Torne-se perito

Sindicato e INEM com versões contraditórias sobre protecção contra o coronavírus

Sindicato diz que há material danificado distribuído por várias bases de emergência, mas o INEM diz que apenas quatro ambulâncias foram especificamente preparadas tendo em conta o coronavírus Covid-19, pelo que a acusação não faz sentido.

O grupo de portugueses repatriado da China esteve de quarentena, mas ninguém estava infectado
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O grupo de portugueses repatriado da China esteve de quarentena, mas ninguém estava infectado LUSA/MÁRIO CRUZ

O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) e o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) não se entendem quanto à qualidade da protecção fornecida aos elementos das equipas de socorro que podem ter de lidar com casos suspeitos do coronavírus Covid-19. Os primeiros garantem que não houve formação e que o equipamento disponibilizado é insuficiente e, em alguns casos, danificado. O INEM desmente e diz que o sindicato “está mal informado”.

A queixa do STEPH, que esta segunda-feira deverá ser recebida pelo Governo, faz a manchete deste domingo do Jornal de Notícias. Segundo o artigo, o equipamento de protecção disponibilizado pelo INEM por causa do Covid-19 era insuficiente e em alguns casos danificado, havendo relato de máscaras sem elástico ou a entrega de apenas um par de óculos, quando cada equipa é constituída por dois elementos. Na mesma notícia indicava-se que as falhas nem sequer estavam a ser reportadas porque os computadores das bases de emergência em que deveriam ser registadas estão avariados.

Ao PÚBLICO, Rui Lázaro, do STEPH, reitera estas informações, indicando ter recebido “denúncias de três bases que receberam material danificado”. O dirigente sindical indica que todas estas bases estavam no Norte do país e que os danos relatados foram comprovados por elementos do STEPH, admitindo que podem existir mais casos. Em causa está o que diz ser “material avulso”. “Não é um kit, é material que é depositado lá avulso para colmatar a diferença entre o material que uma ambulância já tem habitualmente no seu dia-a-dia para a norma que a DGS [Direcção-Geral de Saúde] impõe para este tipo de controlo da infecção”, refere.

À Lusa, a responsável pelo departamento de emergência medida do INEM, Fátima Rato, diz que o sindicato “está mal informado”, já que não houve distribuição generalizada de equipamento relacionado com o coronavírus Covid-19, mas apenas para quatro ambulâncias. “Nós temos só quatro ambulâncias preparadas para o efeito [em Lisboa, Porto, Coimbra e Faro]. Se o evoluir da situação assim o determinar serão disponibilizadas mais ambulâncias. Inclusivamente, se for necessário, envolveremos mais meios do INEM nesse tipo de transporte ou recorreremos aos nossos parceiros [...], como os bombeiros e a Cruz Vermelha Portuguesa”, garantiu. 

A meio da tarde, num comunicado enviado às redacções, o INEM reiterava esta informação, precisando que “no momento actual, não constitui competência das equipas dos meios de emergência do INEM o transporte de casos suspeitos validados de Covid-19”. Segundo o INEM, essa competência é exclusiva das quatro equipas de transporte especializado do instituto, que operam as ambulâncias referidas por Fátima Rato. “O equipamento a que a notícia [do JN] faz referência é o equipamento de protecção individual que está disponível em todos os meios de emergência do INEM porque é utilizado na actividade diária do instituto e que, erradamente, se procurou associar ao novo coronavírus”, acrescenta-se no comunicado.

Mesmo assim, refere-se: “Independentemente de ser um contexto diferente, tratando-se de equipamento descartável, sempre que se verifique um defeito de fabrico os operacionais preenchem a respectiva checklist diária (relativa ao material que integra a carga da ambulância) e, havendo necessidade, o equipamento é substituído. Este é o procedimento seguido há vários anos para reposição de material dos meios do INEM.”

Vários meios de contacto

Em relação às falhas de comunicação, nas declarações prestadas à Lusa, Fátima Rato também desvaloriza as queixas. Rui Lázaro diz que, de momento, “a única forma de comunicar” as falhas detectadas é “via telemóvel, sem qualquer garantia de que quem está do outro lado regista ou toma conta do procedimento”. Fátima Rato argumenta que o computador não é a única forma de reportar uma falha, sendo possível recorrer a vários meios – incluindo o telemóvel – e admite que ao INEM chegou apenas uma indicação sobre uma máscara danificada, a 6 de Fevereiro. “Gostaria de realçar que, [Rui Lázaro] sendo uma pessoa que trabalha no instituto deveria saber qual o esforço que é feito, diariamente, para darmos a melhor resposta. Se estamos de boa-fé e a preocupação são os doentes, temos que fazer tudo o que está ao nosso alcance para corrigir os erros. Espera-se que as pessoas tenham uma atitude profissional e pró-activa”, vincou.

No que se refere à formação específica para o actual surto com origem em território chinês, e que Rui Lázaro diz ser inexistente, a responsável do INEM assegura que há acções de formação em preparação ou a decorrer, que deverão estender-se a todo o país e abranger cerca de 700 pessoas. No mesmo sentido, o comunicado da instituição refere-se à formação “adicional” em curso, mas com a indicação: “Recorde-se, no entanto, que é parte integrante dos cursos do INEM a formação sobre a utilização e manuseamento de equipamento com vista às Precauções Básicas de Controlo de Infecção”.

Para Rui Lázaro, a resposta do INEM é tardia. “Falhou o planeamento. É incompreensível que surja um vírus novo, do qual é preciso proteger os profissionais e os cidadãos acima de tudo, que o INEM primeiro demore a dar indicações sobre o que fazer, não dê qualquer tipo de formação a quem está diariamente na rua em contacto com os cidadãos e que pode apanhar os casos suspeitos de coronavírus. Depois, demore a enviar o material para as ambulâncias, quando envia não avisa ninguém [para informar] de que existe e está lá, não é colocado nas ambulâncias. Temos aqui um novelo de lã de procedimentos errados, o que mostra uma grande falta de planeamento”, disse ao PÚBLICO.

Segundo os dados mais recentes – e que têm sido actualizados diariamente – o coronavírus Covid-19 provocou 1669 mortos e infectou cerca de 65 mil pessoas em todo o mundo, com a China a albergar a grande parte dos casos. Do total de vítimas mortais apenas quatro se registaram fora de território continental chinês – uma nas Filipinas, uma no Japão, uma em França e uma em Hong Kong.

Em Portugal registaram-se até ao momento sete casos suspeitos da doença, mas nenhum acabou por se confirmar. Um grupo de portugueses e brasileiros que esteve de quarentena, voluntariamente, depois de ser retirado da China, também já deixou o hospital, sem que qualquer pessoa tenha mostrado sinais da doença.

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