Opinião

Como se transformarão as nossas cidades e as nossas casas?

Actualmente, configura-se um cenário passível de comparação com o século antecedente, sugerindo uma nova rotura paradigmática, transversal às várias disciplinas e preponderante na redefinição de pensar a cidade.

Vive-se um momento civilizacional marcado por acontecimentos de ordem sociocultural e económica que desafiam critérios e valores pelos quais a realidade é perspectivada. Vamos sendo confrontados com eventos que, pela sua escala, desafiam a confiança nos modelos instituídos. Deparamo-nos agora com as consequências do fenómeno epidemiológico à escala global, a covid-19, que parece confirmar a revisão de prioridades de um paradigma civilizacional. Não é novo.

Em 1891 publicava-se no britânico Daily Chronicle que “se querem um remédio permanente para este mal devem eliminar a causa e parar a emigração da população para as cidades. O próprio interesse das cidades faz com que elas próprias se impliquem na solução do problema”. Seria neste contexto do movimento higienista novecentista que se viriam a desenvolver novos modelos urbanos, facultando às cidades uma reacção ao que Foucault chamou de “medo urbano”. A necessidade de combater os “malefícios ambientais” da cidade industrial deu origem aos exemplos pioneiros de Haussman, em Paris, e de Cerdá, em Barcelona. Posteriormente, com autores como Ebenezer Howard, (cidade-jardim/ cidade-campo), ou Le Corbusier (“cité radieuse” - espaço livre/ edifícios isolados/ ideia de higiene), emerge uma nova urbanidade capaz de responder ao “espírito da época” e aos anseios da era moderna. 

Actualmente, configura-se um cenário passível de comparação com o século antecedente, sugerindo uma nova rotura paradigmática, transversal às várias disciplinas e preponderante na redefinição de pensar a cidade. Será no âmbito desta perplexidade que partiremos à descoberta de desenhos para que as nossas cidades e as nossas casas (esse espaço dos nossos sonhos, como diria Bachelard, ou a bolha de imanência como ditaria Augé) possam recuperar a convivencialidade e o seu sentido.

Os espaços de trabalho e a “pendularidade” das metrópoles mudaram? Provavelmente sim. Num mês e meio, três mil milhões de pessoas adaptaram-se ao teletrabalho. E esse será um ponto de não retorno, pelo menos parcialmente. E sabemos que a flexibilização laboral irá afectar a hora de ponta, o espaço dentro de casa, o tamanho dos grandes escritórios, etc. Como se publicava recentemente no The New York Times, embora forçado, o trabalho virtual foi um sucesso (em certa medida até mais produtivo), e isto irá mudar porque nem toda a gente precisa ou já quer estar num enorme “social playground”.

Algumas tendências são já verificáveis: na Europa discute-se como redesenhar tudo segundo um novo desígnio proxémico - uma sociedade de metro e meio – sustentando um planeamento económico na exacta medida do muito maior distanciamento social (debate protagonizado pelo odiado primeiro-ministro holandês Mark Rutte); o espaço público tenderá a ser mais “automático” para mitigar contaminações, os objectos da economia de partilha serão adaptados (Uber, bicicletas/ scooters/ trotinetes do share business, casas em plataformas tipo Airbnb, entre muitos mais). A covid-19 acelerará o que já se sabe - todo o tipo de tecnologia touchless, dentro e fora, portas automáticas, activações de voz, coisas controladas pelo smartphone, interruptores “sem mãos” e até controlos de temperatura corporal em todo o lado que interesse.

No entanto, nem tudo terá um carácter tão sincrónico, e não estará esta dualidade entre físico e digital em acentuação, originando também clivagens? Segregando os que têm acesso a informação e os que se contentam com infoentretenimento? Diferenciando os que trabalham seguros, via digital, e os que têm que se arriscar fisicamente? Deambulando entre a promessa de uma sociedade em rede e a crescente dependência das linhas de produção e controlo de informação?

No entrecho desta transição, o optimismo da “era espectáculo” do impulso digital e o medo da nova “era da incerteza” revelou, através desta sequência de provações, uma sociedade que se metamorfoseou e se reinventou. A excepcionalidade no modo como indivíduos, populações e comunidades se têm articulado entre si nas respostas – à escala global – veio reforçar a possibilidade de se estar a dar início a uma outra globalização, fundada numa verdadeira interdependência global, solidária e alicerçada numa consciência de pertença e de interesse colectivo. Iremos ter que escolher entre cooperar ou combater os nossos receios. Escolher entre designar parceiros ou apontar inimigos. Se assim for, que “ágoras” vamos desenhar, desafiando confinamentos? 

Numa sociedade mais humana e humanista, estando a arquitectura condenada a reflectir o seu próprio tempo e as aspirações da sua própria geração, resta questionar como pode esta disciplina integrar estas transformações no seu desígnio criativo. E, enquanto ferramenta, potenciar a complexa rede de relações existentes entre quem investiga, quem decide, quem projecta, e quem habita.

Não vai acontecer nem de um dia para o outro, nem será nada fácil adivinhar agora o que será o novo normal para o ano que vem. Mas tal como a comunidade científica e a indústria farmacêutica estão a fazer, relativamente às vacinas e aos retrovirais, também os produtores de espaço (arquitectos, engenheiros, promotores imobiliários, construtores, legisladores, investigadores, historiadores, reguladores, vendedores, etc.) deverão começar a trabalhar – em partilha – na construção de respostas e flexibilizando opções, a bem de um novo espaço compreensivo.

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