Coronavírus: ter mais de 65 anos é uma variável, mas não implica uma condenação

“Mesmo sendo vulneráveis, a maioria dos idosos afectados supera a infecção por coronavírus”, sublinha o psicólogo espanhol Javier Yanguas.

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“Os idosos aparecem como supostos culpados" na imprensa, segundo o psicólogo, uma má prática Reuters/VASILY FEDOSENKO

Especialistas em cuidados a idosos dizem que ter mais de 65 anos é “apenas uma variável” e não implica uma condenação pela covid-19, mas reconhecem alguma vulnerabilidade relacionada com a idade determinada por algumas condições de saúde.

“É verdade que os idosos são fisicamente mais vulneráveis, mas eu gostaria de lembrar que, mesmo sendo vulneráveis, a maioria deles está bem e a maioria dos afectados supera a infecção por coronavírus”, disse à agência de notícias espanhola Efe Javier Yanguas, psicólogo e director científico do Programa Sénior da Fundação La Caixa.

Este especialista defende que pôr a idade do paciente nas manchetes dos jornais que resumem o número de infectados ou falecidos todos os dias, sem contexto, não é uma boa prática. “Os idosos aparecem como supostos culpados, entre aspas. Parece que, enquanto são eles, não é a nossa vez. Até acho que as pessoas estão um pouco aliviadas. Hoje de manhã, no supermercado, ouvi uma pessoa a dizer a outra que o coronavírus afecta apenas pessoas mais velhas.”

O psicólogo explica que “não se trata de disfarçar a realidade, mas de não contribuir para vitimizar com discursos tremendos que deixam de lado o facto de que muitos idosos estão bem e que mesmo em determinadas idades é possível superar [a doença covid-19]”.

Para Yanguas, o facto de haver muitos mortos entre idosos não deve levar a afirmar que a população acima de 65 anos é vulnerável em todas as áreas da vida. “Acredito que uma coisa é a fragilidade de um grupo de risco no nível físico e outra é que é para todos os aspectos vitais. Certamente existem pessoas mais velhas com mais poder e capacidade de lidar com essa situação do que muitos jovens.”

O psicólogo destaca também que viver na solidão e sair pouco ou nada à rua é uma circunstância habitual para muitos idosos. “Eu pergunto-me se eles realmente estão a perceber mais a sua solidão. Não sei. O que penso é que agora somos mais capazes de experimentar o isolamento e a solidão que muitos deles sofrem nas suas vidas diárias.”

Javier Yanguas aconselha a tentativa de redução do “isolamento afectivo” durante o estado de emergência, tanto na família como na vizinhança. As redes de apoio geradas espontaneamente entre os vizinhos – que permitem, por exemplo, levar as compras às pessoas com menos mobilidade – estão a ser essenciais para garantir o bem-estar das pessoas mais vulneráveis.

O especialista também aconselha as famílias a diminuir a distância emocional. “Não a distância objectiva de um metro, à qual somos obrigados, mas chamadas mais frequentes, envio de emails, ligação entre netos e avós através de dispositivos electrónicos. Tudo contribui para quebrar o confinamento sem violar as regras do estado de emergência.”

Promover redes de apoio comunitário, sensibilizar os cidadãos para as necessidades dos idosos e aprender a ficar sozinho são os três princípios que a Fundação La Caixa aplica nos seus programas de voluntariado com idosos e que, segundo o psicólogo, são aplicáveis à actual realidade.

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