Instituições não acompanham 92% dos idosos que vivem sós em Lisboa

Projecto Radar chegou ao fim e, para poder melhorar a resposta institucional, foi conhecer as necessidades de uma amostra de 30 mil idosos. E concluiu que poucos são acompanhados mas a maioria não está em situação urgente.

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Radar esteve activo desde o dia 7 de Janeiro do ano passado até ao dia 12 de Fevereiro deste ano Nuno Ferreira Santos

Dos cerca de 132 mil idosos que moram em Lisboa, 85 mil vivem sós ou acompanhadas por pessoas da mesma idade. Para se conhecerem as condições em que vivem, o projecto Radar andou na rua desde 7 de Janeiro até esta terça-feira para falar com 30 mil destes lisboetas. E concluiu que, desta amostra, perto dos 92%, ou seja 27 mil, não têm acompanhamento de instituições sociais. Por freguesias, mais de 95% dos inquiridos em Belém, Benfica e Lumiar não dispõe de acompanhamento social. A melhor situação é a da freguesia de Santa Clara, onde 15% dos idosos contactados são acompanhados por instituições sociais.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa - uma das entidades criadoras do projecto - detém cerca de 33% da resposta institucional. Por isso, entender melhor a realidade em que vivem os mais velhos de Lisboa - a razão de ser do projecto - é o primeiro passo para poder “dar respostas aos problemas”, aponta Maria da Luz Cabral, responsável pelo Radar. Agora, através dos dados recolhidos, conhecem-se melhor as condições em que estas pessoas vivem, que necessidades têm e que respostas precisam para que tenham uma vida autónoma e confortável.

Embora não haja grande acompanhamento das instituições, entre os 30 mil participantes, quase 28 mil idosos afirmaram ter uma “intervenção de nível planeado” (nível 5), ou seja, a menos urgente na classificação atribuída - o que significa que estão em situações controladas e por isso não necessitam de receber apoio no imediato. As intervenções críticas (de nível 1), que pressupõem uma actuação no espaço de 4 horas, apresentam um valor de 0,01% (3 pessoas) dos casos.

Do total da amostra, dois terços (66%) são mulheres. Em termos de faixas etárias, o maior número de pessoas inquiridas, concretamente 43%, situa-se entre os 75 e os 84 anos. Quanto à distribuição por freguesias, Benfica teve o maior número de idosos entrevistados (2.365), quase 8% da amostra. Por outro lado, o Parque das Nações é a freguesia por onde menos entrevistados se distribuem, apenas 488 idosos, pouco mais de 1,6%.

Os idosos sinalizados pelo Radar indicam ter dificuldades, sobretudo, nas questões da higiene habitacional (19%), nos cuidados de saúde (12%) e na realização das tarefas da vida diária (11%). “Carência económica” e “sinais de isolamento” foram outras das condições manifestadas, ambas com 9%. Não obstante serem alvo de maior preocupação, as questões de “carência alimentar”, “maus tratos” e “nível de orientação” são as que apresentam valores mais reduzidos, todas com 1%.

De acordo com os dados do Radar, 88% dos participantes confirmam ter médico de família e os restantes 12% desconhecem ou efectivamente não têm. Mas há discrepâncias entre freguesias. Em Carnide, 96% dos idosos têm médico de família. Já a Ajuda (17,90%) e o Parque das Nações (18,44%) são as freguesias onde as percentagens de idosos sem médico de família são mais elevadas. Contudo, em termos absolutos, Benfica é a freguesia na qual há mais idosos com médico de família (2.271) e Arroios tem o maior número de pessoas com mais de 65 anos sem médico de família (254).

Na terceira e última fase do projecto Radar, que terminou nesta terça-feira, foram identificados os últimos 14.274 idosos que faltavam para se atingir os 30 mil idosos que o projecto pretendia ter como amostra. 

Depois de uma fase piloto, que chegou a 4500 idosos das freguesias dos Olivais, Areeiro e Ajuda, o projecto estendeu-se a mais nove freguesias – Santa Clara, Marvila, Alcântara, Arroios, Alvalade, São Domingos de Benfica, São Vicente, Beato e Parque das Nações. Por fim, para abranger todas as 24 freguesias de Lisboa, nesta terceira e última fase, o Radar alcançou as últimas doze: Avenidas Novas, Belém, Benfica, Campo de Ourique, Campolide, Carnide, Estrela, Lumiar, Misericórdia, Penha de França, Santa Maria Maior e Santo António.

Este projecto nasceu no âmbito do Programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, que funciona em rede com várias entidades – a Câmara Municipal de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Instituto da Segurança Social, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, a PSP, as juntas de freguesia e a Rede Social de Lisboa.

Texto editado por Ana Fernandes

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