Projeto do Corte Inglés no Porto põe em causa valores patrimoniais e ambientais, avisam especialistas

Especialistas alertam para riscos patrimoniais e ambientais. Pedem ainda para a que seja feita uma auscultação da população.

Terreno da antiga estação na Boavista, Porto.
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Terreno da antiga estação na Boavista, Porto. Paulo Pimenta

Três especialistas das áreas do património e do ambiente consideram que o projecto do Corte Inglés para a antiga estação ferroviária da Boavista, no Porto, põe em causa valores patrimoniais e ambientais e defendem a auscultação da população.

Os três especialistas falavam, no Porto, no âmbito de um debate público promovido pelo Movimento por um jardim ferroviário na Boavista, em parceria com a associação ambiental Campo Aberto, onde se discutiu a construção de uma grande superfície comercial na antiga estação ferroviária da Boavista.

O projecto do El Corte Inglés para aquele local tem sido alvo de contestação praticamente desde que foi anunciado, tendo levado, em Setembro de 2019, à criação de uma petição que actualmente conta com cerca de 4700 signatários.

Mais recentemente, o projecto levou um outro grupo de cidadãos a pedir a classificação como Imóvel de Interesse Público (MIP) daquele local, processo que, de acordo com a Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) ainda está em análise.

Na sua primeira intervenção, José Manuel Lopes Cordeiro, docente da Universidade do Minho e presidente da Associação Portuguesa para o Património Industrial, começou por destacar a importância patrimonial da antiga estação ferroviária da Boavista, afirmando que a mesma “constitui um elemento importante, incontornável e significativo que merece ser preservado”.

Apesar das condições em que se encontra, o historiador, acredita que “ainda é possível recuperá-la na sua traça”.

Acresce que, para Lopes Cordeiro, a construção de uma grande superfície, como a do El Corte Inglés, não resolve um conjunto de problemas que se colocam naquela zona, nem contribui para alavancar o desenvolvimento daquela área.

O docente argumenta até que há outras zonas mais carenciadas na cidade e que foram alvo de outro tipo de intervenção, como é caso de Campanhã, e cujos impactos não são tão negativos, defendendo que o projecto do Corte Inglés pode constituir uma excelente oportunidade para o município desencadear um processo de auscultação da população.

Já para Helena Freitas, docente da Universidade de Coimbra e especialista em ecologia e biodiversidade, para além da questão patrimonial, põem-se uma questão da ambiental: a de saber se é legitima, e considera que é, a defesa de um espaço verde para aquele local.

“Eu diria que se os cidadãos do Porto sente que este é um espaço que não justifica mais densidade, onde até já é critica, e que é preciso equacionar para aqui outras funções [...], então essa discussão tem de ser feita, independente do tempo do PDM [Plano Director Municipal], independentemente das negociatas que se estiveram na origem da actual solução”, afirmou, defendendo que a intervenção dos cidadãos não pode ficar condicionada ao tempo da discussão em sede de PDM.

Para Helena Freitas, que em 2016, deu apoio ao Gabinete do primeiro-ministro, António Costa, para exercer as funções de coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, há uma oportunidade relevante para suscitar uma discussão à volta deste um projecto “que faz o cruzamento entre o capital identitário e natural”.

Num debate que durou mais de duas horas, o investigador Jorge Ricardo Pinto, defendeu só quem não quer, é que não reconhece a importância daquele edifício, estranhando até que a antiga estação ferroviária, a primeira da via estreita, “nunca tenha sido classificada no PDM do Porto”, o que deixa “estupefacto”.

“É estranho o volume de edifícios do século XIX que não estão classificados”, declarou, acrescentando que tem muitas dúvidas sobre a real valia da instalação do El Corte Inglés na Boavista, onde existem inúmeros espaços comerciais.

O investigador do Centro de Investigação Interdisciplinar e de Intervenção Comunitária do ISCET e membro integrado do CEGOT - Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território da Universidade do Porto, defendeu ainda que “nunca colocaria o El Corte Inglés como uma solução óptima para o que quer que fosse”.

Na sessão, a Campo Aberto anunciou ainda o lançamento de um site intitulado “Espaços Vivos”, uma plataforma que pretende reclamar mais espaços verdes para a cidade do Porto.

Para os terrenos da antiga estação ferroviária da Boavista em causa, está prevista para além de um grande armazém comercial, a instalação de um hotel e de um edifício de habitação comércio e serviços.

Até ao momento o El Corte Inglés pagou à Infraestruturas de Portugal, proprietária do terreno, quase 18,7 milhões de euros.

Questionada pela Lusa, no dia 23 de Janeiro, a Câmara do Porto revelou que o PIP do projecto do Corte Inglés aguardava ainda informação final, que englobaria todos os pareceres solicitados.

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