Grande mufti da Arábia Saudita diz que orações do Ramadão têm de ser feitas em casa

Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, também não vai receber fiéis. Autoridades sauditas pedem ainda a muçulmanos que adiem, para já, planos para a peregrinação do hajj .

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A Grande mesquita de Meca e o seu pátio irão manter-se vazios Reuters

Muçulmanos de todo o mundo preparam-se para celebrar o Ramadão de um modo inédito - sem possibilidade de fazer peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, nem de rezar na mesquita, nem de se juntar para as refeições de quebra de jejum quando o sol se põe.

Da Arábia Saudita veio a indicação de que as preces terão de ser feitas em casa e não nas mesquitas. O grande mufti saudita, Abdul Aziz bin Abdullah al-Sheikh, disse que “devido às medidas de prevenção levadas a cabo pelas autoridades para lutar contra o novo coronavírus, as pessoas vão ter de rezar em casa para obter a virtude de rezar”, declarou. “O Profeta Maomé fez estas preces em casa”, acrescentou, “por isso, se a situação se mantiver, as pessoas terão de rezar em casa e não vai haver sermão a seguir às preces do Eid”, o dia final e de festa que marca o fim do Ramadão.

O mês sagrado do islão começa a 23 ou 24 de Abril na maioria dos países muçulmanos (depende da lua). A Arábia Saudita tem já em vigor uma proibição de ajuntamentos públicos desde há um mês. No país há mais de 9000 infectados e pelo menos 97 mortos por covid-19 (e muitos lembram-se ainda do muito mais mortífero (embora menos contagioso) vírus que provoca a MERS, que foi detectado pela primeira vez em 2012 no país e desde então matou mais de 842 pessoas).

As autoridades sauditas já tinham também pedido aos muçulmanos para adiarem preparações para o hajj, a peregrinação que se espera que todos os muçulmanos façam pelo menos uma vez na vida, e que todos os anos leva dois a três milhões de pessoas ao país. Este ano, o hajj far-se-ia em Julho.

De Jerusalém, o conselho Waqf, responsável pela mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado para o islão a seguir a Meca e Medina, também anunciou que a mesquita vai manter-se fechada aos fiéis durante o mês do Ramadão, acrescentando que a decisão foi “dolorosa”. Na cidade, importante para as três religiões monoteístas, já a Páscoa judaica fora celebrada com pequenos grupos de pessoas em vez dos tradicionais grandes grupos no Muro Ocidental, o local mais sagrado para os judeus, e os cristãos não receberam peregrinos durante a Páscoa, que foi assinalada apenas por alguns clérigos.

Jejum e imunidade

Quanto ao Ramadão, além da discussão sobre as regras de distanciamento social que impedem as idas à mesquita e ainda a refeição da quebra de jejum, onde a socialização é também muito importante, há quem ponha em causa o próprio jejum. Este é obrigatório, segundo a religião, se as condições de saúde o permitirem. Há quem argumente que jejuar pode ter efeitos no sistema imunitário, o que seria problemático numa altura de pandemia, e a OMS também recomenda ingestão de fluidos para manter a hidratação das vias respiratórias. 

Do Egipto, a Al-Azhar, a mais importante instituição do islão sunita, defendeu que se mantém a obrigação de jejuar para todos excepto os que tenham fragilidades ou problemas de saúde. Mas não é unânime: de Marrocos, o estudioso islâmico Abdelwahab al-Rafiqi disse à emissora alemã Deutsche Welle entender que a excepção se estende também a pessoas que tenham medo de ficar doentes.

Mais, al-Rafiqi defende que manter-se alimentado e hidratado “pode ser visto como um dever porque a luta contra a pandemia é o mais importante para os muçulmanos em todo o mundo, tem prioridade sobre o resto”.

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