Reuters/NORA SAVOSNICK
Reportagem

Uma fotógrafa deixa Nova Iorque e volta às velhas regras (e ao conforto) da casa dos pais

Este tempo de aproximação forçada tem sido um tempo de descobertas: de diferenças, mas também de encontrar pontos em comum que talvez tenhamos esquecido. Nunca tinha chegado a esta conclusão, mas o meu pai ajudou a inspirar o meu amor por fotografia. Durante a quarentena, fui eu que o inspirei a pegar na câmara outra vez.

Quando o Presidente Trump anunciou a proibição de voos da Europa no mês passado, eu estava a mais de três mil quilómetros da casa onde cresci, na Noruega — como uma fotógrafa de 24 anos a criar uma vida própria em Nova Iorque. 

Tive de começar a pensar se arriscava o meu visto de trabalho norte-americano — e a minha recém-encontrada liberdade — para ir para casa onde tinha um sistema nacional de saúde e, mais do que tudo, a minha família. A minha mãe recuperou de um cancro há alguns anos: e se eu não a pudesse ver se ela ficasse doente outra vez?

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A passear o cão da minha colega de casa, em Queens. Nora Savosnick

Nessa tarde, tive um encontro num moderno e ainda lotado restaurante nova-iorquino. Dissemos adeus com um aceno, depois de desinfectarmos as mãos. Enquanto eu esperava ansiosamente uma mensagem para perceber se ele estava interessado em mim, ele mandou-me uma mensagem a dizer para eu ir para a Noruega enquanto ainda tinha essa oportunidade.

Na manhã seguinte, os meus pais ligaram. “Quero-te aqui, caso fiques doente”, disse a minha mãe, Chava Savosnick. “É assustador ter a minha filha do outro lado do mundo, nestes tempos.”

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A arrumar tudo para regressar à Noruega. Nora Savosnick

Num momento de pânico, comprei o bilhete de volta para Oslo, Noruega. E preparei-me para um regresso à minha infância, de quarentena na cave dos meus pais. A cave está igual a quando eu tinha 16 anos e bebia os meus primeiros goles de sidra com a minha amiga Elena. Os mesmos livros, os mesmos filmes, o mesmo sofá-cama. É reconfortante e ligeiramente claustrofóbico, ao mesmo tempo.

PÚBLICO - Os meus pais recebem-me em casa.
Os meus pais recebem-me em casa. Nora Savosnick
PÚBLICO - O meu pai foi buscar-me ao aeroporto.
O meu pai foi buscar-me ao aeroporto. Nora Savosnick
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PÚBLICO - A minha mãe a desinfectar os puxadores da casa.
A minha mãe a desinfectar os puxadores da casa. Nora Savosnick
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PÚBLICO - A casa onde cresci, na Noruega.
A casa onde cresci, na Noruega. Nora Savosnick
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Até agora, a minha mãe ainda não me apanhou a beber — nem sequer a roubar uma colher do proibido gelado. A minha infância teve muito poucos doces. Enquanto adulta a rebelar-me contra essas restrições, comecei a comprar pelo menos três potes de Ben & Jerry's [uma marca de gelados] por semana. 

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A minha mãe a preparar a cama, na cave Nora Savosnick

Agora, como tive de me isolar por duas semanas após o meu regresso da América, os meus pais ficaram em total controlo da minha dieta. Os dias em que podia fritar o meu pequeno-almoço estavam racionados, ovos estrelados incluídos. A minha mãe está preocupada com o meu colesterol e potencial hipertensão.

Apercebi-me também que os meus pais, com 60 e poucos anos, são mais saudáveis do que eu. A minha mãe caminha tão rápido como um nova-iorquino e exercita-se todos os dias, com pesos. O meu pai, Mats Haraldsson, anda de bicicleta durante horas — como aquecimento para a sua sessão de fitness. É um lenhador amador, que ainda corta a própria lenha para a lareira. Provavelmente nunca vou atingir este nível, mas devia começar a ir a mais aulas de ioga

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Os meus pais discutem sobre o que ver na televisão. Nora Savosnick

Este tempo de aproximação forçada tem sido um tempo de descobertas: de diferenças, mas também de encontrar pontos em comum que talvez tenhamos esquecido, ou nunca conhecido.

No meu quarto está uma fotografia gigante de uma árvore que o meu pai tirou quando eu era mais nova. Quando fui para a escola de Artes, o meu pai deu-me a câmara que usou para tirar a fotografia.

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O meu pai fotografado por mim. E eu antes de ir para o jardim, fotografada por ele.

Nunca tinha chegado a esta conclusão, mas o meu pai ajudou a inspirar o meu amor por fotografia. Ele próprio pensou em ser fotógrafo profissional, mas recuou, com receio de não conseguir sustentar-se se escolhesse essa carreira. “Não pensei que tivesse as competências para atingir um nível profissional”, costuma dizer.

Agora, durante a quarentena, fui eu que o inspirei a pegar na câmara outra vez.

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Nora Savosnick

Como a minha mãe diz: “Como olhas para a quarentena é uma escolha tua. Podes vê-la como um problema ou podes interpretá-la como uma oportunidade para teres duas semanas para estar contigo mesma, para pensares e para pores em acção coisas para as quais não terias tempo.”

Uma noite durante a minha quarentena, sentámo-nos e perguntámos uns aos outros o que é que este tempo significa para nós e para o mundo. Nunca tínhamos feito nada assim. Foi divertido e, em certas situações, comovente.

A minha mãe disse-me que foi difícil manter-se longe de mim quando cheguei a casa. O meu pai disse que estava contente por me ter em casa. “Nestes dias, temos de nos reunir”, disse.

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Falámos do que mais nos preocupava. Para mim, é a minha mãe. Ela pertence a um grupo de risco e, ultimamente, tem estado a tossir. Preocupa-me que, ainda sem mostrar qualquer sintoma, tenha trazido a doença comigo. A minha mãe, que sabe algumas coisas sobre não tomar a vida como garantida, disse: “Tens de viver todos os dias. E talvez não pensar tanto sobre o futuro.”

A doença mostrou-nos o quão interligados estamos, de formas assustadoras, mas acho que de maneira positiva também. Vimos como um sítio no mundo nos pode afectar a todos.

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A minha irmã, Hedda, e o namorado, Tony, durante um jogo de tabuleiro com a família, através do Zoom.

“Por isso é do interesse de todos que as coisas funcionem o melhor possível em todos os sítios porque podem afectar-nos também”, profetizou a minha mãe. “Por isso talvez comecemos a ser mais responsáveis e conscientes na forma como agimos com os outros.”

Na minha opinião, estamos a enfrentar uma mudança gigante. Temos tratado este planeta terrivelmente durante muito tempo e acho que podemos sair disto como pessoas melhores, mas também com um planeta melhor.

Sou eu a jornalista, mas os meus pais também me entrevistaram nessa noite. Isto foi o que eu disse. “A melhor parte é que estou a ficar mais próxima de vocês. E acho que muita gente vai sair disto a conhecer muito melhor as pessoas com quem vivem. Estou muito agradecida por isso.”

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