Lições da Islândia, o país que mais testa para o coronavírus

Especialistas islandeses congratulam-se com a subida modesta no número de casos de infecção pelo novo coronavírus e dão crédito à política de testar até quem não tem sintomas de covid-19 e não tem suspeitas de estar infectado

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Material para um teste rápido ao novo coronavírus num laboratório em Ancara, Turquia Reuters/TURKISH HEALTH MINISTRY

A Islândia está a seguir uma abordagem diferente da maior parte dos países, tirando partido de ter uma população abaixo dos 400 mil habitantes, baseando-se numa política muito mais alargada de testes: o Governo islandês diz que não tem conhecimento de outro país que esteja a testar uma percentagem maior da sua população.

Além da população de apenas 364 mil habitantes, a grande vantagem do país foi a entrada em cena da empresa privada de genética DeCode, que se ofereceu para fazer testes em massa.

Esta oferta levantou questões éticas e levou a uma primeira recusa das autoridades, mas a Agência para a Protecção de Dados e a Comissão de Ética Científica reverteram o seu parecer negativo inicial, considerando os testes trabalho clínico e não estudo científico.​ Dos 1100 testes por dia que estão a ser feitos em média, mil são responsabilidade de DeCode, e os restantes cem dos serviços de saúde islandeses.

No final da semana passada tinham sido testadas 9768 pessoas, segundo um comunicado do Governo, ou seja, 26.762 testes por milhão, um rácio muito maior do que o 6343 por milhão da Coreia do Sul, país considerado um exemplo de uma política de testes alargada. 

“O esforço tem como objectivo ter informação sobre a prevalência real do vírus na comunidade, já que a maioria dos países estão, nesta altura, a testar exclusivamente indivíduos com sintomas”, explicou ao site Buzzfeed o responsável de epidemologia Thorolfur Gudnason.

A DeCode publicou os resultados de 5571 testes, que resultaram em 48 positivos, o que quer dizer que há apenas uma “prevalência modesta” do vírus na comunidade, indica o comunicado do Executivo.

Gudnason diz que os dados recolhidos são “uma forte indicação de que os nossos esforços para conter a disseminação do vírus estão a ser eficazes”, já que “cerca de metade dos casos diagnosticados eram de pessoas que já estavam em quarentena”. 

As medidas do país têm sido focadas, além dos testes, no rastreio de cadeias infecciosas, promoção de mais distância social entre as pessoas, campanhas para melhor higiene das mãos, medidas de quarentena voluntária e medidas estritas em instituições de saúde e lares de idosos. 

Esta segunda-feira, as autoridades da Islândia confirmavam 588 casos de pessoas infectadas, 14 das quais estão hospitalizadas. Há ainda 6816 pessoas de quarentena, e 36 recuperadas. Desde o início da pandemia morreu uma pessoa no país.

O site da revista em inglês Reykjavik Grapevine notava que o aumento desta segunda-feira era de apenas 21 casos de infecção em relação ao fim-de-semana.

Novas medidas

Apesar de o aumento do número de casos estar a ser menor do que o de outros países, foram anunciadas novas medidas para evitar que muitas pessoas se juntem no mesmo espaço, com o encerramento de piscinas, ginásios, bibliotecas, museus, e que contacto próximo, deixando também de funcionar agora cabeleireiros e lojas de tatuagens. 

As escolas secundárias e universidades suspenderam já anteriormente as aulas, mas as escolas primárias mantêm-se em funcionamento, desde que não tenham turmas de mais de 20 alunos, assim como os infantários, embora com medidas para aumentar o distanciamento.

O CEO da DeCode, Kari Stefansson, explicou que a empresa está a trabalhar para conseguir o mais rapidamente possível mais informação sobre o vírus. “Estamos a trabalhar ininterruptamente para detectar e sequenciar o vírus”, disse, citado pelo comunicado do Governo. “A detecção permite-nos dizer onde está o vírus, e o sequenciar permite-nos ver as diferenças entre os sítios em que está, e como continua a ter mutações.”

O ritmo nos testes foi, entretanto, abrandado por dificuldades ao acesso a material: no domingo foi anunciado que uma encomenda de 5000 zaragatoas para recolher amostras para os testes, essencial já que estas estavam a esgotar-se para os testes da DeCode, tinha sido reduzida para 2000, e na segunda-feira que tinha sido cancelada por falta de resposta da empresa ao enorme aumento da procura global. 

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