Crónica

Sambando na minha cara

Na adolescência, estava na moda não gostar do Carnaval e gozar com as criancinhas que se mascaravam disto ou daquilo.

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Bancada para o desfile do Carnaval, em Estarreja Adriano Miranda

Já não me recordo se em criança gostava muito ou pouco do Carnaval. Suponho que achava divertido: afinal, sempre tínhamos uns dias sem aulas e podíamos fazer disparates sem que nos chateassem.

Dos disfarces que usei lembro-me de poucos. De pirata, que exibi pelas ruas de Castelo Branco até que a minha espada se partiu já quase no fim do cortejo; de índio, a que recorri mais do que um ano; de Zorro, cujo chapéu e capa guardei durante muito tempo. E, uma vez, de mulher. Isso foi ideia da escola: os rapazes vestiam-se de mulher e as raparigas de homem. Estávamos todos meio embaraçados enquanto percorríamos as ruas em desfile. Jurei que nunca mais usaria saltos altos.

Deixei de ligar ao Carnaval por essa altura ou pouco depois. Na adolescência, estava na moda não gostar do Carnaval e gozar com as criancinhas que se mascaravam disto ou daquilo. Divertido mesmo era aproveitar os “furos” das aulas para fazer guerras de balões de água ou de bombinhas de mau cheiro. As escolas acabaram por proibi-las.

Durante anos me espantou ver os corsos de Carnaval pelo país fora. Tirando duas ou três cidades, em todas as outras havia desfiles de samba. Mas que raio? Por que motivo temos de levar anualmente com este espectáculo deprimente de ver mulheres seminuas a abanarem-se ao frio e à chuva como se estivessem no Brasil tropical?

Este ano calhou-me a fava. Os astros alinharam-se para me levar até meio de uma das bancadas do Carnaval de Estarreja, onde assisti a três horas e meia de desfile. Não é que tenha sido forçado a isso. Depois de tanto tempo a desdenhar os sambistas que apareciam por breves segundos nas mesmíssimas reportagens televisivas ano após ano, repetindo o mantra do “divertimento” e da “tradição”, resolvi por fim fazer o que compete a qualquer jornalista: ir ao terreno e ver.

O cortejo iniciou-se já com um ligeiro atraso, debaixo de sol abrasador, com a passagem dos reis. Pouco depois entrou a primeira escola de samba. Questiono os circunstantes de onde veio esta dança. Ninguém sabe dizer, mas toda a gente gosta muito. Fico a saber, pelo site da Associação do Carnaval de Estarreja, que a primeira vez que por ali se viu samba foi em 1986 e que, a partir dos anos 1990, havia já tantas escolas que se começou a fazer competição.

Actualmente, há cinco escolas de samba e sete grupos de folia, os “apeados”. O Carnaval tornou-se uma actividade económica tão importante que a câmara montou uma espécie de sambódromo no parque municipal e cobra bilhetes. São uns 200 metros. Cada grupo demora mais de 45 minutos a percorrê-los.

É ao comprovar este esforço que começo a ver para lá do samba. Os figurantes têm de repetir a mesma coreografia vezes sem conta ao longo do percurso, avançando a passo de caracol. Este ano, ao contrário do que é hábito, esteve um domingo de muito sol, e por isso tento imaginar o quanto sofrem os dançarinos debaixo das roupas cheias de penas. A situação é pior ainda para os apeados, que este ano vão vestidos de abelhas, esquimós, navegadores, Popeyes, lagartas.

Padecer de calosidades e outras enfermidades durante horas significa dedicação. É em causa própria porque todos querem ganhar o primeiro prémio e porque se divertem genuinamente, mas é também em causa alheia, porque a plateia está ali para se divertir com eles.

Antes do Carnaval, cada grupo passa meses a definir temas, a construir carros alegóricos, a costurar fatos, a ensaiar coreografias e canções. São semanas e semanas roubadas ao sono, à família e outras actividades. Nos dias que vão de sexta-feira à terça-feira de Carnaval, sucedem-se as apresentações públicas e as festas. Para quem desfila, só assim faz sentido, que quem assiste partilhe da alegria de tudo aquilo correr bem, mesmo que a rivalidade entre escolas e grupos às vezes dê para reacções mais exageradas.

Isto é mais do que samba. É mais do que as brincadeiras. Por razões que a razão desconhece, o Carnaval tornou-se um cimento da comunidade estarrejense e tem um significado que se estende muito para lá de meia dúzia de dias. Eu continuo a não achar grande piada a samba, mas, que diabo, se ele é lugar de encontro e partilha de valores, contem-me entre os seus entusiastas.

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