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Reportagem

Calamidade em Ovar: “O que nos havia de aparecer agora”

A partir desta quarta-feira, o concelho de Ovar vai estar de portas fechadas. Não só lojas de serviços não essenciais que são obrigadas a fechar, mas está fortemente condicionada a circulação entre o concelho e o resto do território. População está calma.

A grande preocupação de Patrick Jorge, de 39 anos, são os pais. Sobretudo o pai, de 70 anos, que ao final da tarde desta terça-feira tinha começado a fazer febre. O problema é que Patrick, a esposa e o filho de nove meses têm covid-19, conforme os informaram nesta manhã, depois de terem realizado os testes, no dia anterior, no Hospital Geral de Santo António, no Porto. A família mora na mesma casa, mas há dias que não partilham o mesmo piso, e os sintomas dos mais novos são quase nenhuns. Mas eles sabem que o risco é maior para os mais velhos e, por isso, a preocupação não os abandona. O casal e o bebé são três dos infectados do concelho de Ovar que, esta terça-feira, viu declarado o “estado de calamidade”.

O termo pode parecer assustador, mas em Ovar não havia sinais de pânico ao final da tarde desta terça-feira, quando por todo o lado já se sabia que as regras para tentar conter a disseminação da covid-19 entre a população iriam ser muito mais apertadas a partir do dia seguinte. Nos espaços comerciais que ainda tinham as portas abertas (farmácias e supermercados ou mercearias) cumpriam-se as regras de acesso, a distância de segurança e aguardava-se na fila, para poder entrar. Uma calma que não evitava muitos suspiros e desabafos. “O que nos havia de aparecer agora”, suspirava um idoso que, de lista na mão, fazia as últimas compras no Minimercado Ovarense.

A notícia chegara a meio da tarde, através da página do Facebook do presidente da Câmara de Ovar, Salvador Malheiro. O social-democrata anunciava que o Governo se preparava para decretar o estado de calamidade e divulgava a decisão da Administração Regional de Saúde do Centro de determinar “o encerramento de todos os estabelecimentos comerciais e de serviços não essenciais, bem como a limitação de movimentação de pessoas, de e para o concelho de Ovar, devido à existência de perigo de saúde pública”. As medidas entram em vigor entre esta quarta-feira e o dia 2 de Abril, define o documento. Horas depois, à porta dos Paços do Concelho, o autarca explicava que existiam 28 infectados (serão 30 segundo a ministra da Saúde) com o novo coronavírus (SARS-CoV-2) e “12 casos suspeitos com altíssima probabilidade de serem confirmados”. “O contágio é comunitário e atingiu proporções muito elevadas”, disse, pedindo às pessoas para ficarem em casa. “É um caso caótico, histórico e crítico para o nosso município”, acrescentou o autarca, frisando que as alterações que serão necessárias não se fazem “carregando num botão”.

Ainda antes de o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, ter explicado que o concelho teria “uma cerca sanitária” e que apenas serviços essenciais como fornecedores de alimentos, bombas de gasolina, bancos ou farmácias continuarão abertos, já Corália Rodrigues, 45 anos, deixava a caixa do Minimercado Ovarense por instantes, para interpelar os agentes de um carro da PSP que passava na rua. Porque o espaço comercial é mesmo no centro de Ovar, mas Corália mora na Murtosa, e queria saber o que poderia esperar no dia seguinte. Ainda poderia ter as portas abertas? E ser-lhe-ia permitido o acesso? “Ainda estamos um bocadinho a cair na realidade com isto tudo, mas a polícia disse-me que como vendo bens essenciais devo poder continuar aberta e também devo poder circular, também por causa disso. Mas ainda está tudo muito no ar”, diz.

De máscara e luvas de borracha colocadas, a mulher diz que já decidiu que, podendo, só vai abrir entre as 9h e as 13h, e talvez fazer algumas entregas ao domicílio à tarde. Mas, lá está, suspira muito, porque certezas são poucas.

Também o marido da comerciante não sabia ainda como seria o dia seguinte. Trabalha numa fábrica têxtil e o turno começaria às 6h30. Se não tiver indicação em contrário, vai estar à porta da empresa, mas o mais certo é já não ser preciso, porque o estado de calamidade dita o encerramento desta e de muitas outras empresas do concelho com 55 mil pessoas.

No Cabeleireiro Lili nem se esperou pelo decreto da calamidade. Sexta-feira foi o último dia que Liliana Ferreira, 34 anos, abriu portas e um aviso na porta dá conta que o encerramento é por tempo “indeterminado”.

