A arte de ir devagar

Hoje, a lamúria chega ao fim de dez minutos de espera numa fila, a má disposição apresenta-se assim que a pessoa não atende ou não responde. Vivemos a pressa das coisas. Achamos a pressa eficaz para o dia-a-dia.

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Ümit Bulut/Unsplash

Tenho reparado que ir depressa ajuda, mas ir devagar transforma. E de que serve tanta ajuda, se depois nada muda?

Vivemos hoje o tempo da rapidez, dos horários e da pontualidade, ou da falta dela. Assistimos à era da permanente expectativa e vontade de estar. Ocupamos a cabeça e o tempo para que as coisas passem e passem rápido. O tempo e o acaso não pedem autorização, não perguntam se podem, se dá ou se queremos. Estão, permitem-se, fazem-se presentes. A nós ninguém pergunta nada. Mas há que entender que o tempo é escultor e nada há de mais urgente do que ir devagar naquilo que achamos que depressa se resolve. 

Veja-se o caso da perda de alguém próximo ou de uma separação. A dor da distância, a saudade, o desgosto ou o desprendimento. Melhor seria estalar os dedos e ultrapassar etapas para sarar depressa aquilo que dói. A dor e o sofrimento são necessários à reconstrução e de nada serve passar capítulos, folhear páginas a correr quando o livro pede o seu tempo de leitura. 

Quando passamos um mau bocado ou conhecemos alguém que esteja a viver um momento mais turvo, dizem-nos que o melhor é ocupar a cabeça, arranjar um part-time, sair de casa sem rumo certo, conhecer novas pessoas ou conviver mais vezes fora de casa. Não digo que não seja importante nem que não ajude, mas não transforma. Mais tarde ou mais cedo a lembrança retoma o seu sentido ou a dor estabelece de novo o seu lugar. É preciso ir devagar naquilo que não podemos resolver. 

Uma ferida é fácil. Caímos, magoamo-nos, seria imprudente não ir buscar de imediato uma pomada ou algo que pudesse atenuar a dor da queda. Mas tudo isso é físico. E a dor — embora muitas vezes física — daquilo que nos acontece na vida sem o mínimo aviso prévio precisa de tempo para curar. Temos a dor que magoa e a dor que transforma. A última requer o tempo. 

Nas viagens que tenho feito pelo mundo, tenho aprendido a esperar. E, mais do que isso, reparado como tenho tido pressa para a vida. E esperar é uma dádiva. Dizem “quem espera, sempre alcança”. Eu acrescentaria: quem espera, nota diferença. Na viagem treina-se muito a espera. Saber esperar um autocarro, saber esperar um comboio ou o seu próprio percurso, saber esperar a viagem, saber esperar o tempo. 

Hoje, a lamúria chega ao fim de dez minutos de espera numa fila, a má disposição apresenta-se assim que a pessoa não atende ou não responde. Vivemos a pressa das coisas. Achamos a pressa eficaz para o dia-a-dia. Ouvi alguém um dia dizer que a beleza não requer atenção. E hoje passamos a vida à sua procura, não para contemplá-la mas para mostrá-la. A pressa de pegar no telefone antes que o Sol se ponha, a urgência em captar em vez de estar. Às vezes, é preciso deixar correr. Não guardar, mas viver. 

Há quem se deite cedo na esperança que o amanhã chegue e depressa se salve, não sabendo que é no decorrer da noite que a pessoa se restabelece. É precisa muita noite — e a sua consciência. 

E, não querendo saber disto, vamos vivendo apressados, pouco curados, decepcionados e frustrados. Porque os resultados não são imediatos, porque a resposta ainda não chegou, porque ela ainda não disse nada ou porque o que queremos ainda não está por aqui. 

Saborear um lugar, um momento. Cuidar de uma ferida que dói, enfrentar o tempo no seu tempo e não no nosso.

Tudo chega quando se deixa de procurar. ​