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Picar o Ponto: Profissões que não podem parar

Com o coração se faz sopa

Uma porta abre-se e um sorriso aparece. É o Márcio, agricultor. Tal como o bisavô, avô e pai. Mesmo em tempos de isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus, há quem não consiga ficar em casa. Nos próximos dias, a crónica fotográfica Picar o Ponto apresenta sete profissões que não podem parar.

São 6h. As luzes do automóvel furam a neblina densa. Adivinha-se terras lavradas. Revoltas. Silhuetas de árvores. Um círculo a deixar adivinhar um poço. Ainda em adobe. Velho e fundo. Começo a adivinhar uns traços metálicos. O pavilhão, o grande pavilhão, ali está plantado no meio de terra castanha, paredes meias com o traçado da auto-estrada. Qual o melhor símbolo de progresso que quatro faixas de alcatrão onde já se semeou batatas e feijão?

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Um camião. Tractores. Atrelados. E silêncio. Ao fundo, as cruzes dos jazigos e a torre da igreja. Uma porta abre-se e um sorriso aparece. É o Márcio, agricultor. Como se diz agora, um jovem empreendedor. Deixou o fato e a gravata e disse adeus ao sector bancário. Aprendeu a andar em torrões de terra. O bisavô, o avô e o pai sempre foram agricultores. E o Márcio sempre cultivou o “bichinho.” Fundou a Banca Terra. Madruga para tratar das suas couves, das suas alfaces, dos seus pimentos, das suas cebolas.

Numa máquina comprida de inox, três mulheres e dois homens lavam alho-francês. Parece uma fábrica. Uma linha de montagem. Em cestas enormes descobre-se a rama do alho no meio de terra e de ervas. Depois, a máquina dá o banho. Na outra ponta, retira-se as folhas menos bonitas e deposita-se o alho-francês viçoso em caixas. Márcio faz viagens pelo pavilhão com o empilhador. Empilha as caixas vermelhas. Rega. Um último banho para manter a frescura. E na boca da plataforma das cargas e descargas, o empilhador entra na caixa do camião. Em breve estará pronto para fazer-se à estrada a caminho do Norte. Ao volante vai o pai do Márcio. Destino – uma grande superfície.

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A pressão das grandes superfícies tem aumentado desde o estado de emergência. “Parece que estão a vender mais. Querem essencialmente produtos para sopa. A procura de alface decaiu imenso. Agora as pessoas só querem fazer sopa.” A entrega de cabazes porta a porta aumentou exponencialmente. Patrícia, a mulher de Márcio, não tem mãos a medir. Já não dá resposta aos pedidos. São tantos. “As pessoas têm medo de sair de casa. Temos que ser nós a ir ter com elas.” Patrícia enche a carrinha de cabazes e começa a distribuí-los. Já não faz jus ao slogan da empresa  “cultura de proximidade.” Nem sequer toca à campainha. Telefona para o cliente. “Já tem o cabaz à porta.” Pela janela, uma mulher espreita. “Como lhe pago?” Patrícia, apressada, grita: “Fazemos contas no fim do mês.”

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De luvas e facas, Manuela, Adília, Ana Jorge, Damas, Alexandre e Márcio colhem couve-coração. No meio daqueles campos todos parecem esquecer o vírus. Fazem o que sempre fizeram. Dobradas e dobrados. Escolhem as melhores couves. Carregam caixas. Damas, o puto de 18 anos, é o mais sorridente. Trabalhador, adivinha-se os músculos. Ali esquecemos o estado de emergência. Esquecemos o vírus. Ali é só verde e azul. E também coração.

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