Os comboios fantasma da linha do Oeste

De segunda a sexta-feira a CP mantém na linha do Oeste um anacrónico movimento de comboios “por motivos técnicos” que não são rentabilizados com serviço comercial. Estes circulam entre Caldas da Rainha e Coimbra mas não podem transportar passageiros.

,Vagão de trem
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rui Gaudencio

Há pelo menos cinco anos que a CP realiza entre segunda e sexta-feira um comboio fantasma que sai das Caldas da Rainha às 21h35 e chega a Coimbra às 23h21 e outro que sai daquela cidade às 23h41 para regressar às Caldas à 1h27. Estes comboios contam com um maquinista e um revisor na sua tripulação, pagam taxa de uso (portagem ferroviária) à Infra-estruturas de Portugal e gastam 200 litros de gasóleo aos 100 quilómetros, mas circulam vazios porque a CP não permite que façam serviço de passageiros.

A empresa chama-lhes “marchas especiais” e justifica-os pela necessidade de trocar material circulante que vai à manutenção às oficinas de Contumil (Porto). É por isso que sai uma automotora em vazio das Caldas da Rainha para Coimbra, mas, curiosamente, já efectua serviço de passageiros entre Coimbra e Porto. Em sentido contrário, circula uma outra automotora do Porto para Coimbra (em serviço comercial) que prossegue a sua marcha para as Caldas da Rainha (sem serviço de passageiros).

A CP não explica por que motivo aproveita estas composições em metade do seu percurso para transportar pessoas e não o faz na outra metade.

A transformação destas “marchas especiais” em comboios regulares não acarretaria quaisquer custos adicionais para a empresa, salvo os resultantes das paragens nas estações, caso a CP aceitasse que fizessem serviço comercial em S. Martinho do Porto, Valado dos Frades, Marinha Grande e Leiria. Mas seriam sempre custos residuais.

Presentemente, entre o pagamento da taxa de uso e o consumo de combustível, a ida e volta destas “marchas” custa à CP cerca de 900 euros por dia.

Questionada sobre a razão dos comboios circularem vazios, a empresa respondeu que “os horários destas marchas, do ponto de vista comercial, têm uma atractividade que será muito reduzida para os potenciais passageiros” pelo que “a sua conversão em comboios com serviço comercial carece de fundamentação”.

No entanto, de acordo com os horários da própria empresa, se os comboios fantasma do Oeste fizessem serviço comercial, poderiam assegurar correspondência, em Coimbra, para Aveiro e Porto e para o comboio internacional que vai para Espanha e França. Em sentido contrário, o comboio que circula vazio para as Caldas da Rainha poderia transportar passageiros vindos do Porto que assim teriam mais uma ligação para o Oeste.

A CP aponta ainda mais uma razão para não mudar nada e manter os comboios a circular vazios: “esta medida teria que ser enquadrada no âmbito do Contrato de Serviço Público e analisada a sua pertinência e justificação do ponto de vista do serviço público a que a CP se obriga e pelo qual receberá compensações do Estado. Neste contexto, compete à CP apresentar propostas que dêem resposta a reais necessidades de mobilidade ferroviária e tenham justificação do ponto de vista financeiro, o que nesta situação, será dificilmente comprovável”.

A transportadora pública está, assim, inibida de lançar novos serviços sem a autorização das tutelas sectoriais e financeira, uma vez que está “amarrada” ao contrato de serviço público. E perante a perspectiva de lançar um serviço comercial deficitário que sirva alguns passageiros, prefere assumir um custo diário sem quaisquer receitas.

A mesma fonte oficial diz que “a administração da CP considera que há um mercado potencial do Oeste para Norte e vai analisar soluções que possam justificar o reforço dessas ligações, no contexto actual”.

Foi precisamente o troço entre Caldas da Rainha e Coimbra que esteve prestes a encerrar em 2011, no âmbito das medidas anunciadas pela troika, mas um estudo apresentado pelos autarcas da região que demonstrava que era precisamente no seu troço Norte que a linha tinha mais potencial, levou o governo de então a recuar.

A CP lançou então uma nova oferta com comboios directos entre Caldas da Rainha e Coimbra que se revelou um sucesso comercial. Nove anos depois mantêm-se os mesmos três comboios diários em cada sentido (mais a rotação nocturna das “marchas especiais”).

O último comboio das Caldas da Rainha para Coimbra é às 16h15. A “marcha especial” sai da mesma estação às 21h35, mas não pode levar passageiros.

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