Coronavírus: relação “estreita” com o clima aponta para Verão mais calmo em Portugal

O investigador Miguel Bastos Araújo concluiu, com os dados actualmente disponíveis, que o vírus estará mais activo por cá até ao final da Primavera, sendo mais preocupante durante o Verão em locais como o Canadá, a Escandinávia ou o hemisfério Sul.

Uma análise ao número de casos da doença covid-19 e aos locais em que ela se manifestou de forma mais intensa permite estabelecer uma “relação muito estreita” entre o novo coronavírus e o clima, com os dados a apontarem para a preferência do vírus SARS-Cov-2 por temperaturas entre os seis e os 11 graus e a presença de pouca humidade no ar.

Nos últimos dias, o investigador português Miguel Bastos Araújo e o colega Babak Naimi analisaram todos os locais onde foram identificados mais de cinco casos positivos do novo coronavírus e criaram um modelo que permite relacionar a frequência do número de casos com as condições climáticas. Em condições normais, as projecções a que chegaram aguardariam meses para serem divulgadas (nomeadamente para permitir a validação por outros investigadores), mas a gravidade e urgência que envolve a actual pandemia levaram os dois cientistas a avançar já com os resultados, mesmo que estes possam vir a sofrer algumas alterações com o evoluir da situação. “Não era possível esperar porque os resultados têm implicações muito importantes em termos de gestão de saúde pública e da economia”, diz ao PÚBLICO Miguel Bastos Araújo, prémio Pessoa em 2018.

E uma das conclusões a que chegaram é que a pandemia, apesar de global, não vai afectar todo o mundo ao mesmo tempo. “Este padrão assíncrono vai permitir aos serviços públicos prepararem-se com antecipação e aos actores económicos reduzirem a incerteza, minimizando os riscos para a sua actividade”, pode ler-se no artigo divulgado pelo biogeógrafo português no seu blogue. Miguel Bastos Araújo pormenoriza: “Nas regiões temperadas haverá, como já se esperava, um efeito de sazonalidade. A sazonalidade Norte/Sul é evidente. Quando for o Verão no hemisfério Norte e Inverno no hemisfério Sul, esta zona será mais afectada. Mas também é verdade que, se dividirmos a região temperada em fria e quente, também encontramos aí uma variação”, diz.

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Risco de disseminação do novo coronavírus ao longo dos meses

“Isto significa que a região temperada quente, onde se inclui a Europa central e grande parte da China, da Turquia e dos Estados Unidos, será mais exposta ao vírus no Outono, Inverno e Primavera. Mas a região temperada fria, que inclui o Canadá, o Norte dos Estados Unidos ou a Escandinávia, estará mais exposta à propagação do vírus no Verão”, sintetiza o investigador. Esta projecção, salienta, permite “gerir o risco”, não só na preparação ao combate à doença mas em algo mais mundano como a preparação de férias. “Se hoje ir de férias a Itália, Portugal ou Espanha não é boa ideia, em Julho e Agosto estes países serão um bom local para o fazer, contrariamente ao que irá acontecer nessa altura no Norte da Europa ou no hemisfério Sul”, diz.

A outra conclusão a que a análise de dados levou é que as regiões tropicais “têm condições adversas” à propagação do vírus. Isto não significa que ele não possa disseminar-se nestas zonas, porque há outros factores que não as condições climáticas a ter em conta – como a interacção humana, a densidade populacional ou o comportamento individual –, mas Miguel Bastos Araújo acredita que “se houver medidas de contenção apropriadas o contágio será menor do que cá”. Já as regiões mais áridas, que incluem o Irão, onde existem mais de 11 mil casos e mais de 500 mortos, enfrentam “um risco moderado”, quando comparado com as regiões temperadas, o que, para os investigadores, significa que medidas de contenção apropriadas serão aqui mais eficazes.

O trabalho agora apresentado partiu do número de casos da covid-19, mas analisou o comportamento do SARS-Cov e não do actual SARS-Cov-2, que ainda está sob intenso estudo por parte da comunidade científica. Ainda assim, os dois coronavírus são “estruturalmente muito parecidos”, argumenta Miguel Bastos Araújo, pelo que “é muito provável que exista uma proximidade em relação às condições em que se desenvolvem”.

O cientista diz que o modelo criado para a análise que levou às projecções agora divulgadas vai ser actualizado semanalmente com os novos dados que forem surgindo e até à publicação do artigo científico numa revista da especialidade.

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