O Dia da Água em tempo de pandemia

Comemorar o Dia Mundial da Água em tempo de emergência, quando acorremos a um enorme desafio de saúde pública gerado pela pandemia da covid-19, significa relembrar a importância do seu uso racional, do abastecimento exigente e da mobilização de todos para a sustentabilidade do fornecimento e do consumo.

A água é um pressuposto da vida, sendo um bem escasso. Comemorar o Dia Mundial da Água em tempo de emergência, quando acorremos a um enorme desafio de saúde pública gerado pela pandemia da covid-19, significa relembrar a importância do seu uso racional, do abastecimento exigente e da mobilização de todos para a sustentabilidade do fornecimento e do consumo.

Porque o que importa são as pessoas, convém relembrar que, por via dos modelos de armazenamento e das alterações climáticas, já atravessámos, no passado recente, situações de inconsistência do abastecimento de água para consumo humano e para outros fins. Sem alterações dos comportamentos individuais e comunitários, sem reajustamentos das opções do país em matéria de gestão da água, nas diversas fases do ciclo, e sem um redobrado esforço de qualificação dos sistemas, por exemplo, no combate às perdas, será muito difícil enfrentar de forma sustentada os desafios que se colocam no horizonte com as alterações climáticas, as exigências de consumo humano e as utilizações intensivas em algumas produções agroalimentares. Pelas pessoas, Portugal precisa de comemorar o Dia Mundial da Água com um esforço permanente de uso eficiente deste recurso natural e a adequada valorização desse ativo estratégico para a vida e para o país.

Porque o que importa são as pessoas e os territórios, sublinhamos que um país que insiste em desvalorizar os elevados níveis de perda de água nos sistemas de abastecimento está a transmitir aos cidadãos uma ideia errada de que um recurso natural escasso e vital pode ser desperdiçado, sem que o esforço de identificação dos pontos de perda e a sua correção sejam prioridades de boa gestão.

Porque o importante é mesmo o acesso a um bem vital para a vida e para o bem-estar, num quadro de crescentes preocupações com os estilos de vida saudáveis e de evidentes limitações dos recursos do Estado, o que é verdadeiramente importante é que o conhecimento, a competência e a eficácia seja mobilizada para concretizar as melhores soluções de gestão, de tratamento e de distribuição de água. Sem maniqueísmos entre público e privado, o que importa mesmo é assegurar as melhores e as mais sustentáveis soluções de abastecimento da água aos cidadãos e às comunidades.

As escalas e as preocupações, ditadas pelas circunstâncias e por estar em causa a sobrevivência no atual contexto, são diferentes, mas a gestão da água precisa de uma atenção que mobilize todos, dos vários quadrantes, público e privados, para concretizar respostas às alterações climáticas, com fortes expressões em diversos pontos do território nacional. Este é um desafio comunitário, de todos, uns nos comportamentos de uso racional da água, outros na superação dos bloqueios e das perdas, nos reajustamentos dos sistemas e na procura de novas soluções para novos desafios, em alta e em baixa.

Há um estado de urgência para a mudança de mentalidades e para a reconfiguração das respostas existentes no setor da água, nas diversas fases do processo, sob pena do sistema de abastecimento ser um fator de insegurança das comunidades, ao alcance de populismos, de manipulações e de perceções erradas sobre um bem escasso vital para a vida: a água.

Comemorar o Dia Mundial da Água é ter a noção de que temos de tratar, em tempo normal, os pilares das vivências individuais e comunitárias, para estarmos preparados para acorrer às situações excecionais e de emergência. As alterações climáticas que se têm manifestado em Portugal já sinalizaram a necessidade de avaliarmos novas soluções para os desafios de sempre e para as realidades que emergem ano após ano, com cada vez maior frequência.

Mas comemorar o Dia Mundial da Água no dia de hoje já não é só valorizar a água num contexto de alterações climáticas e de potencial escassez deste recurso, é sobretudo valorizar todas as pessoas que, no meio de um surto epidémico, com muito esforço e dedicação, pondo por vezes em risco a sua saúde, tratam de garantir que a água chegue às casas das pessoas em quantidade e qualidade.

Desde a captação, à distribuição, ao armazenamento, à gestão da rede, a sua manutenção e conservação, o controlo da qualidade da água, a operação dos processos de tratamento, à garantia da segurança e higiene de pessoas e bens, um conjunto vasto de tarefas são, e serão, todos os dias, garantidas por um conjunto de pessoas treinadas e motivadas a servir bem a população.

Enfrentamos atualmente um dos maiores desafios da nossa histórica como povo. A resiliência e o improviso estão inscritos na nossa forma de ser, mas o imprevisto determina que esse suplemento de alma e de procura de soluções seja cada vez mais complementar. Onde houver um problema, um desafio ou uma oportunidade, tem de haver cada vez mais um pensamento, uma solução e uma concretização. A água não é exceção. Por cada um de nós e por todos.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico