Nyusi admite que ataques em Cabo Delgado “podem comprometer” soberania em Moçambique

Na primeira reacção depois de os jihadistas terem atacado pela primeira vez duas capitais de distrito, o Presidente moçambicano não disse se irá combater os terroristas.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, assumiu o cargo em Janeiro para cumprir o seu segundo mandato
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O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, assumiu o cargo em Janeiro para cumprir o seu segundo mandato ANTÓNIO SILVA/LUSA

O Presidente moçambicano tardou mais de três dias para reagir publicamente aos ataques de jihadistas na província de Cabo Delgado, reconhecendo que põem em causa a soberania do país, mas não apontou qualquer medida que o Governo central esteja a preparar para combater os terroristas que pretendem criar um Estado governado pela lei corânica no Norte de Moçambique.

“Os ataques armados na zona norte da província de Cabo Delgado e em zonas localizadas do centro do país podem comprometer a nossa soberania”, afirmou Filipe Nyusi, citado pela Lusa. Não foi numa comunicação ao país, nem num comentário específico sobre os ataques de segunda-feira em Mocímboa da Praia e de quarta-feira em Quissanga, mas num discurso genérico para os novos membros do Conselho Nacional de Defesa e Segurança.

O chefe de Estado não fez qualquer referência aos ataques, nem aos polícias que terão morrido (nos vídeos divulgados pelos jihadistas, contam-se mais de uma dezena de corpos só em Quissanga), nem ao facto de os militares não terem actuado para responder aos atacantes, que destruíram edifícios públicos, queimaram veículos da polícia e das administrações distritais e se apossaram de armas, munições e veículos.

Nem sequer ao facto de o ataque em Mocímboa da Praia ter sido reivindicado pelo Daesh na sua agência oficial e ter aparecido um porta-voz dos homens armados a afirmar que estão a lutar para instalar o estandarte negro e a lei corânica em Cabo Delgado e retirar “a bandeira da Frelimo”, que é como quem diz, fazer com que a província deixe de respeitar o poder central de Maputo: um estado islâmico dentro do Estado de Moçambique.

Nyusi admitiu que entre os principais desafios neste seu segundo mandato está a violência armada em Cabo Delgado, mas esse era um desafio que vinha desde 2017, quando os jihadistas começaram a sua onda de violência e desestabilização nas zonas rurais de Cabo Delgado. Dois anos e meio depois, mais de 300 ataques, mais de 700 mortos e mais de 100 mil deslocados depois, o Presidente moçambicano não apresentou qualquer plano para além de constatar a ameaça à soberania do país.

Com “o pleno funcionamento do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, pretendemos, de forma inclusiva e participativa, consolidar o sentido de homogeneidade que deve reinar entre todos intervenientes que colaboram para a defesa da nossa integridade territorial e soberania”, afirmou o Presidente.

Nyusi juntou a violência em Cabo Delgado, os ataques no centro do país levados a cabo por militares da Renamo que se recusam a aceitar o acordo de entrega de armas assinado pelo líder do seu partido, Ossufo Momade, e a pandemia do coronavírus como sendo “os desafios” que se juntam “aos da consolidação do Estado de direito democrático”.

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