Evolução da pandemia traçada a partir de telemóveis na China. E a privacidade?

Estudo, publicado na revista Nature, utiliza dados de uma operadora de telecomunicações chinesa para analisar os fluxos populacionais saídos da cidade de Wuhan, China, durante a fase inicial da pandemia.

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Os dados recolhidos permitem identificar novas zonas de risco REUTERS/Aly Song

Analisar o fluxo de deslocações das pessoas, com base em dados da localização dos telemóveis, pode ajudar a perceber a evolução de casos de covid-19 com duas semanas de avanço e alertar as autoridades para zonas em que o contágio está descontrolado.

A conclusão é de um estudo, publicado esta quarta-feira na revista científica Nature, que comparou a evolução do número de casos de covid-19 registados na China até dia 19 de Fevereiro de 2020 com as deslocações de pessoas que estiveram mais de duas horas na cidade chinesa de Wuhan, o epicentro inicial da pandemia da covid-19, entre os dias 1 e 24 de Janeiro de 2020.

A equipa coordenada pela Universidade de Hong Kong (China), que inclui investigadores da Universidade de Yale (EUA), tem como base dados fornecidos por uma operadora de telecomunicações chinesa. Ao todo foram considerados os movimentos de 11.478.484 pessoas a sair ou a entrar em Wuhan.

Os investigadores dizem que o estudo não levanta riscos para a privacidade dos cidadãos, mas em muitos países, incluindo em Portugal, dados de localização são classificados como dados pessoais. 

“As operadoras de telecomunicações chinesas têm sido muito boas a partilhar dados com a comunidade científica, que é algo que não acontece noutros pontos do mundo”, admite ao PÚBLICO um dos autores do estudo, Jayson Shi Jia, da Universidade de Hong Kong. “A privacidade não é uma questão neste modelo, porque não são precisos dados privados para saber o número total de indivíduos que foram do local A para o local B numa determinada data.”

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A equipa nota que foram usados dados agregados e anónimos, o que em teoria significa que não é possível ver na base de dados a influência de um só utilizador.

Em muitos países, onde o preço de chamadas telefónicas varia entre regiões, uma das razões para as operadoras de telecomunicações recolherem dados de localização dos utilizadores é saber qual a taxa a aplicar. A equipa de investigadores do estudo da Nature queria mostrar que estes dados podiam ser utilizados para beneficiar a saúde pública ao provar uma correlação entre zonas com mais casos de covid-19 e zonas com mais visitantes oriundos de Wuhan.

Na China, o número de viagens foi particularmente elevado em Janeiro devido ao chunyun, nome dado ao fluxo populacional originado pelas viagens de inúmeros cidadãos que visitam as suas terras natais durante o Ano Novo Lunar chinês.

Isto parece óbvio, mas era preciso provar a relação. A partir daqui, é possível criar um sistema de alarme ao comparar casos de contágio esperados com os casos observados”, continua o investigador de Hong Kong. “Zonas com mais casos observados do que o esperado podem indicar a existência de transmissão comunitária. Por outro lado, zonas com menos casos do que o esperado podem indicar a existência de boas medidas de contenção ou um problema na detecção e comunicação de casos.”

Desta forma, os dados recolhidos permitem antecipar casos de covid-19 no país, identificar novas zonas de risco, e documentar a eficácia das medidas de contenção. Por exemplo, os dados mostram que medidas de quarentena impostas em Wuhan, a 23 de Janeiro, foram eficazes a reduzir deslocações no país, com o fluxo de movimentos a diminuir 52% entre 22 de Janeiro e 23 Janeiro. No fundo, o nosso modelo diz-nos com precisão quantos casos devemos esperar numa determinada zona a partir dos dados de viagens de Wuhan”, resume Jia, acrescentando que permite prever a evolução dos casos com duas semanas de avanço. 

Visão distinta de privacidade 

A China, no entanto, tem uma visão distinta da União Europeia sobre dados pessoais. O uso de tecnologia para monitorizar os cidadãos é norma no país que está a desenvolver, há anos, um sistema de crédito social para hierarquizar cada um dos seus cidadãos a partir dos dados pessoais que partilham em aplicações móveis. No começo de Março, para facilitar o isolamento social, o país também desenvolveu uma aplicação móvel que atribuía um código aos cidadãos para controlar as deslocações de casos suspeitos e confirmados de covid-19.

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Cidadão na China mostra o código de QR a verde Ali Pay

“As autoridades de protecção de dados e a Comissão Europeia desaprovam do uso de dados de localização dos cidadãos, a não ser que se consiga provar que a privacidade é garantida e os cidadãos não podem ser identificados”, frisou Isabel Cruz, porta-voz da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), ao PÚBLICO. A CNPD não se pronuncia sobre o estudo feito na China, que desconhece, mas reforça que a Comissão Europeia já colocou de parte a possibilidade de usar dados das operadoras de telecomunicações para prever casos de covid-19.

A hipótese começou a ser estudada no final de Março. Mas foi abandonada e actualmente a maioria dos países da União Europeia, incluindo Portugal, está a trabalhar em aplicações móveis voluntária para rastreio de contágio. No caso português, a aplicação de uso voluntário não regista coordenadas dos cidadãos, porque é utilizado Bluetooth, uma tecnologia comunicação sem fios de curto alcance que permite que aparelhos móveis troquem informação quando estão próximos.

“Dados de localização são dados pessoais”, frisa Pedro Lomba, que coordena as áreas de tecnologia e comunicações na sociedade de advogados PLMJ. “As empresas só podem partilhar estes dados se conseguirem garantir a anonimização, e um dos temas que se coloca hoje é a possibilidade de se voltar a identificar dados anónimos mais tarde.”

Os investigadores do estudo da Nature ressalvam, no entanto, que não é necessário recorrer a informação das operadoras de telecomunicações e que o modelo que construíram funciona com qualquer base de dados que capte os fluxos da movimentação de pessoas. “Em teoria, na União Europeia pode-se usar dados sobre bilhetes de comboio”, sugere Jayson Shi Jia, que espera que o estudo “dê credibilidade a estas propostas” e que o modelo possa ser usado para ajudar a conter novas ondas de transmissão da covid-19. “A vantagem é perceber quais as zonas de um país que precisam de medidas de contenção mais rígidas, ou de mais recursos como testes e máscaras.”