Campos de refugiados: o medo da “tempestade perfeita” com o novo coronavírus

Autoridades gregas anunciam restrições, mas não dizem o que farão se a pandemia chegar aos campos de refugiados das ilhas.

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O governo grego decidiu aumentar as restrições nos campos de refugiados por causa do novo coronavírus ALKIS KONSTANTINIDIS/Reuters

Como lavar as mãos com frequência com água e sabão quando há uma torneira para cada 130 pessoas e não há sequer produtos de higiene para usar? Como manter isolamento ou distância social quando há várias famílias a partilhar uma tenda porque há demasiadas pessoas para o espaço e condições dos campos? E caso haja pessoas doentes, como assegurar os cuidados médicos necessários?

Estas perguntas mostram porque razão se houver um contágio por coronavírus num dos campos de refugiados nas ilhas gregas (são cinco), será muito difícil - impossível - travar a propagação e tratar os doentes. 

Por isso os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outras organizações têm vindo a pedir para que as autoridades gregas retirem estes refugiados das ilhas, começando pelos mais vulneráveis. Os MSF falam mesmo numa “tempestade perfeita” de surto da doença provocada pelo novo coronavírus nos campos.

As autoridades gregas anunciaram na terça-feira uma série de medidas para os campos, que restringem a circulação de pessoas para fora dos campos, veda as partes dos campos que nos últimos anos surgiram à sua volta por já não haver mais espaço lá dentro, permitem a saída de apenas cem pessoas em cada hora entre as 7h e as 19h - depois das 19h já não pode ninguém entrar nem sair. E apenas uma pessoa por família pode ir até a um centro urbano (os campos foram feitos longe das localidades).

Um caso confirmado de uma infecção pelo novo coronavírus na ilha de Lesbos, onde está o maior campo, o de Moria, gerou o medo de que a pandemia entre no recinto.

Enquanto isso, as restrições de entrada na Grécia e as obrigação de quarentena imediata também deixaram afastados uma boa parte dos voluntários, os que ainda consideravam ir depois de uma série de membros de grupos da extrema-direita terem agredido alguns médicos, outros voluntários e jornalistas e incendiado uma escola para crianças refugiadas. 

Em Moria, a morte, esta semana, de uma criança afegã, de seis anos, num incêndio, sublinhou, ainda mais, a falta de condições no campo, que deveria ter até 3000 pessoas no máximo mas que tem actualmente mais de 19 mil.

Apesar das condicionantes, os MSF dizem que manterão as suas clínicas em três das ilhas onde há campos. E criticam o Governo grego por defender campos fechados com o argumento de que esses seriam mais seguros para as comunidades em volta. Mais, “até agora não vimos qualquer plano de resposta credível para uma epidemia”, diz Hilde Vochten, coordenadora dos MSF na Grécia.

Isto acontece ao mesmo tempo que em todo o mundo os governos pedem às pessoas que não se juntem - e o próprio Governo grego anunciou ontem um limite de dez pessoas para ajuntamentos nas ruas, sob pena de multas de até 1000 euros, depois de dias antes ter suspendido as missas (uma decisão difícil num país onde a Igreja Ortodoxa é uma instituição poderosa).

Embora a ideia de pedir a retirada de pessoas numa situação de pandemia possa parecer assustadora, dizem os MSF, obrigar as 42 mil pessoas nos campos a viver ali com uma ameaça de pandemia é agora não só “irresponsável como está no limite de ser criminoso”. 

As restrições de viagens para a União Europeia e encerramento de fronteiras de países significam que os programas de recolocação, em que refugiados onde estão por exemplo em campos são levados para um outro país, onde possam ter asilo e seguir a sua vida, estão temporariamente suspensos, disse o ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados), que trata destes programas junto com a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

A deslocação de menores não acompanhados recentemente acordada com uma série de países europeus incluindo Portugal, Finlândia, França e Luxemburgo, assim como a cidade alemã de Berlim, também poderá estar em risco, disse à Reuters a coordenadora especial para a resposta aos refugiados e migrantes na Europa da Unicef Afshan Khan. Estima-se que estão nestes campos 5500 menores sozinhos.

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