O México mata-nos, dizem as mulheres revoltadas contra o Estado e a imprensa

Após mais um assassínio tratado como um espectáculo pela imprensa mexicana no Dia de São Valentim, o protesto chegou à residência oficial do Presidente e à sede dos jornais.

Palácio Nacional
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Os portões do palácio presidencial foram pintados pelas manifestantes ANDRES MARTINEZ CASARES/REUTERS

As palavras “Estado femicida” ficaram escritas a tinta vermelho sangue nos portões do palácio presidencial do México no dia de São Valentim pelos manifestantes. A maioria eram mulheres, vestiam de negro e saíram à rua para manifestar a sua fúria pelo homicídio de Ingrid Escamilla, uma mulher de 25 anos, e pela publicação de fotos explícitas do seu corpo mutilado nos jornais mexicanos.

Depois de picharem o palácio presidencial, as mulheres – umas 200, relata a Reuters – dirigiram-se, debaixo de chuva, para a redacção do jornal La Prensa, para protestar contras a publicação das imagens do cadáver da mulher assassinada. Queimaram carros e partiram vidros do jornal e enfrentaram p a polícia que as impediu de entrar nas instalações.

Com a palavra de ordem “nem um assassínio mais”, e empunhando cartazes dizendo “exigimos jornalismo responsável”, ou “Ingrid somos todas”, ou “sexismo mata”, as manifestantes exigiram justiça.

Em média, dez mulheres são mortas por dia no México. O ano passado foi registado um novo recorde de homicídios no país, segundo os dados oficiais.

 A Entidade para a Igualdade de Género e Empoderamento das Mulheres, também conhecida simplesmente como UN Women, condenou no Twitter o assassínio de Ingrid Escamilla. “Exigimos acções exaustivas para eliminar a violência contra as mulheres e raparigas. Exigimos acesso total à justiça e não-revitimização. Ingrid não é um caso isolado”.

PÚBLICO -
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"Estão-nos a matar", diz o graffiti Andres Martinez Casares/REUTERS

Lilia Florencio Guerrero, cuja filha foi violentamente assassinada em 2017, apelou ao Presidente Andres Manuel Lopez Obrador, que estava no interior do palácio quando os protestos aconteceram, para se esforçar mais para travar a violência. “Não é só Ingrid. Há milhares de femicídios”, afirmou. “Isto enche-nos de raiva.”

Muitas manifestantes pintaram palavras de ordem nas paredes do edifício, incluindo “estão a matar-nos”, e usaram sprays de tinta inflamável, que cuspiam chamas brilhantes.

Uma delas usou um spray de tinta para pintar a palavra “INGRID”, em letras grandes cor-de-rosa na porta do palácio presidencial. Muitas notaram que o homicídio de Escamilla foi apenas o mais recente numa vaga de brutais mortes de mulheres.

No interior do palácio, onde Lopez Obrador vive com a sua família, o Presidente tentou dar garantias às activistas, na conferência de imprensa da manhã de sábado, de que não se esqueceria da sua mensagem. “Não estou a enterrar a cabeça na areia. O Governo que represento garantirá sempre a segurança das mulheres”, afirmou, sem avançar pormenores de novos planos para o assegurar.

O jornal La Prensa, que publicou a imagem do corpo mutilado de Ingrid Escamilla na primeira página – e motivou a acusação de “a imprensa ser cúmplice” – defendeu os seus pergaminhos de reportagens de crime e homicídios, dizendo que são temas que os governos preferem manter abafados. Numa declaração publicada igualmente na primeira página de sábado, a direcção editorial disse, no entanto, estar aberta a discutir formas de ajustar os seus padrões para além dos requisitos legais.

Outro jornal, chamado Pasala, encheu quase toda a sua primeira página de sexta-feira com a imagem do cadáver de Ingrid, com o título: “A culpa foi do Cupido”. Esta capa desencadeou fúria não só pela exibição do corpo, mas também pelo tom jocoso usado para descrever um crime de violência doméstica. Os editores deste tablóide, no entanto, não comentam as suas opções.