Opinião

Eu explico

Vamos parar de adivinhar o comportamento de um vírus que não conhecemos, apenas com base em modelos matemáticos de utilidade incontestada, mas que não conseguem incluir na equação os múltiplos parâmetros que afastam a Biologia das ciências exatas.

Atribuem-se muitas histórias e citações a grandes nomes da ciência. Uma das minhas preferidas, independentemente de ser verdadeira ou lenda, é a de que um jornal Norte-Americano terá encomendado ao cosmólogo Carl Sagan um artigo de cinco mil caracteres sobre se haverá vida noutros planetas, ao qual o cientista enviou como resposta uma página inteira com a mesma frase: “Não sabemos! Não sabemos! Não sabemos!”.

Como eu gostaria que muitas pessoas actualmente seguissem este exemplo e se inibissem de publicar palpites, diagnósticos, prognósticos, gráficos sobre a covid-19, quando a resposta deveria ser: “Ninguém sabe!”

Vamos então responder corretamente a algumas questões:

- Quando vamos atingir o pico. Em que dia/semana? Não sabemos!

- Quando será seguro sairmos todos à rua/os estudantes voltarem às aulas presenciais? Não sabemos!

- Quem já apanhou covid-19 ficará imune e não pode voltar a ser infectado? Não sabemos!

- Quando teremos uma vacina? Uma única vacina será suficiente para toda a população mundial? Não sabemos!

Na realidade, o “Não sabemos” é a resposta curta. A resposta mais completa é: “Ainda não sabemos. Podemos fazer uma previsão, mas ela será tão falível que não constitui um exercício interessante nem muito útil!”

E porque não sabemos? Por duas razões principais: i) porque estamos a enfrentar um vírus até à data ainda desconhecido (chamemos-lhe “novo” para facilitar) e ii) porque estamos a assistir a uma interacção entre vírus e humanos influenciada por inúmeros factores que não controlamos.

Estamos perante várias áreas das ciências biológicas (virologia, imunologia, fisiologia, epidemiologia, ecologia, etc.) e temos que entender que o objecto de estudo da biologia –a Vida – é muito complexo e distinto. O valor de π é igual aqui e na China. Um átomo de hidrogénio é igual aqui e na Austrália. Mas nenhum rato é idêntico a outro, em Portugal e em qualquer desses países. Porque ainda que fossem geneticamente muito iguais, o ambiente que os rodeia é distinto e dezenas ou centenas de factores irão influenciar o seu comportamento.

E por isso, podemos criar cenários e fazer projecções, por comparação do vírus SARS-Cov-2 com outros coronavírus conhecidos; podemos comparar esta com outras epidemias, mas a realidade é que não sabemos se este vírus irá ter um comportamento semelhante ao de outras situações já conhecidas. Sabemos desde já, por comparação do material genético deste novo vírus isolado a partir de milhares de pessoas infetadas em todo o mundo, que os vírus que circulam em Portugal já não são geneticamente iguais aos que circulam na China e não são todos geneticamente iguais entre si. Serão essas diferenças significativas? Mais uma vez: Ainda não sabemos!

Mas então nunca vamos saber?

Sim, iremos ter respostas a todas essas perguntas. Iremos ter vacinas eficazes, muito provavelmente iremos ter medicamentos anti-virais mais eficazes e específicos. Mas para que isso aconteça são necessárias duas coisas fundamentais e interligadas: Tempo e Ciência.

É necessário tempo para perceber não só como se comporta o vírus em função da imunidade crescente da população, em função da temperatura, da humidade e de muitos outros factores ambientais, mas também tempo para percebermos qual o grau de eficácia das medidas implementadas pelos governantes nos diferentes países, e acima de tudo qual a capacidade dos cidadãos para cumprirem essas medidas. Basta que uma centena de pessoas potencialmente infetadas ignorem olimpicamente as medidas de distanciamento social e todas as projecções puramente matemáticas caem por terra, como temos assistido quase diariamente.

E é preciso Ciência porque tem sido ela que nos últimos séculos nos tem permitido vencer estes desafios (e chamo-lhes desafios para não aborrecer aqueles que, por qualquer razão, encaram de forma demasiadamente literal e repudiam a palavra “guerra”, embora depois utilizem calmamente expressões como “luta contra a epidemia” e “enfrentar esta batalha”). Foram as vacinas, os antibióticos, o diagnóstico molecular e tantos outros avanços que nos têm permitido e irão permitir encontrar as respostas para todas as nossas perguntas, que nos trarão a prevenção, o diagnóstico e o tratamento. Não serão as curas milagreiras das redes sociais divulgadas por alguém que sem qualquer evidência científica reclama saber mais do que todos os cientistas do mundo.

Por isso, vamos parar de adivinhar o comportamento de um vírus que não conhecemos, apenas com base em modelos matemáticos de utilidade incontestada, mas que não conseguem incluir na equação os múltiplos parâmetros que afastam a Biologia das ciências exatas. Vamos ser (muito) solidários com quem tem a difícil responsabilidade de tomar as decisões indispensáveis e vamos dar o tempo e os recursos necessários aos cientistas para que possam ajudar a chegar mais rapidamente às soluções desejadas. Concentremo-nos nisso e não em ficar felizes porque ao contrário de ontem e de amanhã, a nossa previsão do número de infetados hoje acertou.

E é esta a minha contribuição para explicar por que razão “Ainda não sabemos, e não ganhamos muito em tentar adivinhar”. 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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