A cabeleireira, que não tem outras funcionárias, aproveitou, à porta fechada, para cortar o cabelo ao marido, engenheiro civil, enquanto o filho de dois anos circulava pelo salão, mas de seguida iriam para casa e estavam prontos para ficar sem trabalhar, pelo menos, até ao fim do mês. “Já estamos a receber telefonemas de amigos de outras partes do país e eu digo para não se preocuparem que isto vai alastrar para lá de Ovar”, ironiza Paulo Santos, marido da cabeleireira. Os dois concordam com as medidas em vigor, excepto uma - o encerramento do mercado municipal. “Porque não aplicam ali as mesmas medidas de higiene dos supermercados? No mercado são produtores locais, que na sua grande maioria cultivam os seus próprios produtos, enquanto nos supermercados temos produtos que vêm de camião de outros países, com os riscos associados”, diz.

Cumprir e ter paciência parecem estar na boca de todos os ovarenses, como Anabela Martins, de 49 anos, que de luva e máscara aguardava a sua vez para entrar numa das farmácias da cidade. Está de baixa para tomar conta do filho de dois anos, que retirou do infantário cerca de uma semana antes de o Governo decretar o fecho das escolas. “Comecei a ficar preocupada, porque ouvimos que havia casos na Yasaki, mas havia mães da fábrica a ir na mesma buscar os filhos ao infantário”, diz. Com o filho e o marido asmáticos decidiu não arriscar e levou a criança para casa.

É também por ele que agora está na rua, para garantir que tem medicação suficiente para enfrentar as próximas semanas. “Já tinha feito as outras compras necessárias com antecedência e só saí por causa da medicação do menino. Acho que estas medidas são necessárias e tudo isto é muito preocupante”, afirma.

À porta do supermercado Novo Horizonte também há uma pequena fila. Os clientes não guardam tanta distância como os que esperam por entrar na farmácia, mas lá dentro as regras são apertadas. Funcionárias com máscara, luvas e munidas de desinfectantes limpam todos os carrinhos que são entregues pelos clientes. Há avisos por todo o lado a dizer que a lotação permitida é de 15 clientes e que todos são obrigados a desinfectar-se assim que entram. Quando Carla Catarino, 47 anos, consegue, finalmente, entrar, uma das funcionárias encaminha-a para o dispensador com desinfectante e só depois a deixa seguir para a zona onde estão os produtos. A professora já tinha ido à farmácia buscar as máscaras que deixara encomendadas e vai agora fazer algumas compras que fazem falta na despensa lá de casa. “Estou consciente dos riscos desde o início. Há muita gente com medo e muita gente pouco consciente, que vai brincando com a situação. Faço parte de um grupo de sensibilização para a necessidade de se cumprirem as indicações das autoridades de saúde”, diz.

Na casa de Patrick Jorge as mudanças que a partir desta quarta-feira deverão mudar a vida de muitos ovarenses já estão em vigor. O diagnóstico de covid-19 exponenciou os cuidados que já desenvolvia há algum tempo. 

O homem, que tem uma oficina de reparação de automóveis, diz que não pode ter a certeza onde foi contaminado, mas quase. No dia 9, acompanhou a mulher o filho à consulta da criança no centro de saúde de S. João de Ovar. Dois dias depois, sem sintomas, já estava a optar por trabalhar à porta fechada. E depois começaram a circular notícias de que vários funcionários daquele posto médico estavam infectados. A pedido da mulher contactou um cliente que lá trabalha e que lhe confirmou que havia sete casos de covid-19 entre o pessoal, incluindo a médica que tinha atendido o menino. Na madrugada de sexta-feira, a criança fez febre. “Acho que apanhámos do nosso filho, que deve ter sido contaminado ali”, diz.

Depois de várias tentativas para falar com a Linha Saúde 24 lá conseguiu expor o caso. Aconselharam-no e à mulher a fazer o teste, mas não queriam que o bebé fosse. “E eu deixá-lo com os meus pais, quando era quase certo que ele estava infectado?”, questiona-se. Acabaram por ir os três e serem todos testados.

Com o diagnóstico a confirmar a doença nos pais e no bebé, estão, ainda assim, sem grandes sintomas. “É só como se fosse uma leve constipação, com alguma dor de cabeça à mistura. O menino, depois daquela febre, não tem nada”, diz, ao telefone. Por isso, a grande preocupação é agora com os pais. Patrick preparava-se para insistir, de novo, com a Saúde 24 para a necessidade de os pais serem testados, sem saber como iria ser feita a deslocação para o hospital. “Vejo toda a gente muito à deriva. Só hoje já tive dois contactos da Saúde 24 e em nenhum deles sabiam que já tínhamos o teste positivo”, diz.

À família resta aguardar. E aos ovarenses que vão ficar confinados ao concelho e às suas casas, também. À porta do supermercado, Jéssica Oliveira, de 34 anos, diz que ainda não sabe como vai lidar com a situação se tiver de ficar mesmo fechada em casa. “Estou desempregada, não tenho meios para encher um carrinho de compras, como muitos fazem. Tenho de ir comprando aos poucos, conforme as possibilidades. Espero que olhem também um bocadinho para nós, os pobres”, diz, enquanto aguarda a sua vez para poder entrar.