Entraram em Portugal sem perguntas. Quatro países, dois aeroportos e centenas de pessoas depois

Um casal, ele português, ela ucraniana residente em Portugal, testemunham aqui todos os passos do seu repatriamento, num regresso ao país sem que nada lhes fosse perguntado em relação à covid-19.

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Miguel Manso

Ireneu, português, e Nadiia, ucraniana com residência portuguesa, tinham inicialmente pensado em ir para os antípodas, mas o vírus que começava a espalhar-se pela China fechou-lhes as portas da Austrália.

Decidiram então olhar para o outro lado do planeta, na expectativa de que as piores previsões não se iriam concretizar e o novo coronavírus não ganharia uma dimensão global. E foi já no Panamá, depois na Costa Rica e, finalmente, na Nicarágua que a pandemia primeiro os cercou e depois os aprisionou.

Com o voo de regresso cancelado e sem data de reagendamento prevista, o casal estava isolado numa ilha do lago Nicarágua, assistindo à distância à forma como o vírus se espalhava na Europa e crescia no continente americano. Sem maneira de regressar a Portugal, Ireneu contactou a embaixada portuguesa no México (responsável pela cobertura diplomática nacional em vários países da América Central onde não existe representação consular). E no dia 22 de Março a diplomata ficou com o contacto de ambos e a sua localização na Nicarágua para os informar sobre eventuais novidades.

Só que os dias passavam e o silêncio em relação a um eventual repatriamento mantinha-se. E foi só através da embaixada ucraniana em Cuba que Ireneu e Nadiia souberam que iria realizar-se um voo de repatriamento de cidadãos europeus que estavam na Nicarágua, organizado pela Alemanha, com saída de Manágua, capital daquele país da América Central.

“Questionei então a embaixada portuguesa no México sobre a situação. A resposta demorou 24 horas e indicando o que já sabia pelas autoridades consulares ucranianas de Cuba - que, provavelmente, iria realizar-se um voo no final da semana ou início da seguinte. Mas ainda sem certezas”, explica Ireneu.

A confirmação surgiu apenas no dia seguinte, 26 de Março, quinta-feira, dizendo que o voo tinha saída prevista no sábado, às 7h, o que implicava estar no aeroporto várias horas antes. Com informação escassa e pouco tempo, Ireneu e Nadiia ainda tentaram obter mais dados. “Questionei a embaixada no México sobre como proceder com toda a burocracia para embarcar no avião. Mas a resposta que obtive foi nova mensagem, seca, remetendo para um e-mail que se limitava a reencaminhar um outro, dos serviços consulares alemães, onde, entre outras informações, se dizia que teria de pagar a passagem de regresso cujo valor ainda iria ser apurado”, resume Ireneu.

A estupefacção aumentou quando Ireneu e Nadiia perceberam que o voo era para Frankfurt e que a partir dali estariam por sua conta. O que significava ficar a viver dentro do aeroporto ou entrar em quarentena num país estrangeiro onde não conheciam ninguém, sem qualquer tipo de apoio logístico ou indicações de como proceder à chegada a solo germânico, uma vez que a embaixada portuguesa no México não apresentou nenhuma solução.

Ireneu e Nadiia conseguiram adquirir, a expensas próprias, através da Internet, um voo de Frankfurt para Lisboa no mesmo dia. No total, já contando com fusos horários, foram 32 horas de Manágua até Lisboa, com paragem em Cuba para reabastecer – uma maratona justificada, em grande medida, pelas quatro horas de espera na Nicarágua, dentro de um avião lotado, sob um calor infernal (contrariando todas as normas de segurança e higiene), devido a burocracias no aeroporto.

À chegada à Alemanha, no aeroporto de Frankfurt, as medidas de vigilância epidemiológicas foram apertadas e antes de entrarem no voo para Portugal tiveram de preencher um formulário intitulado Cartão de Localização de Passageiro, que se destinaria à recolha pelas autoridades de saúde de Portugal, para fins de vigilância de contactos em caso de doença transmissível.

Mas à chegada a solo nacional, no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, ninguém os interpelou. Os documentos continuam na posse de ambos, uma vez que ninguém os abordou. Apenas lhes foi solicitado para passarem numa zona demarcada, distanciados um do outro, sem que lhes fosse explicado o motivo. Eram detectores de temperatura e foram a única forma de controlo a que foram submetidos à chegada a Portugal, depois de terem estado em quatro países diferentes, dois aeroportos e contactado com centenas de pessoas, das mais variadas origens.

Ireneu e Nadiia estão, agora, em quarentena voluntária e com os documentos entregues pelas autoridades alemãs consigo. Para recordação.

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