Autoridades sanitárias espanholas desaconselham “certificados de imunidade”

O risco de as pessoas se infectarem deliberadamente para verem atestada imunidade e abandonarem o confinamento mais cedo levou autoridades a desaconselhar a emissão dos “certificados de imunidade”. Os primeiros 1700 testes serológicos aos portugueses avançam no final do mês.

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Reuters/JON NAZCA

É um “estudo piloto” e não um grande estudo serológico, mas traduz ainda assim um avanço significativo no combate ao coronavírus: no final de Abril, vão ser feitos os primeiros testes serológicos para avaliar a imunidade ao Sars-Cov-2 a uma amostra de 1700 pessoas, representativa da população portuguesa. Conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), em colaboração com a Direcção-Geral de Saúde, este estudo vai permitir perceber se as pessoas foram infectadas e se adquiriram ou não imunidade, como explicou no dia 9 de Abril o presidente do Insa, Fernando Almeida.

Por estes dias, vários países, entre os quais a Áustria e a República Checa, já adoptaram estes testes de imunidade, no que se pretende que seja um primeiro passo para o retorno à normalidade dos que desenvolveram anticorpos que os protegem da doença. A estes deverá ser fornecido um “certificado de imunidade” que lhes permitirá retomar mais cedo a vida normal. Por cá, porém, e como voltou há dias a explicar Fernando Almeida, a realização alargada deste tipo de testes ainda é extemporânea. Portugal foi o último país da Europa Ocidental a registar um caso confirmado (no dia 2 de Março) e, como tal, o universo de “imunizados” ainda é pequeno. Logo, os testes em larga escala terão de esperar que “a população tenha níveis de imunidade mais elevados”.

Em Espanha, que ensaia esta segunda-feira a sua primeira tentativa de retorno à normalidade, com a reactivação de empresas, fábricas e da construção civil, entre outros sectores, e por via da distribuição de 10 milhões de máscaras aos espanhóis que precisem de usar os transportes públicos, o Governo já encomendou cinco milhões destes testes, conforme noticiou o El País. Tal não significa, porém, que um resultado que revela a presença de anticorpos dê direito aos referidos “certificados de imunidade” ou “passaportes serológicos”, embora estes estejam a ser reivindicados por várias regiões autonómicas espanholas.

Esta possibilidade, porém, está a ser encarada com desconfiança pela Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Higiene. Numa nota tornada pública, aquele organismo alerta para o risco de estes “passaportes serológicos” funcionarem como um incentivo para que as pessoas se infectem na expectativa de poderem abandonar o confinamento. No documento remetido ao Governo, a sociedade desaconselha quaisquer medidas que pressuponham uma “limitação estratificada das liberdades e direitos fundamentais por motivos de saúde, atendendo aos princípios constitucionais de não-discriminação, igualdade, pertinência e proporcionalidade” e diz recear que as empresas passem a exigir que os respectivos trabalhadores se submetam ao teste.

Mas os perigos não se ficam por aqui. Na comunidade científica, conforme sublinhou este sábado a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, são mais as dúvidas do que as certezas quanto à duração da imunidade. Por isso também é que o plano gizado pelas autoridades sanitárias portuguesas prevê vários estudos, além do primeiro estudo piloto, “porque é um vírus novo e não se sabe qual vai ser o comportamento dos anticorpos” nem “qual a duração da imunidade”. No futuro, quando Portugal começar a sair desta primeira “onda” da pandemia, deverá ser feito um “grande inquérito nacional” para, então sim, avaliar “o grau de imunidade” dos portugueses.

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