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Fique em casa – a tempestade vai ser longa

A covid-19 vai mudar as nossas vidas e as nossas sociedades. Estas são as primeiras chuvas de uma longa tempestade. Temos de mudar de hábitos, e rapidamente. Ainda há tempo. Façamos a nossa parte.

O surto do novo coronavírus, iniciado em janeiro de 2020, levou vários países a pedir aos cidadãos que se distanciem fisicamente para reduzir o potencial contato e que fiquem em quarentena prolongada. Este distanciamento é a solução mais adequada no início de uma difícil tempestade, que será longa. No entanto, aderir a este pedido numa sociedade democrática, com direitos, liberdades e garantias constitucionalmente consagrados, não é fácil. As pessoas variam na sua adesão à quarentena durante surtos de doenças infeciosas. A adesão depende dos fatores psicológicos e práticos associados às características da doença infeciosa, do surto e da quarentena.

Comecemos por clarificar alguns conceitos:

“Quarentena” é a separação e restrição de movimento de pessoas que foram potencialmente expostas a uma doença contagiosa, com o objetivo de limitar a propagação da doença. 

“Isolamento” aplica-se às pessoas que foram diagnosticadas com a doença e que ficam impossibilitadas do contacto com outras para evitar o contágio.

Tem-se dito que, neste estado de emergência, impera a necessidade de “isolamento profilático” ou ainda de “isolamento social”. No entanto, o que isto significa é “distanciamento físico”. 

Temos de estar fisicamente distantes para evitar o contágio. 

Não queremos estar sós e não devemos ficar socialmente isolados, muito pelo contrário. Mais do que nunca, as redes sociais, virtuais ou não, devem ser ativadas. Temos de falar, de partilhar dúvidas, anseios e expectativas e de clarificar o desafio que temos pela frente – maximizar a conexão social com distanciamento físico.

Falemos agora do desafio.

Este coronavírus é novo e ninguém tem imunidade. Mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas terão contacto com o vírus. Quanto mais tarde, melhor.

Em Portugal, estamos em fase de mitigação, o que significa que esta é a fase mais grave de combate à propagação do vírus. Nesta fase, as autoridades de saúde pedem-nos que fiquemos em casa. Haverá outras fases, mais adiante, em que outros pedidos serão feitos.

Ficamos agora em casa para abrandar o ritmo de propagação do vírus e evitar, tanto quanto possível, o colapso do Sistema Nacional de Saúde. Só assim podemos salvar mais vidas. A saúde como prioridade –​ “vão-se os anéis, fiquem os dedos”. 

O sucesso desta batalha depende da nossa capacidade de agirmos de forma adequada e concertada. A nossa sociedade proporciona-nos um conjunto de direitos, liberdades e garantias, mas também requer de nós um conjunto de deveres – “todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover”, n.º 1 do art. 64.º da Constituição da República Portuguesa. Façamos a nossa parte. 

Devemos ficar em casa, e perante o surgimento de sintomas, ligar para a Linha SNS24 – 808 24 24 24. Caso seja vítima de violência doméstica, ou conheça casos (é um crime público que deve ser denunciado), ligue 800 202 148 ou envie um sms (gratuito) para 3060. É de sobrevivência que estamos a falar.

Quanto mais eficaz for o nosso distanciamento físico nesta fase, mais recursos teremos, como sociedade, para fazer face às próximas fases. Se tivermos contacto com o vírus antes da vacina, vamos querer que os serviços de saúde possam dar a melhor resposta possível. Até lá, uma alimentação saudável, exercício físico e tudo o que contribua para uma boa forma física contribui para fortalecer o sistema imunitário e não deve ser descurado. É de sobrevivência que estamos a falar.

Temos de assegurar que haverá suprimentos suficientes de alimentos, medicamentos e outros itens essenciais. E isso também depende do sucesso do nosso distanciamento físico nesta fase e da nossa solidariedade. Cuidemos de nós e de quem nos rodeia. Nem todas as pessoas têm internet e jardins onde passear e apanhar sol enquanto dura este distanciamento. Nem todas as pessoas têm rendimentos estáveis e formas de teletrabalho. Nem todas as pessoas têm recursos para suportar esta tempestade. É de sobrevivência que estamos a falar.

Os eventos que consideramos tão importantes nas nossas vidas como casamentos, celebrações, idas à praia, jantares, diversão têm de ser adiados. É de sobrevivência que estamos a falar.

Vivemos numa era de ‘notícias falsas’ e de boatos. A bem da proteção da sociedade democrática, de direitos, liberdades e garantias, sejamos filtros ativos na troca de mensagens consistentes e úteis. É de sobrevivência que estamos a falar.

A covid-19 vai mudar as nossas vidas e as nossas sociedades. Estas são as primeiras chuvas de uma longa tempestade. Temos de mudar de hábitos, e rapidamente. Ainda há tempo. O erro de agir prematuramente raramente é tão grave como o erro de hesitar ou agir tarde demais. Façamos a nossa parte.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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