Opinião

Saúde oral e epidemias globais

As doenças orais lideram o ranking mundial das patologias mais prevalentes no mundo, ocupando a cárie dentária a primeira posição

A celebração do Dia Mundial da Saúde oral a 20 de Março, manifesta a necessidade em dar valor a uma área específica da saúde, que embora negligenciada é vital para as populações em todo mundo. Saúde oral, traduz bem-estar, significa função plena do corpo, da mente e da relação social das pessoas.

E por ser negligenciada, são as doenças orais que lideram o ranking mundial das patologias mais prevalentes no mundo, ocupando a cárie dentária a primeira posição (presente em mais de 3,5 biliões de pessoas) e a doença periodontal posicionada no “Top 10”, com a sétima posição.

Ao falar de saúde à escala global, não podia deixar de evocar este cenário que vivemos da pandemia pela covid-19, que visto à escala da humanidade irá esvair-se ao sopro de um micro-segundo, mas quando é vivido no arresto de uma quarentena, por imposição do decreto presidencial de estado de emergência, parece ser uma eternidade!

Numa perspectiva de saúde pública e de análise económica, é pertinente pensarmos nas razões que desencadeiam estas patologias. Ao que parece a razão focal que desencadeou este novo vírus SARS-COV-2, terá sido uma zoonose (doenças transmitidas do animal para o Homem) por origem ou vector nos morcegos. Mas importa destacar o local onde isso aconteceu: Na China, em Wuhan num tradicional “wet market” onde inúmeras espécies animais sem qualquer controlo sanitário, veterinário, e deduzo total ausência de direitos dos animais, criaram um ambiente de “incubadora virulógica” que constitui uma forte ameaça à saúde pública.

O resultado destes ecossistemas de falta de salubridade está à vista!

À semelhança destes  “wet markets”, a saúde oral sofre em muitos países uma realidade não tão insalubre como os mercados chineses, mas que são também uma ameaça para a população, especialmente para os mais jovens.  As vendedoras de doces e guloseimas, apregoando a crianças inocentes, apetecíveis produtos açucarados nas imediações ou à porta das escolas e a venda de produtos altamente cariogénicos, fazem com que a as populações juvenis tenham uma grande prevalência de cárie dentária.

Parecem ser exemplos para assuntos totalmente diferentes, pela gravidade que cada um assume. Mas a verdade, é que não!

Quando esta tormenta de saúde pública da covid-19 nos largar, se não aprendermos a sanar e resolver as razões que nos trazem as doenças, mudando os ecossistemas e determinantes sociais que as originam e potenciam, acreditem que mais cedo ou mais tarde, voltaremos a ter problemas para os quais continuaremos a não estar preparados para lidar.

Neste cenário crítico onde assistimos ao trabalho realizado pelos nossos heróicos profissionais de saúde, podemos comparar e constatar que não será por formar milhões de médicos dentistas, que iremos exterminar a cárie dentária no mundo.

São estas doenças, que pela sua severidade ou dimensão, nos trazem sofrimento, despoletam instabilidade e desigualdades sociais e causam tremendos impactos económicos.

Não podemos recorrer ao seu tratamento somente pela cura, devendo a nossa ação focar-se cada vez mais pelos fatores que as podem originar.

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