Nuno Ferreira Monteiro
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Nuno Ferreira Monteiro

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Viver com intolerância ao glúten

Só em Portugal é que os produtos sem glúten continuam a ser vistos não como uma necessidade mas uma moda, a moda de emagrecer, das figuras esbeltas, tão atléticas como esqueléticas nas revistas e na televisão, onde um pãozinho sem glúten custa o equivalente a uma saca de pão inteira.

Eu não sei o que é viver com intolerância ao glúten. Mas a Luísa sabe. Sabe, mas não quer saber, cansada de explicar, milhares de vezes por dia, milhões de vezes por ano, o que é o glúten, onde se encontra e quais as consequências a quem a interpela nos cafés e restaurantes, à hora de almoço, no trabalho, na rua, nas compras ou em casa. Por isso, procura não falar do glúten. Apesar de viver em função deste. Ou da ausência deste. Porque o que a Luísa queria era ter uma vida normal e poder comer todas as bolas de Berlim do mundo. Mas o glúten não é normal, e a sua intolerância também não.

O glúten é um conjunto de proteínas presentes no trigo, na cevada ou no centeio e, por conseguinte, no pão, massas, bolos, carnes processadas (salsichas, enchidos), bolachas, tartes, pizzas, cereais de pequeno-almoço, cerveja e molhos, só para citar alguns exemplos.

A Luísa é intolerante ao glúten de trigo. Nem sempre foi assim. Durante uma boa parte da vida pôde comer de tudo um pouco até deixar de poder. Até lhe começarem a inchar os pés e as pernas, os braços, os olhos e a vida, até encher como um balão e o corpo pesar toneladas, o enfartamento, a obstipação, as dores constantes, dói a andar, dói se não anda, o cansaço de quem prefere estar morto, vencido, vencida, ofegante, de rastos no chão.

As reacções alérgicas foram sempre as mesmas. Ainda são quando há algum azar: a sensação imediata de se engolir um saco de pedras, um murro constante no estômago, a agonia do murro a furar, a certeza de quem o deu a olhar-nos nos olhos enquanto o braço firme, enquanto o murro firme, como um aríete, escancara as portas do corpo.

Se às vezes pode levar um par de horas para reagir ao glúten, hoje em dia tende a ser mais rápido, mais rápido a entrar mas nem por isso sair, daí a obstipação de dias, não, meses, meses esses rebentados à custa de litros de chá de sene, os interiores rebentados à custa de litros de chá de sene, inflamados durante dias sem dormir, ou então vomita-se a noite para tratar logo do assunto. 

Há quem diga estar o cérebro, a lógica, o sentido da vida e a razão de viver no centro do corpo, na região gástrica, onde se processam os alimentos e a vida. São bem capazes de ter razão. Entupida, inflada em pleno voo sem poder largar lastro, a Luísa já não sabia por que viver. Até ao diagnóstico, não da parte de médicos e hospitais, que a Luísa já perdeu a conta aos testes e consultas ou não estivesse sempre tudo bem, pode ir para casa e muito obrigado.

Não, o diagnóstico veio das sessões de drenagem linfática e da experiência da terapeuta, habituada a estas andanças. Nesse dia, a Luísa passou a saber o que era o glúten. Para sempre. E a evitar o mesmo através de um regime alimentar restrito. De caminho passou o tempo. E se há 10 anos pouco ou nada se sabia sobre o glúten, a sua intolerância e alergia um pouco por todo o lado, de então para cá muitos são os países por essa Europa fora onde a oferta de produtos desprovidos destas proteínas, do pão à cerveja, das massas às farinhas, das pizzas às salsichas, dos supermercados aos restaurantes e cafés, é mais que muita e acompanhada de preços acessíveis para quem precisa destes alimentos como de pão para a boca. Literalmente.

Só em Portugal é que os produtos sem glúten continuam a ser vistos não como uma necessidade mas uma moda, a moda de emagrecer, das figuras esbeltas, tão atléticas como esqueléticas nas revistas e na televisão, onde um pãozinho sem glúten custa o equivalente a uma saca de pão inteira, sendo o objectivo sempre a dieta e nunca a nutrição. Resultado: em Portugal a Luísa continua a passar fome e não fosse o que lhe trazemos de Inglaterra e talvez não soubesse o sabor de uma côdea.

A passar fome e a repetir, milhares de vezes por dia, milhões de vezes por ano, que o leite tem lactose e não glúten, a farinheira é feita com farinha, por nisso o nome, e portanto não se come, o creme do doce da avó foi mesmo engrossado com farinha, isto apesar da fúria do cozinheiro de prontidão na mesa como se fosse o maior dos insultos, mas a minha saúde primeiro, por favor, e portanto só a conta, e não, prima, não, a metade direita do empadão tem tanto glúten como a metade esquerda, derivado do chouriço na metade esquerda e viva a osmose e o glúten por todo o lado.

A Luísa não pode viver sem o glúten e a Luísa não pode viver com o glúten. Os rótulos e menus são passados a pente fino e à lupa à procura do criminoso e não se pode sair à noite, uma vez que seja, sem ter sempre a mesma conversa. Portanto, passamos a mensagem e fazemos o apelo por mais alternativas, mais substitutos de glúten, menos caros, por favor, e sem a desculpa de ser mais especial e por isso mais caro, porque não é especial, é normal, é uma vida normal onde somos todos iguais, incluindo aquele muffin sem glúten que um dia trouxe. E os olhos da Luísa a brilhar.