Erosão e aumento de turistas obrigam a intervenções na subida ao Pico

As intervenções vão reforçar o trilho e também estão a ser feitas mudanças no regulamento de acesso à Montanha. A obrigação de ter um guia quando a Casa da Montanha está fechada é uma das hipóteses em cima da mesa.

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Manuel Roberto / Publico

O aumento do número de turistas a querer subir ao ponto mais alto de Portugal e as condições meteorológicas que se fazem sentir numa montanha com 2351 metros de altura vão obrigar a intervenções no trilho que orienta a subida à montanha do Pico, nos Açores.

Além da “reposição” e “marcação” dos marcos do trilho, vão ser feitas “algumas intervenções nos troços do trilho, no sentido de atenuar a erosão e melhorar as características do percurso”, explica ao PÚBLICO Hernâni Jorge, director regional do Ambiente do Governo dos Açores.

O governante reconhece que as 20 mil pessoas que subiram ao Pico em 2019 causaram “pressões” na montanha, mas afirma que as intervenções são “trabalhos pontuais”, feitos com alguma regularidade. Hernâni Jorge frisa ainda que o trilho da montanha do Pico é um percurso “muito específico”, que está “exposto aos elementos do clima de uma forma particular”, devido à altitude, às variações do clima, como a neve, os ventos e a chuva.

Os trabalhos surgem através de um protocolo entre aquela direcção regional e a Associação de Guias de Montanha dos Açores (AGMA), presidida por José Silva, que assegura que a obra já está adjudicada e prevê que as intervenções mais urgentes estejam prontas em Abril - antes dos meses de Verão da época alta. Ao PÚBLICO, José Silva assinala que, além dos “trabalhos de manutenção e preservação dos trilhos”, as intervenções prevêem um reforço do trilho para assegurar que as pessoas que subam à montanha autonomamente – isto é, sem guia – não se desviem por outros caminhos. “Nós vamos fazer um reforço da manutenção do trilho para as pessoas autónomas pois o que está a criar mais danos são os autónomos”, considera.

Qualquer visitante pode escolher entre subir à montanha acompanhado por guia turístico ou autonomamente, mediante inscrição na Casa da Montanha, ponto obrigatório e de apoio para os caminhantes que desejam subir ao cume. Os “danos” criados pelos caminhantes autónomos de que fala José Silva referem-se à falta de “civismo” e aos novos percursos criados por estes visitantes sem guia. “Muitas vezes, nós vemos alguns autónomos que continuam a fugir ao trilho e isto também tem a ver com a falta de civismo das pessoas quanto estão no meio ambiente, apesar de todas as informações que são dadas na Casa da Montanha”, diz, referindo-se ao impacto dos visitantes na paisagem natural da montanha.

A direcção regional do Ambiente estabeleceu um limite de 320 subidas diárias e de 160 visitantes em simultâneo. Apesar das restrições, Luís Bicudo afirma que se está a “sentir os efeitos negativos da subida exponencial de visitantes” em virtude do aumento do turismo na região. Este guia certificado explica que “quanto mais pessoas saem do caminho, mais pessoas vão fugir porque fica cada vez mais difícil encontrar o trilho”, situação que, na sua opinião, “estraga a paisagem e a experiência de quem está a subir”. Além deste, o guia assinala outro “principal problema”: o lixo. “Encontra-se muito lixo, sobretudo orgânico, incluindo fezes humanas. Não há uma sensibilização”, afirma, criticando a “falta de gestão”.

Quem não tem uma visão tão pessimista é Renato Goulart, o guia que já subiu 2351 vezes os 2351 metros do Pico. Reconhece que o “impacto existe” e considera-o “inevitável”, uma vez que há “mais procura numa área protegida”. Para este guia, o “problema” reside apenas nos meses de Julho e Agosto e relembra que os trabalhos de “melhoria já estão em curso”, sejam as intervenções para reforçar o trilho, seja através da nova portaria que vai “limitar as subidas autónomas”. Renato Goulart salienta, também, que o estado de conservação do trilho é muito prejudicado pelo “desgaste natural” provocado pela neve, as chuvas e o deslizamento de terras. “Existe uma degradação do percurso em períodos críticos, mas dizer que estraga a experiência, acho que é exagero”, defende.

O presidente da AGMA assegura que a paisagem natural “não está em risco” e explica que por diversas vezes já se discutiu a obrigatoriedade das subidas acompanhadas por guias. “Nós não somos de acordo, por enquanto, porque achamos que ainda não é necessária termos essas medidas extremas”, avança, referindo que com a “devida conscientização” a “montanha está ali para todos”.

O director regional do Ambiente também garante que o Governo Regional “monitoriza regularmente” a actividade na montanha e explica que estão a ser feitos “ajustamentos” no Regulamento de acesso à Reserva Natural da Montanha do Pico. Além do alargamento do horário da Casa da Montanha, o Director Regional avança com duas medidas que “estão em cima da mesa”.

Uma prende-se com a possibilidade de qualquer pessoa poder fazer a reserva para subir à Montanha do Pico, através de uma plataforma online, possibilidade que actualmente é apenas destinados aos guias. Outra medida do novo regulamento, que deve entrar em vigor no início de Abril, é a obrigação do acompanhamento de guia fora do “período de funcionamento da Casa da Montanha”. Os residentes na região não serão abrangidos por esta regra, avança, salvaguardando que o processo de introdução de mudanças ao regulamento ainda não está concluído. Medidas estas que, assume, servem para “dar resposta à maior procura”, mas, ainda assim, o director regional reitera o propósito das restrições: “salvaguardar uma fruição equilibrada e uma gestão sustentável” da reserva natural da montanha do Pico.