’”, deixando para o fim a assinatura que mal se vê e aqui e ali pêlos do pincel agarrados à tinta. 

A palavra pérola aparece intencionalmente entre aspas porque o suposto pendente que lhe dá o nome é, afinal, um truque do pintor: “A ‘pérola’ é uma ilusão  toques opacos e translúcidos de tinta branca , não foi [sequer] pintado o fecho que a prenderia à orelha.”

Há já muito tempo que alguns especialistas defendem que a pérola é, na realidade, um pendente de metal, provavelmente prata, ou vidro veneziano envernizado, pela forma como Vermeer pinta a luz a reflectir-se nele. O que dirão agora que se chegou à conclusão de que o brinco, seja qual for o material, não existe?

Independentemente da reacção da comunidade de conservadores e historiadores de arte às descobertas do projecto The Girl in the Spotlight, certo é que o estudo da obra não vai ficar por aqui. A directora do museu diz que esta é apenas uma paragem numa viagem que nos vai aproximar cada vez mais da Rapariga de Vermeer, um pintor que retratou como poucos um certo universo feminino do século XVII.

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