Luciano tem 100 anos e venceu a covid-19. “É um caso de superação”

No Hospital de São João, no Porto, um doente que entrou com covid-19 recuperou e já recebeu alta. Fez 100 anos no dia 31 de Março. É a prova de que ser idoso e ser infectado pelo coronavírus não é obrigatoriamente uma fatalidade.

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Luciano Silva, 100 anos feitos a 31 de Março, já recebeu alta do hospital Manuel Roberto

Luciano Marques da Silva pôs uma condição quando lhe perguntaram se aceitava receber os repórteres na cama 2 do Serviço de Infecciologia do Hospital de São João, no Porto, onde foi internado por ter contraído a covid-19: sim, desde que lhe fizessem a barba. E o motivo para a intromissão jornalística é simples: Luciano Marques da Silva fez 100 anos no dia 31 de Março, foi infectado com o SARS-Cov-2, debelou o vírus e, na sexta-feira, ao fim de dez dias de internamento, recebeu alta, estando prestes a integrar a lista dos 75 recuperados desta pandemia.

Resistir ao coronavírus aos 100 anos de idade é um feito que contraria a elevada taxa de letalidade do vírus que, nas pessoas acima dos 70 anos, já ultrapassa os 10%, segundo os últimos dados oficiais. Luciano Silva parece saber disso, exibindo-se aprumado no seu pijama azul, cabelo sem um fio fora do sítio, e acenando para a máquina do fotógrafo com um à-vontade que nos faz esquecer o fio que lhe fornece ainda algum oxigénio para o ajudar a respirar. Do bolo de aniversário já não há resquícios, mas presos à cadeira estão ainda os balões com que médicos, enfermeiros e auxiliares interromperam o trabalho para lhe cantarem os parabéns. “Ele é muito cuidado, orientado, colaborante e autónomo nas actividades da vida diária. Não fosse o oxigénio, estaria de pé. Esperamos dar-lhe alta a muito curto prazo”, explica, desde o corredor, a enfermeira-chefe Marlene Teixeira, apontando este caso como “um caso de superação”.

Em sendo impossível falar directamente com Luciano, dado que só os profissionais de saúde podem entrar no quarto e desde que devidamente munidos com bata impermeável, dois pares de luvas, óculos ou viseira e máscara ou respirador de partículas, consoante o grau de exposição, é a filha, Maria José, que conta ao PÚBLICO o susto que apanhou quando, no dia 24 de Março, pediu que uma ambulância transportasse o seu pai até ao hospital. “Ele andava com tosse, primeiro seca e depois com muita expectoração, e eu comecei a ficar com febre que não se resolvia como Ben-u-ron. Quando eu e o meu marido fizemos o teste, o resultado foi positivo para a covid-19. Foi aí que percebi que a tosse do meu pai também devia estar relacionada com isso.”

Nesse dia, Maria José fez das fraquezas força. “Tive medo que fosse tarde. Mas nunca lhe mostrei o medo que senti – nem ele a mim. Disse-lhe só que no hospital seria mais fácil cuidarem dele, sabendo, contudo, que, apesar de ele ser muito resistente e lutador, é impossível vencer as guerras todas”. Pode ser. Mas, se quisermos reconstituir em poucos parágrafos a vida deste “recuperado” da covid-19, pode-se afirmar sem risco de inexactidão que Luciano Marques da Silva já venceu várias. Nasceu em 1920, na freguesia de Folgosa, concelho da Maia. Era o quarto de cinco irmãos que ficaram órfãos de pai muito cedo. Resistiu à fome e à miséria que devastaram o país durante a II Guerra Mundial, cumpriu serviço militar em Moçambique, onde chegou a fixar-se por alguns anos depois da guerra colonial. Quando regressou à Maia, casou, teve dois filhos, decidiu transformar a enxada em sustento. “Tinha vacas e cultivava milho, batatas, feijão. A produção normal para um agricultor antes de vir esta agricultura intensiva”, recorda a filha.

"Quem tiver pressa que passe à frente"

Nos seus 61 anos de vida, Maria José não se lembra de ter visto o seu pai fumar. “Sempre foi uma pessoa muito equilibrada nos seus hábitos. Come bem mas quando acha que já é suficiente pára, mesmo que lhe esteja a saber bem”, descreve sobre um homem que, aos 100 anos, diz preservar “uma memória bestial e uma lucidez incrível”. “Gosta muito de viver. Antes de esta pandemia começar, se estivesse bom tempo, dificilmente ficava em casa. Se calhasse perguntar onde ia, a resposta era ‘Vou assoalhar’”, acrescenta a filha, para precisar que, desde que foi viver consigo, em Vermoim, também no concelho da Maia, o pai entretém os dias a ler jornais e revistas e a escapulir-se para a freguesia de Folgosa, onde nasceu e viveu até há três anos.

A viagem entre Vermoim e Folgosa fazia-a sem incomodar ninguém. Porque, apesar de centenário, Luciano Silva continuou a guiar o seu carro utilitário preto quase até ao dia em que foi internado. “A carta caducava no final de Março e ele fez questão de a renovar. Lá foi à consulta e a lucidez dele é tão boa que a renovaram mesmo”, espanta-se a filha, garantindo que, na freguesia, já todos o conhecem de o verem conduzir “sempre devagarinho e na beira da estrada”, numa lógica de “quem tiver pressa que passe à frente”.

Nos últimos anos de ociosidade forçada, Luciano tinha recuperado o hábito, perdido há mais de 50 anos, de jogar às damas. “Era uma coisa que, pelos vistos, ele fazia em Moçambique e, para o ajudar a entreter-se, o meu marido dispôs-se a jogar com ele. O meu pai ganhou sempre. E o filho do meu marido, empolgado, desafiou-o para jogar mas também nunca lhe ganhou. Só o conseguiram derrotar quando o puseram a jogar no tablet num nível mais avançado”, orgulha-se a filha, descrevendo o seu pai como um homem “muito bem-disposto e sociável”.

 No Serviço de Infecciologia do hospital, quando um médico lhe perguntou o segredo para se manter tão saudável, a resposta ajudou a desanuviar um local onde vários infectados estão a lutar pela vida: “O segredo? Foi ter enviuvado há 40 anos”, terá retorquido. Ao final da tarde de sexta-feira, Luciano voltou para casa. “Ainda está a fazer oxigénio e sinto-o mais frágil: emociona-se com facilidade”, conta a filha. Dentro de dias, se tudo correr bem, Luciano deverá poder voltar aos seus jogos de damas. “São casos como este que nos dão força para continuar a lutar nesta guerra”, conclui a enfermeira Marlene Teixeira, reforçando, neste contexto de pandemia, aquilo que a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, quis sublinhar também na conferência de imprensa de sexta-feira: “Não é nenhuma fatalidade ser idoso e ter doenças. É apenas um aumento do risco.”