Coronavírus: mais 81 enfermeiros para reforçar o SNS24 na sexta-feira

A ministra da Saúde Marta Temido responde aos deputados no Parlamento sobre o que está o país a fazer para dar resposta à epidemia provocada pelo novo coronavírus.

Marta Temido
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LUSA/TIAGO PETINGA

A linha SNS24 vai ser reforçada com mais 81 enfermeiros para aumentar a capacidade de resposta ao acréscimo de procura provocado pela epidemia do novo coronavírus. Nos últimos dias, o volume de chamadas para esta linha de apoio teve picos de procura, deixando muitas chamadas por atender. No Parlamento, a ministra da Saúde anunciou que as autoridades estão a preparar-se para a possibilidade de fazer recolher material biológico em casa para a realização de testes ao novo coronavírus e internar doentes ligeiros em casa.

“Esta sexta-feira a Altice [empresa que garante a operacionalização da linha SNS24] vai reforçar o número de enfermeiros disponíveis para atendimento em 81”, afirmou a ministra Marta Temido, na comissão parlamentar de saúde, onde é ouvida numa audição regimental sobre políticas de saúde.

A epidemia de coronavírus concentrou a maioria das perguntas dos deputados. E a capacidade de resposta da linha SNS24 (808 24 24 24), nomeadamente as chamadas que ficaram por atender, foi questionada por vários deputados. Marta Temido adiantou, além do reforço de enfermeiros, outras alterações que estão a ser feitas.

“Vamos reunir-nos com as ordens profissionais esta sexta-feira e já estamos a conversar com a Ordem dos Psicólogos de forma a equacionar o apoio de psicólogos na linha. Temos em vista a abertura de um call center noutro ponto do país, uma maior informatização do atendimento e introduzir também a possibilidade do atendimento por enfermeiros ser feito noutras zonas do país e não só em call centers”, especificou Marta Temido.

A ministra deixou novamente o apelo de que quem só precisa de informação opte por colocar as dúvidas por e-mail, deixando o atendimento pessoal para as situações que exigem triagem de sintomas. Sobre a questão de poder haver uma outra linha só dedicada ao novo coronavírus, disse que a “capacidade de desdobramento” foi “longamente” discutida na terça-feira. “Parece-nos que criar uma hot line não terá o efeito mais desejável.”

A secretária de Estado da Saúde, Jamila Madeira, salientou que, apesar de o número de chamadas atendidas pelo SNS24 já ter ultrapassado o que está previsto no contrato, não houve indisponibilidade por parte da entidade contratada para dar resposta e prosseguir com o reforço. A secretária de Estado adiantou que as chamadas já não estão a ser atendidas por ordem de chegada. Há uma separação e a informação é separada da triagem, para priorizar triagem à restante resposta.

Jamila Madeira voltou a repetir os números dados esta terça-feira pela directora-geral da Saúde em relação à capacidade de atendimento: “O SNS24, antes de segunda-feira, permitia atender em simultâneo 200 chamadas, na segunda-feira 500 chamadas em simultâneo e na terça 1200 chamadas em simultâneo. Independentemente dos recursos humanos, é preciso que a tecnologia suporte este reforço das chamadas”, salientou.

Análises e internamentos em casa

Portugal está ainda numa fase de contenção alargada da epidemia, mas preparada já a fase seguinte, a de mitigação, “na qual será inevitável entrar dentro horas ou dias, porque a dinâmica da infecção está a ser muito rápida”. Ou seja, quando o vírus circular de forma alargada na comunidade.

Marta Temido fez um balanço das medidas já tomadas e anunciou outras que estão a ser concluídas. “Temos dez hospitais de primeira e segunda linhas a receber doentes e temos mais dez laboratórios com capacidade para a realização de análises. Está pronta a capacidade de realização de recolha de material biológico em casa e ainda o recurso à hospitalização em casa, em caso de doença ligeira”, revelou Marta Temido.

“Estes são momentos em que todos os serviços sociais, e especialmente o SNS, estão debaixo de grande pressão e também à prova, que queremos superar”, assumiu a ministra, referindo que as medidas aplicadas para conter a epidemia do novo coronavírus em Portugal já tiveram um impacto de 10 milhões de euros no orçamento da Saúde.

Questionada pelos vários deputados sobre os equipamentos de protecção individual (EPI), a ministra disse que desde o início procurar dotar as instituições com mais meios para reforçar os stocks em 20%. “O que enfrentamos ao nível dos EPI são restrições de disponibilidade no mercado. Alguns países optaram por politicas mais proteccionistas e puseram em causa a possibilidade de exportação. A Comissão Europeia abriu, segunda-feira, um procedimento de compra conjunta de EPI: máscaras, toucas, viseiras. Temos a expectativa de reforço por essa via.”

E como as disponibilidades deste material não são ilimitadas a nível mundial, Marta Temido deixou o apelo para que o seu uso seja feito de forma criteriosa. Foram já constituídas equipas locais para fazer a gestão do material disponível, para que não falta a bombeiros e outros elementos.

Hospitais pedem contratação de mais 100 profissionais

Desde o início da epidemia, os hospitais já pediram mais de 100 profissionais. De acordo com o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, “o Centro Hospitalar Lisboa Central fez um pedido de 20 médicos de várias especialidades, o Centro Hospitalar São João pediu 82 trabalhadores de diversas áreas, e o Litoral Alentejano solicitou 14 enfermeiros e dez assistentes operacionais”.

“Despachámos imediatamente os pedidos”, afirmou, referindo que o processo está a ser agilizado com o secretário de Estado do Tesouro para dar uma resposta mais rápida. Os processos de pedidos “estão em actualização”, acrescentou.

Ainda sobre este tema, a ministra disse que está a ser preparada “uma proposta de regime de excepção que permita acautelar que instituições tenham uma maior autonomia para estas questões concretas”. Marta Temido adiantou ainda que estão a trabalhar nos mecanismos legais que permitam a flexibilidade dos recursos humanos, nomeadamente no que se refere a horas extraordinárias no INEM e no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa). Isto, independentemente de as entidades estarem já a reagir em prontidão”.

Quanto às camas disponíveis em cuidados intensivos e de isolamento, questão recorrente nos últimos dias, o secretário de Estado referiu que o país tem “968 vagas [camas] de cuidados intensivos e 593 vagas em cuidados intermédios”. “Assumimos as duas mil camas de isolamento que também são expansíveis de acordo com a evolução do surto”, acrescentou.

Marta Temido referiu que estão a recolher informação em permanência e que a Administração Central do Sistema de Saúde está a “monitorizar a disponibilidade de camas livres e não de camas existentes no sistema”. “Não posso dizer ao minuto quantas camas tenho livres no sistema. Sabemos que há uma linha de comando que envolve a Direcção-geral da Saúde, Administração Central do Sistema de Saúde, Administrações Regionais de Saúde, hospitais, INEM, direcções clínicas, que é feito para garantir que os doentes são escoados no sistema de acordo com as suas necessidades.”

Há trabalho também a ser feito com os cuidados continuados integrados de forma a assegurar que as pessoas que não precisam de estar internados num hospital tenham uma cama na rede de cuidados continuados ou em lares.

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