Galp suspende actividade da fábrica de combustíveis de Matosinhos

Quebra da procura associada à covid-19 obrigou a “rever” funcionamento das refinarias. Empresa está a reduzir custos, mas a proposta de dividendos relativos a 2019 mantém-se. Cabe aos accionistas “tomar uma decisão”, diz a Galp.

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Paulo Pimenta

A Galp suspendeu provisoriamente a actividade da fábrica de combustíveis no complexo industrial de Matosinhos. A empresa adiantou ao PÚBLICO que a pandemia da covid-19 “criou constrangimentos no mercado nacional e internacional” que forçaram a Galp “a rever o funcionamento do aparelho refinador nacional”.

Para a Galp, que é a dona das duas refinarias do país (em Sines e Matosinhos), o decréscimo da procura (associada à quebra de preços dos produtos petrolíferos) obrigou a um “ajustamento” da actividade que “teve já impacto no complexo industrial de Matosinhos”.

A empresa optou pela “suspensão provisória da actividade da unidade de combustíveis”, uma das três fábricas que operam naquele complexo industrial, embora garanta que “haverá um nível adequado de combustíveis para satisfazer as necessidades dos portugueses, das empresas e das fábricas”.

A Galp está a avaliar o “impacto desta suspensão nos recursos humanos afectos à fábrica de combustíveis” e diz que “estão a ser estudados todos os cenários para mitigar os efeitos desta decisão” e as opções que “melhor salvaguardem o bem-estar dos seus colaboradores”.

O PÚBLICO questionou a empresa sobre se está a ser equacionado o recurso ao layoff nesta unidade e quantos trabalhadores estão abrangidos pela paragem, mas não foi possível obter um comentário. A empresa também não quis adiantar se ficaram por renovar contratos a termo ou se teve notícia de despedimentos entre as empresas subcontratadas que prestam serviços às refinarias.

Nos últimos dias, os sindicatos deram conta de 300 despedimentos entre as empresas subcontratadas pela Galp em Sines.

“A Galp não realizou despedimentos nas refinarias nem tem contemplada essa situação”, afirmou fonte oficial da empresa, sublinhando que os seus planos de corte de custos passam essencialmente pela recalendarização, ou reformulação de projectos.

Corte nos custos e no investimento

Na quarta-feira, a Galp comunicou ao mercado que a conjuntura de preços baixos e de queda acentuada da procura obrigaram à adopção de medidas para “reduzir significativamente as despesas nos próximos trimestres”.

A empresa pretendia investir em média entre mil e 1,2 mil milhões de euros por ano até 2022, mas agora decidiu que vai cortar 500 milhões de euros em despesas operacionais e em investimento nos anos 2020 e 2021, num total de mil milhões de euros.

“Cerca de 90% destes cortes resultarão do ajuste do calendário de projectos de investimento em todos os sectores”, mas principalmente na actividade de exploração e produção de petróleo, onde estava prevista a maior fatia de investimento.

Algumas das iniciativas “já se encontram em curso”, outras dependerão da “evolução dos mercados”. E se umas são “iniciativas próprias”, outras “resultam de decisões solidárias entre parceiros”, como é o caso do projecto de gás natural em Moçambique, o Rovuma LNG, em que a Exxon, a líder do empreendimento, optou por adiar “a decisão final de investimento que se previa ocorresse ainda este ano”.

A Galp garante que os projectos nas áreas de renováveis (como a compra de parques solares em Espanha) não vão sofrer: “O racional [destes investimentos] mantém-se ou reforça-se, uma vez que a diversificação de fontes de energia é um elemento estabilizador nos momentos de turbulência como o que atravessamos”.

A empresa disse ainda ao PÚBLICO que irá manter a proposta de distribuição de dividendos “com que se comprometeu com a comunidade financeira há apenas um mês e que se reporta aos resultados do exercício de 2019”. Mas notou que cabe “aos accionistas, em assembleia-geral, tomar uma decisão” sobre se haverá lugar à distribuição de lucros.

A Galp propôs um dividendo bruto em torno de 69,5 cêntimos por acção, no âmbito de uma política que previa o aumento desta remuneração accionista em 10% ao ano, até 2022.

A empresa também afirmou que o “período singular que atravessamos está a ter um elevado impacto nos negócios”, e que “avaliará oportunamente o modo de enquadrar” a política de dividendos “numa nova realidade”.

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