Coronavírus: autocaravanas estrangeiras invadem o Alentejo e já há blocos de betão na fronteira de Serpa

A ausência de casos de infectados está a levar a uma romaria até ao Alentejo numa altura inusitada do ano e há quem esteja a procurar casa nalgumas aldeias do interior alentejano ou em montes isolados para fugir ao contágio do novo coronavírus.

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Adriano Miranda

O facto de a região Alentejo não ter registado, até ao momento, um único indivíduo infectado com a doença covid-19 está a suscitar uma desusada movimentação de autocaravanas para algumas zonas do interior e do litoral alentejano e a procura de casa em montes isolados para fugir ao contágio.

No último fim-de-semana, o PÚBLICO testemunhou a circulação de um número anormal de autocaravanas que circulavam no IP-8 e IP-2. Rui Eugénio, morador em Beja e membro da Comissão de Utentes do Hospital de Beja, também observou que lhe pareceu “virem fugidos sabe-se lá de onde” e serem conduzidos por pessoas “já com alguma idade” de várias nacionalidades.

A “grande movimentação” de autocaravanas fazia crer que “haveria uma preocupação em sair do país” mas como as fronteiras entretanto encerraram “muitos deles voltaram para trás” e pelo modo como circulam “parece que andam ao Deus dará”, conjecturou Rui Eugénio.

No entanto, Rui Pato, morador em Serpa, deu conta, ao longo desta segunda-feira, de grandes movimentações de tráfego vindo de Espanha, que incluía autocaravanas a entrar em Portugal pela ponte que atravessa o rio Chança, no lugar de São Marcos. O PÚBLICO solicitou esclarecimentos a Francisco Godinho, vereador da Câmara de Serpa, que confirmou a circulação de viaturas naquele ponto da fronteira. No entanto, acrescentou, já foi “acordado com o alcaide de Paymogo (a povoação espanhola vizinha de Serpa) o seu encerramento ao trânsito automóvel e de pessoas recorrendo à “colocação de blocos de betão” nos dois lados da fronteira. A operação foi executada às 15h desta segunda-feira.

Também o parque de campismo da cidade alentejana foi encerrado após a saída de todos os que se encontravam no seu interior, incluindo autocaravanas. Rui Pato referiu que elas permaneceram em Serpa concentradas em vários locais na periferia do perímetro urbano. No concelho de Mértola, perfilam-se junto ao cais fluvial no rio Guadiana. E há relatos de vários veículos deste tipo na costa algarvia.

No litoral alentejano, uma zona onde sempre houve graves problemas com autocaravanas a estacionar em todo o lado na altura do Verão, estão também a chegar estas casas sobre rodas. É o caso da Zambujeira do Mar, onde a presença deste tipo de viaturas oriundas de vários países é vista pelos moradores como um risco de contágio pela covid-19.

Alberto Santos, residente na localidade, descreveu ao PÚBLICO a razão central da sua preocupação: “Hoje mesmo (segunda-feira) observei uma autocaravana com enorme atrelado e matrícula italiana.” A deslocação de cidadãos italianos, nesta altura, pode significar que “as pessoas vêm para aqui atemorizadas”, mas para os que residem na zona e que “nem sequer saem à rua para não criar problemas, este movimento assusta muito” por se viver uma situação de “grande risco sem que seja visível qualquer tipo de controlo”, observa Alberto Santos.

Defensor do direito a circular no “espaço comum que é a Europa”, considera, no entanto, que no actual contexto em que o continente está mergulhado, há “uma potencial situação de contágio” que “ultrapassa o direito de liberdade de circulação”.

Mais a norte, junto à lagoa de Santo André, um residente local adiantou ao PÚBLICO um número “inusitado de autocaravanas, 16,” que considera “estranho” pela sua quantidade: “São muitas nesta altura do ano.” A grande maioria dos seus utilizadores eram alemães e holandeses, mas “não é gente do pé descalço” pelo tipo de viaturas que apresentam, diz. 

Mas não é só com a casa às costas que se assiste a uma peregrinação até ao Alentejo. A ausência de infectados por covid-19 na região está a alimentar a esperança de algumas pessoas de poderem encontrar nas pequenas aldeias do interior ou em montes isolados um espaço para viver com segurança, onde se sintam protegidas.

Na passada semana, José Maria Louzeiro, residente em Vales Mortos, pequena localidade do concelho de Serpa, foi contactado por uma pessoa conhecida para saber se aceitaria alugar uma moradia que tem junto ao monte onde vive a um casal jovem com dois filhos, que reside na Costa do Sol, “por um período de seis meses”, até que a ameaça do coronavírus fosse mitigada. Entretanto o casal optou por residir em Vila Verde de Ficalho, ultimando-se neste momento o contrato de arrendamento. A sua actividade profissional é baseada no teletrabalho que executam para os Estados Unidos da América.

Não será um caso isolado: Carlos Veredas, morador em Vila Nova de S. Bento, disse ao PÚBLICO que “tem dado notícia de pessoas a procurar casa nas aldeias e nos montes para se protegerem do vírus” assinalou.

Mas o que aparenta ser uma vantagem - população dispersa ou isolada e baixos índices demográficos - pode transformar-se num pesadelo dada a elevada percentagem de idosos, serviços de saúde com graves carências e uma cobertura sanitária com grandes lacunas. Este conjunto de circunstâncias representa uma “verdadeira ameaça à população alentejana”, critica Rui Eugénio, chamando a atenção para “o abandono” a que estão votadas as comunidades envelhecidas e sem assistência médica garantida. “Nem sequer sabemos como irão actuar os serviços de saúde se houver infectados com o vírus. E se tal vier a acontecer será dramático para os mais idosos”, conclui Afonso Henriques, outro dos elementos da Comissão de Utentes do Hospital de Beja.

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