Opinião

Viva o 25 de Abril e Feliz Ramadão

Porque a quarentena assume este caracter celebratório da coesão do país, é importante aproveitar o momento e apontar o foco também aos grupos étnicos e religiosos, sempre nos bastidores, e ao modo como a pandemia e a quarentena também nos afeta aí. Partilhemos a celebração do Ramadão, que mais não seja porque, com isso, estamos a celebrar, também, o 25 de abril.

Este ano, o início do mês do Ramadão e a celebração do 25 de abril quase coincidem. O mês lunar que o Islão marca com uma série de práticas rituais e comunitárias iniciou-se ontem, em Portugal, e o 25 de abril celebra-se hoje. Um é uma celebração religiosa, de uma comunidade de crentes, outro uma celebração política, da democracia nacional. Muitos portugueses celebram uma ou outra, mas também muitos celebram as duas. Como aconteceu com aqueles que celebraram a Páscoa e agora celebram o 25 de abril, embora diferidamente porque os calendários não coincidiram.

Por maior que seja o esforço em separar religião e política e em afirmar os méritos do secularismo, nos momentos de celebração torna-se ainda mais claro como as fronteiras entre uma e outra são ténues e arbitrárias. Em ambos os casos é a comunidade e a pertença que se elevam, celebrando momentos decisivos para a sua configuração, exaltando-se a coesão e a partilha, seja pelas manifestações públicas, a festa e os slogans, seja pela oração, festa e comensalidade após o jejum. É importante, contudo, reconhecer que é aquilo que se comemora no 25 de abril – a democracia – que permite que se celebre livremente em Portugal aquilo que se exalta no Ramadão: a revelação do Alcorão e a constituição de uma comunidade que é minoritária no país.

Nestes dias de confinamento nem um nem outro podem ser celebrados como de costume. No caso do 25 de abril proíbem-se os ajuntamentos e momentos de congregação próprios do dia; no caso do Ramadão, as orações nas mesquitas e as deslocações para participação no iftar, a refeição da quebra do jejum, são limitadas pelo estado de emergência.

O filme Um Ramadão em Lisboa, realizado por uma equipa de antropólogos do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (que durante a quarentena pode ser visto online através do seu site), dá conta como muçulmanos portugueses e não só, de diferentes bairros e orientações dentro do Islão, viveram o dia-a-dia do mês, no ano do calendário gregoriano de 2018. Durante o dia, o jejum, cultiva os corpos e exercita o autocontrole, contendo o desejo de comer, beber, e mesmo o desejo sexual. Não porque o islão – que muitos muçulmanos concordam nas suas exegeses ser uma religião bastante sensual – os condene moralmente, mas porque são entendidos como atos impuros ou, melhor, poluentes do corpo que se quer puro para a prática da oração. Pela mesma razão, o Ramadão é um mês onde outro ‘pilar do Islão’, para além de o da abstinência, deve ser cumprido: o da caridade. É que os excessos, também os da acumulação (de riqueza), são igualmente poluentes e devem, por isso, ser redistribuídos de acordo com a prática do zaqat.

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Um muçulmano envergando uma máscara reza numa mesquita em Banguecoque, Tailândia REUTERS/Jorge Silva

Se a ética do Ramadão se mantem mesmo em quarentena, a praxis litúrgica – tal como a vemos vivida ao longo do dia no filme que a retrata em Lisboa em 2018 – rompe-se no confinamento. Ali via-se bem como a oração, o recolhimento e a abstinência eram pacientemente praticados porque vividos como espera e antecipação do momento da sua rutura, da comunhão, da comensalidade, da festa, até mesmo do excesso. As celebrações do mês do Ramadão – que vão para além daquilo que os muçulmanos habitualmente nele projetam, que é o jejum, confundindo muitas vezes o nome do mês com a prática que nele ocorre – são para ser vividas e praticadas. E é nessa e noutras práticas que se constituem os sujeitos muçulmanos.

O mesmo para o 25 de abril e a comunidade que o celebra: a democracia é também para ser vivida e praticada (muito mais do que dita) e é nessa prática que se constituem os sujeitos democratas.

Nos tempos de confinamento em que vemos o mundo pela televisão e pelos écrans digitais, as categorias que estruturam a nossa sociedade têm sido exibidas, e algumas reconfiguradas, à luz da pandemia. O nosso pessoal médico e policial, os nossos idosos, as nossas famílias (os indivíduos parecem ter ficado ali diluídos), os nossos trabalhadores, os nossos empresários, os nossos católicos, têm sido delineados enquanto grupos constitutivos da nação e da sociedade laboriosa portuguesa para evidenciar o modo como a pandemia afeta todos, mas de modo desigual, e como só na conjugação dos esforços de todos articulados podemos ajudar-nos uns aos outros. Esses esforços têm sido continuamente louvados e alguns desses grupos vêm para a ribalta pela primeira vez – como o daqueles que fazem a recolha do lixo ou asseguram o funcionamento dos supermercados –, agora promovidos à categoria de trabalhadores essenciais. À força, vivemos um momento quase ritual onde se pratica e celebra a vida conjunta e solidária, e a democracia, e este momento será certamente decisivo numa imagem renovada da nação e seus constituintes, por mais depressa que ela se esvaia depois.

Por isso, e porque a quarentena assume este caracter celebratório da coesão do país, por mais volátil que isso se venha a demonstrar no futuro, é importante aproveitar o momento, alargar essa ribalta inclusiva, e apontar o foco também aos grupos étnicos e religiosos, sempre nos bastidores, e ao modo como a pandemia e a quarentena também nos afeta aí. Partilhemos a celebração do Ramadão, que mais não seja porque, com isso, estamos a celebrar, também, o 25 de abril.  

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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