Cancelem as atividades letivas presenciais e pensem em reformular os exames nacionais

Cancelem-se todas as atividades letivas presenciais do 3.º período, adiem-se os exames, defina-se um programa mínimo a ser avaliado nestes e reformulem-se as provas. É tempo de dar serenidade às famílias em tempos de tanta ansiedade.

Vivemos tempos de emergência, de incerteza e de insegurança. Embora neste momento estejam de férias, os alunos terminaram o segundo período numa situação de grande ansiedade. Assim como os professores que, repentinamente, se viram a ter de reinventar o acompanhamento dos seus alunos, sem terem tempo para preparar estruturadamente a sua nova atividade letiva. Pressionado pelo peso que os exames têm na vida académica dos alunos, o Ministério da Educação pondera o regresso, apenas do ensino secundário, ainda no mês de maio. Justificarão os exames pôr em causa a saúde pública?

No 1.º, 2.º e 3.º ciclos, não nos parece que o problema da avaliação externa se ponha, porque pais, alunos, professores e ministério estarão de acordo com o cancelamento das provas de aferição e mesmo das provas finais de 9.º ano. Esta incerteza, quanto ao recomeço ou não das aulas presenciais do ensino secundário, tem gerado um clima de grande ansiedade para alunos, pais e professores. É urgente tomar decisões para que o terceiro período se inicie com tranquilidade. Antecipamos já que aulas presenciais não.

Num estudo quantitativo realizado por nós com o objetivo de identificar as causas de insucesso no exame de Biologia e Geologia e indicar medidas promotoras de sucesso, no qual se recorreu à técnica de inquérito por questionário aplicado uma amostra probabilística aleatória constituída por 114 professores (22% da população), 88 mulheres (77,2%) e 26 homens (22,8%), de Biologia e Geologia, do grupo de docência 520, que já tenham lecionado 10.º e/ou 11.º anos, a lecionar no distrito de Braga, concluímos que os docentes consideram que o insucesso nesse exame se deve às dificuldades dos alunos, mas uma larga maioria, 83%, concorda que o stress prejudica a prestação dos alunos no exame e grande parte, 71%, considera que o insucesso está relacionado com facto de o programa da disciplina ser demasiado extenso.

Os professores também concordam que o insucesso se deve a características da prova nacional: 66,7% considera que o grau de complexidade dos documentos de informação presentes na prova, tais como textos, gráficos, figuras e esquemas, é elevado; 54,4% refere que há um desfasamento entre o exame e a realidade das aulas; 53,5% pensa que o exame não é adequado à maturidade dos alunos; e 52,6% considera mesmo que o exame apresenta um grau de dificuldade demasiadamente elevado.

Mais de metade dos professores respondentes, 61,5%, aponta também como causa de insucesso no exame o facto de o calendário de exames ter provas muito juntas temporalmente, o que acaba por prejudicar o estudo dos alunos.

Assim, parece-nos que esta seria uma excelente oportunidade para se repensar os exames, repensar o peso que estes têm no futuro dos alunos e o quanto o ensino secundário está refém destas provas, sendo que até se põe em hipótese o regresso dos alunos às escolas sem garantias de segurança de saúde. A verdade é que, se houvesse essa segurança, regressariam todos, ou até os mais novos que têm muito mais dificuldades de autoestudo e autorregulação.

No caso dos exames que se realizam no 11.º ano, está lecionado o programa do 10.º e 2/3 do programa do 11.º ano. No caso dos exames que se realizam no 12.º ano, está lecionado o programa do 10.º ano, do 11.º ano e 2/3 do programa do 12.º ano. Não é já suficiente? Não será mais importante consolidar e reforçar as aprendizagens e aproveitar para trabalhar as dificuldades detetadas?

Cancelem-se todas as atividades letivas presenciais do 3.º período, adiem-se os exames, defina-se um programa mínimo a ser avaliado nestes e reformulem-se as provas. É tempo de dar serenidade às famílias em tempos de tanta ansiedade.

Proteja-se a saúde de alunos, professores, pais e de todos nós! Haja bom senso!

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico