Regina Duarte aceita convite de Bolsonaro para secretária da Cultura

A actriz assumirá o cargo que pertencia a Roberto Alvim, demitido por ter citado Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha Nazi.

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A actriz Regina Duarte após a reunião com Bolsonaro no Palácio do Planalto ADRIANO MACHADO/Reuters

A actriz Regina Duarte, de 72 anos, anunciou esta quarta-feira que aceitou o convite do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, para assumir a secretaria da Cultura. O convite foi aceite após três reuniões com Bolsonaro.

“O Presidente Jair Bolsonaro esteve na tarde desta quarta-feira, 29, com a actriz Regina Duarte, no Palácio do Planalto. Ambos consideram, neste momento, o avanço de uma nova fase do noivado, com trâmites preparatórios oficiais para o casamento”, revelou a Presidência da República numa nota oficial citada pelo jornal Folha de São Paulo.

A actriz assumirá o cargo que pertencia anteriormente a Roberto Alvim, depois de o ex-secretário da Cultura ter citado, durante um discurso gravado, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha Nazi. Ao assumir a pasta, Regina Duarte terá de abdicar do contrato que mantém actualmente com a TV Globo.

De “namoradinha do Brasil” a secretária especial da Cultura

Depois de quase 55 anos de carreira nas telenovelas, nos palcos e no cinema, a actriz que um dia foi das mulheres mais bem pagas da televisão brasileira aceitou o convite de Jair Bolsonaro e tornou-se política.

Nasceu em 1947, em Franca, interior de São Paulo, e cresceu, pobre, em Campinas. Em adolescente, terá escrito no diário: “Hei-de ser tão famosa que não haverá ninguém neste país capaz de dizer ‘nunca ouvi falar nela’.” Segundo disse em várias entrevistas, o interesse pela representação veio de, aos 12 anos, estar a andar de autocarro e ter visto um rapaz a ler um livro, uma adaptação teatral de O Diário de Anne Frank. Começou a ler o livro com ele e, finda a viagem, este disse-lhe que se quisesse conhecer o final, teria de ir ao teatro. E assim aconteceu. Foi com essa peça que se estreou em 1960, tendo também feito A Fera Amansada, de Shakespeare, trabalhado em publicidade e escrito na revista Nosso Cantinho, para a qual entrevistou nomes como Alain Delon.

Em 1965, aos 18 anos, chegou às telenovelas pela mão de Walter Avancini, em A Deusa Vencida, da extinta TV Excelsior. Em 1969, foi contratada pela Rede Globo, na qual começou com Véu de Noiva, da autoria de Janete Clair.

“Namoradinha do Brasil” é uma alcunha que surgiu do papel que fez em Minha Doce Namorada, a que se seguiu o sucesso de Selva de Pedra, outra obra de Janete Clair. É um nome que a actriz, que diz só ter visto ser aplicado a ela em 1975, quando fez de prostituta numa peça de Flávio Márcio, Réveillon, quando num cabeçalho da revista Veja lhe chamaram “ex-namoradinha do Brasil”. É uma imagem que sempre se esforçou por contornar, tentando fazer papéis diferentes daqueles dessas novelas. Em 1979, foi a protagonista de Malu Mulher, de Daniel Filho, uma série de 76 episódios que foi vendida para 53 países. Quando chegou a Portugal foi transmitida na RTP2, dois anos após a estreia de Gabriela, a primeira telenovela a ser exibida cá. Malu Mulher, cujo nome foi escolhido pela própria actriz, centrava-se em Malu, uma socióloga em processo de divórcio e quebrou inúmeros tabus sobre emancipação feminina num país que ainda vivia em ditadura.

Nos anos 1980, saiu temporariamente da Globo para fazer a produção independente televisiva Joana, e voltou para interpretar a Viúva Porcina de Roque Santeiro, de Dias Gomes. Era uma personagem mais cómica do que aquelas que tinha interpretado até então, o auge da sua carreira, ainda hoje uma das telenovelas e personagens mais bem-amadas da ficção brasileira, que ajudou a consolidar o seu estatuto como uma das figuras maiores da Globo. Segundo uma sondagem encomendada pelo PÚBLICO em 1992, Gabriela era a telenovela favorita de Portugal, mas Regina Duarte (e Lima Duarte), de Roque Santeiro, a segunda telenovela mais bem classificada, eram os protagonistas de eleição.

Seguiram-se novelas como Vale Tudo, de 1988, e Rainha da Sucata, de 1990, História de Amor, de 1995, Por Amor, de 1997, ambas de Manoel Carlos, o criador de Joana, a minissérie Chiquinha Gonzaga, de 1999, Desejos de Mulher, de 2002 e Páginas da Vida, de 2007. Depois disso, deixou de ter papéis de protagonista e tem feito trabalhos como Três Irmãs, de 2009, O Astro, de 2011, em que foi, ao contrário do que costuma acontecer, vilã, Sete Vidas, de 2015, e, por fim, Tempo de Amar, de 2017. Para ocupar agora o cargo no governo, terá de abdicar do contrato que mantém com a Globo.

A veia política

Em 1992, em entrevista à revista Nova Gente, Regina Duarte afirmava: “O maior problema brasileiro, mais do que a fome, injustiças sociais ou desigualdades, deve-se atribuir ao problema do descaso com a cultura. O cinema é uma arte cara para qual não existe a menor boa vontade, nem por parte do Governo nem da iniciativa privada. O actual Governo é um desastre! A sensação que eu tenho é que Collor [de Mello] odeia a cultura para o povo brasileiro.” É esta a pasta que a actriz, que agora defende que as verbas para a cultura devem ser cortadas, terá agora em mãos.

Anos antes, em 1979, fez apelos públicos a que passasse a Lei da Amnistia, para dar protecção legal às pessoas foram exiladas, presas, mortas ou torturadas pelas suas opiniões políticas. Em meados dos anos 1980, participou em manifestações do movimento Directas Já, segundo ela, ao lado de Lula da Silva.

Em 2002, gravava um vídeo a dizer “eu estou com medo”, referindo-se ao receio de que Lula ganhasse as eleições contra José Serra, do PSDB, e que isso levaria a que o país perdesse a estabilidade económica que tinha sido conquistada nos tempos de Fernando Henrique Cardoso, argumentando que julgava que conhecia Lula, mas já não o reconhecia. 

Fernando Henrique Cardoso tinha sido apoiado publicamente por Regina Duarte em 1978, quando se candidatou ao senado, e em 1985, aquando da sua campanha (que não foi bem-sucedida) à prefeitura de São Paulo. Em 1998, também apoiou publicamente a reeleição do político.

Das figuras públicas das artes mais populares a apoiar Bolsonaro, em 2018, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, a actriz alegou que a homofobia de Bolsonaro era “da boca pra fora”, de “um homem dos anos 1950” com “um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha”.