Carros eléctricos: um passo, mas não o único caminho para a mobilidade sustentável

Desde a ambição dos carros autónomos à realidade dos carros eléctricos, debateu-se a mobilidade sustentável na Universidade de Aveiro na primeira talk do PSuperior. A solução passa por uma “combinação de medidas”.

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Tiago Lopes
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Num mundo em que se debate o problema do futuro da mobilidade, os carros eléctricos são uma das soluções, “mas não a única”. A primeira talk do PSuperior, na Universidade de Aveiro, abordou, nesta quinta-feira, o tema da mobilidade sustentável. Conclusão: “uma mobilidade eléctrica por si só não é o caminho para se atingir uma mobilidade sustentável”. Quem o diz é Margarida Coelho, professora no departamento de engenharia mecânica da universidade e especialista em transportes, que aposta numa combinação de medidas para resolver o problema que se coloca.

Anfitrião neste debate, o presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Ribau Esteves, diz que a cidade a que preside está a fazer um esforço no sentido de uma mobilidade cada vez mais sustentável. O político aveirense diz que vai haver uma “melhoria das condições” dos canais pedonais e uma criação de novos moliceiros e ferry-boats movidos a energia eléctrica. Além disso, “há um plano para a criação de um circuito totalmente autónomo no espaço de dois anos”.

No entanto, para Margarida Coelho, a maior dificuldade na inserção de um sistema de transportes composto por veículos autónomos é a aceitação pessoal de cada cidadão. A professora da Universidade de Aveiro acredita que a tecnologia “está resolvida” e que o maior desafio é mesmo a “adesão massiva das pessoas”. Infelizmente, Margarida acha que o entusiasmo individual pelos veículos autónomos ainda vai demorar “uns anos” a crescer.

Teresa Ponce de Leão, da Associação Portuguesa do Veículo Eléctrico e do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, mostrou que existem três grandes vectores de mudança no mundo, que já se fazem sentir: as novas fontes de energia, a fragmentação industrial e a revolução da mobilidade. A também professora do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenheira da Universidade do Porto aposta na mobilidade eléctrica para o futuro da mobilidade citadina, mas diz que, nesta altura, os apoios do Estado à aquisição de veículos eléctricos “ainda não são suficientes”.

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O director do jornal PÚBLICO, Manuel Carvalho, na conferência Tiago Lopes

A Uber e a Cabify

O tema das novas plataformas electrónicas de mobilidade, como a Uber e a Cabify, também foi debatido. Margarida Coelho afirma que a coexistência destas empresas não está a ter o resultado positivo esperado: em Londres, “está provado que os níveis de congestionamento e de emissões poluentes aumentaram” desde a criação destas plataformas. A ideia inicial, “que passava por reduzir o número de carros pessoais em circulação”, acabou por ser um “fracasso”: quem mais recorre à Uber “são as pessoas que costumam andar a pé ou em transportes públicos”.

Os transportes colectivos e o aumento da mobilidade partilhada, principalmente em Lisboa, levam Teresa Ponce de Leão a crer que os jovens, hoje em dia, já não sentem tanta necessidade (nem vontade) de possuir um carro próprio. Quem não concorda é Tomás Freitas. O aluno de engenharia da Universidade de Aveiro, que também fez parte do painel, diz que o carro é o veículo que mais jeito lhe dá para ir para Aveiro. Dentro da cidade, “apesar dos buracos nas estradas”, usa a trotinete: “a mobilidade individual dá uma certa liberdade a quem a utiliza e, por isso, nunca vai desaparecer, seja eléctrica ou não”. Tal como Margarida Coelho, Tomás acredita que, num futuro próximo, “vai haver tecnologia suficiente” para a circulação de carros autónomos; a questão, para ele, é se “vai haver civismo”.

O próximo debate do PSuperior Talks vai ser sobre as fake news e realizar-se-á na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, na próxima quinta-feira, 27 de Fevereiro.

Texto editado por Pedro Sales Dias