Turquia aprova missão militar para a Líbia

Objectivo é apoiar Governo de Trípoli contra o avanço do general Khalifa Haftar, o homem forte do Leste do país, que ameaça desde Abril tomar a capital. Pelo meio, Ancara tenta assegurar acesso a reservas de gás no Mediterrâneo Oriental.

,Exército Nacional da Líbia
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Tanque do Exército Nacional Líbio do marechal Haftar Esam Omran Al-Fetor/REUTERS

O Parlamento turco aprovou o envio de militares para a Líbia, em apoio do Governo de Acordo Nacional (GAN) liderado por Fayez al-Sarraj em Trípoli e reconhecido internacionalmente, que está em dificuldades face ao avanço das tropas do general Khalifa Haftar, apoiado pelos rivais regionais de Ancara - Arábia Saudita, Egipto e os Emirados Árabes Unidos.

Com esta autorização, a Turquia pode enviar tropas não combatentes, para treinar e aconselhar o governo de Trípoli no combate às forças de Haftar, que diversas vezes ameaçaram já tomar a capital. No entanto, um responsável turco admitiu à Reuters que Ancara pode treinar soldados líbios na Turquia, e está também a ser considerada a possibilidade de enviar combatentes árabes sírios para Trípoli, como parte do pacote de apoio militar. Na verdade, já há relatos, desde a semana passada, da chegada destes combatentes sírios à Líbia. 

O Parlamento turco aprovou a 21 de Dezembro o acordo de cooperação militar e de segurança assinado pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan a 27 de Novembro, durante uma visita a Istambul de Fayez al-Sarraj. O acordo permite às duas partes enviarem para o outro país pessoal militar e policial para missões de treino e formação. Erdogan disse no mês passado que Sarraj pediu o envio de tropas turcas.

Trípoli é alvo desde Abril de uma ofensiva do Exército Nacional Líbio do marechal Khalifa Haftar, homem forte do Leste do país.

Esta é uma nova fase da internacionalização do conflito líbio, embora a Turquia já tenha fornecido veículos blindados ao Governo de Trípoli e opere drones em seu nome. O facto de a missão militar de Ancara ir para a Líbia para “treinar e aconselhar” não significa que terão um menor envolvimento no conflito, sublinha o especialista em Defesa da BBC, Jonathan Marcus. Veja-se o papel dos Estados Unidos na guerra contra o Daesh na Síria. “Se o Governo de Trípoli se vir entre a espada e a parede, a Turquia pode ser obrigada a ter um papel mais directo na luta”, frisou.

A Turquia encara a Líbia como uma região de fronteira estratégica, diz Marcus. Prova disso é ter assinado recentemente um acordo económico com o Governo de Sarraj para garantir o acesso às águas ricas em gás natural do Mediterrâneo Oriental. Mas as acções de Ancara têm o potencial de desencadear uma nova crise regional.