Biblioterapia

A evasão e a gargalhada são as propostas de leitura em tempos de pandemia

Resolver problemas através da leitura é a proposta da biblioterapia. Nesta quarta semana de isolamento, Sandra Barão Nobre dá duas sugestões para ler em casa.

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Blaz Photo/Unsplash

Esta semana, duas últimas sugestões de leitura, com dois propósitos distintos, porém compatíveis: a evasão e a gargalhada. A evasão pelas mãos de uma exímia contadora de histórias, que leva o leitor para ambientes antigos, longínquos e exóticos; a gargalhada por causa do reflexo da sociedade portuguesa devolvido pelas páginas de um livro onde cada leitor se verá. Dois livros escritos em séculos passados, que retratam o que é ser-se humano também no século XXI.

As mil e uma noites, editora E-primatur

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Aqui está um daqueles livros que alimentam a imaginação colectiva há séculos — porque a partir dele ganharam vida própria muitas histórias e personagens e se formaram e perpetuaram arquétipos —, mas que poucos lêem, dissuadidos, talvez, pela sua extensão. Porém, a chegada ao mercado de uma excelente edição d’As Mil e Uma Noites, em dois volumes, traduzida para português a partir dos mais antigos manuscritos árabes, é um óptimo pretexto para abraçar esta viagem até à alta Idade Média, quando os sofisticados persas dominavam uma parte considerável do mundo então conhecido.

Além da evasão mental que proporciona em tempos de reclusão, este livro permite combater o preconceito e o medo face a culturas diferentes, promove uma atitude ecuménica, de tolerância e coexistência, sensibiliza para o fosso entre pobres e ricos, potencia inúmeras reflexões sobre a condição da mulher e pode despertar a vontade de contar e escrever histórias. Há quem defenda, ainda, que pode aliviar a frigidez.

Lisboa em Camisa, de Gervásio Lobato, editora Guerra & Paz

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Esta pérola da literatura portuguesa esteve injustamente esquecida durante demasiado tempo, mas voltou em grande às livrarias nacionais há pouco mais de dois anos. Não percam a oportunidade de se divertirem e rirem até às lágrimas enquanto acompanham a história das caricatas famílias Antunes, Martim e Torres que habitaram Lisboa no final do século XIX, mas podiam muito bem ser os vossos familiares próximos, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho dos dia de hoje e em qualquer parte do país.

Lisboa em Camisa potencia não só a reflexão sobre o que é ser português, mas também sobre o que é a verdadeira natureza da vida, que quase nunca é tão glamorosa como alegamos. Há um potencial catártico no aceitar das verdades que se dizem a brincar — o alimentar de falsas aparências, os tiques arrivistas, o mexerico, a intriga e a ingerência na vida alheia, a necessidade de protagonismo ou o recurso à velha cunha, por exemplo. E saber rir de nós mesmo é uma virtude.

Boas leituras!

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