Covid-19: Bolsonaro esteve prestes a demitir o ministro da Saúde, mas recuou no último minuto

Luiz Henrique Mandetta tem divergido de Bolsonaro ao defender o isolamento social para conter o coronavírus. Militares e deputados pressionaram o Presidente para que o mantivesse no cargo.

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Mandetta tem sublinhado a importância do isolamento social para conter o coronavírus EPA/Joedson Alves

As gavetas do gabinete do ministro brasileiro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já estavam a ser esvaziadas na segunda-feira, quando a sua demissão, em pleno combate à pandemia do novo coronavírus, parecia iminente. Com alguns jornais a anunciarem já a sua demissão em manchetes online, o Presidente Jair Bolsonaro terá recuado no último minuto. 

Há algum tempo que o Presidente mostra sinais de desconforto com o protagonismo assumido pelo seu ministro da Saúde na gestão da pandemia do novo coronavírus. Na semana passada, Bolsonaro já tinha dito que Mandetta deveria escutá-lo mais e demonstrar mais “humildade”. Falando a um grupo de apoiantes em Brasília, o Presidente disse que “algo subiu à cabeça” de alguns membros do seu Governo sem, porém, referir qualquer nome. Em cima da mesa ficou a ameaça de usar a “caneta” para os afastar.

A permanência do ministro da Saúde no Governo, após uma convocação extraordinária de todos os ministros ao Palácio do Planalto na segunda-feira à noite, é “uma vitória momentânea da ala militar do Governo”, escreve o colunista do jornal Folha de São Paulo Igor Gielow​. “Capitaneada pelo ministro Fernando Azevedo (Defesa) e operacionalizada por Walter Braga Netto (Casa Civil), [esta ala] está buscando reduzir a temperatura dos movimentos abruptos do chefe”, explica.

Na segunda-feira circularam insistentemente notícias na imprensa brasileira que davam como certa a demissão do ministro Mandetta e, ao mesmo tempo, a notícia de que o ex-ministro Osmar Terra foi contactado para o substituir. Um jornal avançou que já estava a dar instruções aos governadores para aliviarem as medidas de isolamento social nos seus estados.

À medida que a notícia da saída de Mandetta, encarado como uma espécie de “adulto na sala” face à epidemia do coronavírus no Brasil, se espalhava, em cidades como São Paulo voltaram a ouvir-se “panelaços” em protesto contra a iminente demissão e, nos bastidores, vários sectores tentavam dissuadir Bolsonaro. Entretanto, o Governo estava reunido em Brasília para definir o futuro do ministro.

Essencial para a manutenção de Mandetta no cargo terá sido também a pressão exercida por deputados e senadores do chamado “centrão” – um grupo fluido mas numeroso no Congresso, que é vital para que qualquer projecto legislativo seja aprovado.

Numa conferência de imprensa já ao início da noite, Mandetta pôs fim à incerteza e garantiu a sua própria continuidade. “Nós vamos continuar porque, continuando, a gente vai enfrentar o nosso inimigo”, declarou o ministro, que falou na sede do Ministério da Saúde e não no Palácio do Planalto.

Depois de admitir que as gavetas do seu gabinete já estavam a ser limpas, Mandetta lamentou o que definiu como “solavanco”. “Esperamos que a gente possa ter paz para poder conduzir”, afirmou.

Mandetta e Bolsonaro divergem quanto à forma de lidar com a epidemia do novo coronavírus que no Brasil já infectou mais de 12 mil pessoas e causou 566 mortes. O ministro tem sublinhado a importância das medidas de isolamento social e encerramento de estabelecimentos não essenciais, ecoando as recomendações de organismos internacionais como a Organização Mundial de Saúde. Pelo contrário, Bolsonaro tem criticado a adopção de medidas desse género em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, temendo os efeitos sobre a economia.

Outra divergência está relacionada com a utilização da hidroxicloroquina, um medicamento usado no tratamento da malária, que mostrou algum sucesso quando administrado a pacientes infectados com o novo coronavírus. Bolsonaro tem insistido no seu uso, apesar de os estudos sobre a sua capacidade para tratar a covid-19 estarem ainda numa etapa muito preliminar. Mandetta, que é médico de formação, tem-se mostrado mais cauteloso, irritando o seu Presidente.