Covid-19 causa escassez de drogas e, teme-se, mais overdoses

O encerramento de fronteiras criou falta de estupefacientes na Europa, e por isso a heroína e cocaína em circulação estão a ser adulteradas, para renderem mais quantidade, tornando-se mais perigosas.

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Quem ficar privado da droga que consumia vê-se confrontado com os problemas da abstinência Nelson Garrido/PÚBLICO/Arquivo

A adaptação é a alma do negócio e, em tempos de pandemia de covid-19, é isso que o mercado de drogas ilegais está a fazer, quando as ruas estão desertas e as fronteiras fechadas. A escassez no mercado fez aumentar brutalmente os preços, e alguns traficantes vestem-se de trabalhadores essenciais para escapar ao controlo da polícia, enquanto outros fazem entregas ao domicílio. A pureza das drogas tem diminuído, para fazer render mais o produto, receando-se um aumento de overdoses

“Menos drogas nas ruas pode parecer uma coisa boa, mas o que as substitui é normalmente mais perigoso. Sabemos que a pureza de muitas drogas está a diminuir, porque os traficantes as misturam com diferentes substâncias para aumentar a quantidade que têm para vender. Muitas vezes os consumidores não sabem o que estão a consumir, o que aumenta as hipóteses de overdose”, disse ao Guardian Rachel Britton, directora de farmácia do We Are With You, uma organização não governamental britânica dedicada à saúde mental. O consumo no geral pode diminuir, como aconteceu com a “seca” de 2010, por causa de uma época de más colheitas no Afeganistão, de onde vêm as papoilas do ópio, mas as mortes por overdose podem atingir novos picos. 

A heroína e a cocaína vêm de outros continentes para a Europa. À medida que o confinamento passou de semanas a meses, estas duas drogas pesadas começaram a escassear, falando-se novamente em “seca”. Teme-se então que o fentanil, um opióide sintético 50 a 100 vezes mais forte que a heroína e responsável pela grande maioria de mortes por overdose nos Estados Unidos, ganhe espaço na Europa. Há relatos de estar a ser produzido na Europa de Leste.

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Houve, no entanto, quem comprasse drogas para além das suas necessidades imediatas, mal se começou a falar de fechar fronteiras e limitar viagens. "Há relatos de as pessoas estarem a armazenar a sua droga favorita e, claro, isso cria escassez, o que leva ao aumento dos preços”, disse à CNN Ian Hamilton, especialista em adições e saúde mental na Universidade de York, no Reino Unido.

"Tal como vimos pessoas a comprar papel higiénico e paracetamol furiosamente, os consumidores de drogas recreativas vão acumular a sua droga preferida, se tiverem meios para isso”, escreveu Hamilton no site The Conversation.

"As pessoas estão a entrar em pânico: a quantidade de cannabis que estão a comprar é ridícula. Agora só vendemos aos clientes regulares”, disse ao Guardian DH, um traficante com uma rede de vendedores no Reino Unido. 

Este fenómeno tem riscos associados: em tempos de confinamento, quando a ansiedade, tédio, e solidão e desejo de escapismo aumentam, pode-se consumir ainda mais, correndo o risco de entrar em overdose ou ter surtos psicóticos. Em situação de isolamento social, a pessoa pode não ter como pedir ajuda. 

Quem ficar privado da droga que consumia vê-se confrontado com os problemas da abstinência, que pode provocar o aumento da tensão em casa, acabando em violência doméstica, e exacerbar problemas de saúde. 

Luís, espanhol de 40 anos e consumidor de cocaína há 20, viveu os efeitos da abstinência por uma semana, durante o pico do isolamento em Espanha, e contou ao El Confidencial o que sentiu nesses dias. “Passei um mau bocado, com muitas discussões em casa. Pensei que não ia sentir falta dela [da droga], mas, claro, senti”, disse o residente em Madrid. Uma garrafa de whisky por dia foi a solução que encontrou. Numa semana, a venda de álcool aumentou mais de 70% em Espanha. Mal as restrições à circulação foram suavizadas, Luís saiu de casa para arranjar, com sucesso, cocaína. E a sua vida voltou a estabilizar, no seu entender. 

Se os traficantes conseguirem iludir o controlo das autoridades, seja nas ruas ou nas fronteiras, a oportunidade de negócio é grande, e a motivação está lá. Alguns traficantes no Reino Unido, diz o Independent, começaram a vestir a pele de trabalhadores essenciais para, em ruas desertas, poderem vender droga, e sabem onde encontrar clientes: nos parques de estacionamento de supermercados. Três pessoas foram recentemente detidas em Valência, Espanha, por usarem aplicações de entrega de comida para vender droga, o que é encarado como apenas mais um exemplo da tendência de uberização do tráfico de droga, já verificado em Itália e França. 

“Um sujeito que circula de scooter ou moto dizendo que vai ver o avô ou a avó para lhes levar comida, o que podemos fazer?”, interrogou-se um polícia francês à FranceInfo. “Pode haver controlos da polícia, mas limitam-se a verificar a autorização de circulação, possivelmente a identidade e os papéis dos veículos”, disse outro agente. 

Outros traficantes, de posição mais elevada na cadeia de distribuição do tráfico, tentam que as suas cargas passem as fronteiras com estratégias engenhosas. Uma foi esconder 14 quilos de cocaína, no valor de 1,25 milhões de dólares, num camião que transportava máscaras através do túnel do Canal da Mancha. Foi detectado pelas autoridades e o condutor, polaco, detido. 

A inovação só é posta em prática quando é estritamente necessário, dado serem necessárias alterações logísticas. Em Espanha, mesmo com as fronteiras terrestres fechadas e restrições aéreas, dificultando a entrada das chamadas “mulas” (pessoas que transportam droga dentro do corpo ou nas suas malas), a droga continua a entrar por mar, vinda do Norte de África, e as autoridades já apreenderam quase dez toneladas de haxixe e quatro de cocaína.

Produção continua

No outro lado do mundo, as restrições à circulação atingiram até os cartéis de droga mexicanos, que destinam boa parte da sua produção aos Estados Unidos. O Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração, que controlam os portos marítimos dos estados que dominam, têm tido dificuldades em receber os químicos necessários para a produção do fentanil, sobretudo oriundos da China. 

“Não parámos de produzir, mas o preço da droga está a subir por causa da escassez dos químicos da China. Transportá-la também está a ficar muito mais caro”, disse um operativo do Cartel de Sinaloa à Vice News. “Um quilo de droga custava 1500 a 2500 pesos [57 a 95 euros]. Agora está à volta dos 6000 a 7000 pesos [230 a 268 euros]”, disse outro elemento do cartel. 

A escassez dos ingredientes chineses é resultado de dificuldades logísticas e de falta de mão-de-obra, disseram os produtores à Reuters. Muitos dos químicos usados no fabrico destas drogas são-no também noutros medicamentos e, com a pandemia, o stock e a produção estão a ser direccionados para o sector das drogas legais.