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E depois de uma grande festa... vem a ressaca moral?

A ressaca moral – arrependimento, irritabilidade, vergonha, culpa pelos comportamentos inadequados da noite anterior – é uma das consequências negativas associadas ao binge drinking.

Dançar, socializar, consumir álcool ou outras drogas podem ser experiências altamente significativas e fazem parte das vivências de entretenimento e de recreação nocturna em países ocidentais. Por esse motivo não é de estranhar que, principalmente em meios urbanos, se multiplique a oferta em termos de lazer nocturno: bares, discotecas, festas em armazéns, concertos, festivais, matinés, etc., para todos os gostos, géneros e feitios. Assim como não é de estranhar a ânsia e o detalhe nos preparativos para a passagem de ano que é uma oportunidade (ou a desculpa ideal) para uma grande noitada. 

Mas seja o lazer nocturno uma experiência frequente, ocasional ou até mesmo esporádica e independentemente da diversidade cultural associada a este sector, há algo que é comum a todas as pessoas que saem à noite: a procura e o consumo de experiências prazerosas e disruptivas. É inegável que estes ambientes oferecem boas oportunidades de diversão, celebração, perda de controlo e experimentação de papéis e performances alternativas que, para muitas pessoas, são fundamentais para romper com a previsibilidade, o mecanicismo e a monotonia da vida quotidiana. Assim como é inegável que a presença assídua de uma ampla oferta de substâncias psicoactivas, entre as quais destaco (obviamente) o álcool, apoie a desinibição e facilite as dinâmicas performativas e de socialização esperadas nesses ambientes.

Nesse sentido, é natural que a noite esteja muitas vezes associada a uma cultura binge ou cultura de excesso que, apesar do seu potencial emancipatório, acarreta riscos e pode resultar em consequências negativas que devem ser consideradas. O último Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Álcool publicado recentemente pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), revela que, apesar de se ter verificado uma descida nas prevalências de consumo de álcool na população em geral, houve um agravamento, em relação aos dados de 2012, na frequência do consumo binge drinking (consumo de cinco ou mais bebidas por homens ou de quatro ou mais bebidas por mulheres na mesma ocasião) e de situações de embriaguez. 

No entanto, estes consumos são predominantemente ocasionais, sendo que uma importante franja da população refere ter repetido esta prática em cerca de dez ocasiões nos últimos 12 meses. Por esse motivo, quando pensamos nos riscos associados a consumos excessivos que são ocasionais ou mesmo esporádicos, é importante situá-los no curto prazo em que ocorrem. Isto é, focar-nos nos riscos imediatos que emergem nessa mesma ocasião e que podem colocar em causa a saúde física e a segurança do/a consumidor/a ou podem resultar em situações de humilhação social com impacto negativo na vida dessa pessoa.

Os dados do último Global Drug Survey 2019 revelaram que, em Portugal, a média de situações de embriaguez nos últimos 12 meses foi de 1 a 2 vezes por mês (cerca de 20 vezes por ano). Dentro dos/as respondentes que revelaram ter-se embriagado, 16% referiram ter-se arrependido, demonstrando que a ressaca moral – arrependimento, irritabilidade, vergonha, culpa pelos comportamentos inadequados da noite anterior  é uma das consequências negativas associadas ao binge drinking.  

Este ano, o Global Drug Survey – GDS2020 quer saber como foi a tua última grande noite (ou dia) de festa e também se já te arrependeste de consumir álcool. A Kosmicare é novamente a organização responsável pela divulgação do questionário e seus resultados em Portugal. Tendo em conta a sua visão, todas as respostas são fundamentais para ajudar a reunir um conjunto de evidências que possam informar o desenvolvimento de modelos de regulação do lazer nocturno que promovam a saúde, a segurança e a qualidade da experiência das pessoas que frequentam estes ambientes. Estes dados são também relevantes para identificar os factores-chave que possam ajudar as pessoas que consomem álcool ou outras substâncias psicoactivas a reduzir os riscos que estão associados a esses consumos. 

Não te esqueças de preencher o GDS2020. Até dia 5 de Janeiro ainda vais a tempo de nos ajudar a ter conversa mais honestas sobre drogas.