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Megafone

O que os portugueses mais pesquisaram no Google neste novo milénio

A alguns dias da entrada numa nova década, mais do que fazer um balanço do ano que está a terminar, é talvez altura de olhar para a década que finda com ele.

O ano 2020 é importante por várias razões. Desde logo, é um ano redondo que marca o fim de vários ciclos políticos e estratégicos (como é o caso do Portugal 2020) e a consequente preparação de novos ciclos (como as autárquicas de 2021). Por outro lado, possibilita também já algum distanciamento e subsequente leitura da entrada neste novo século, que foi também a entrada num novo milénio. 

Desde então, o mundo tornou-se mais digital, síncrono e conectado. Associados aos smartphones, redes sociais como o Facebook (2004), o Twitter (2006) e o Instagram (2013), bem como plataformas de conteúdo como o YouTube (2005), vieram mudar a forma como comunicamos e como temos acesso à informação. Mas talvez seja o Google que mais contribuiu para mudar a nossa forma de ver o mundo ao possibilitar pesquisar por qualquer assunto ou tema. É nessa liberdade de procura e acesso à informação que porventura melhor se consegue perceber como evoluíram os interesses dos portugueses e talvez até compreender velhos e novos padrões de cultura. 

A Google disponibiliza uma ferramenta (Google Trends) que identifica e organiza as palavras mais pesquisadas no seu motor de busca. Sobre Portugal, essa informação aparece autonomizada desde 2011. Nesse ano, apenas duas categorias emergiram das palavras mais pesquisadas: “pesquisas em crescimento” e “pessoas”. Na primeira sobressaem as pesquisas relacionadas com o digital (Facebook, Google+, Gmail, Hotmail) e tecnologia (iPhone5, Android); assim como pesquisas relacionadas com economia e finanças (Finanças, Euromilhões, etc.). Talvez estes tópicos se possam explicar em função de um processo de digitalização tardia e como reflexo dos efeitos da crise de 2008. Já na categoria “pessoas” encontramos nomes de algumas estrelas emergentes ligadas ao mundo artístico e da música no panorama internacional (Adele e Rihanna) e nacional (Áurea e Rita Pereira), mas curiosamente o que se destaca neste top é a lista de nomes de celebridades que tiveram acidentes (Sónia Brazão) e/ou faleceram de forma polémica (Angélico Vieira, Carlos Castro e Renato Seabra e Amy Winehouse).

No ano de 2012, à categoria “Pesquisas” e “Pessoas”, juntou-se a categoria “Músicas”, incluindo hits como Somebody That I Used to Know e Gangnam Style. Na categoria “pesquisas”, destacam-se os tópicos megaeventos desportivos (Euro2012 e Jogos Olímpicos) e musicais (Rock em Rio) e palavras ligadas a nomes de telenovelas, programas de formato internacional/reality shows (Ídolos e Casa dos Segredos). Quanto à categoria “pessoas”, mantêm-se os nomes ligados ao mundo televisivo, artístico e da música (Luciana Abreu, Adele, Rita Pereira; etc.) e novamente a pesquisa por nomes de celebridades que faleceram (Michel Teló, Amanda Todd, Whitney Houston, etc.). 

Em 2013, a categoria “Pessoas” dá lugar à categoria “Atletas”, mantendo-se as restantes. Apesar da mudança, um padrão sensacionalista associado a casos polémicos (Lance Armstrong), acidentes, crimes e mortes violentas (Óscar PistoriousCory Monteith) começa a tornar-se evidente. No campo “Pesquisas”, os reality shows (Big Brother, Secret Story 4) e o digital (Segurança Social Directa, Outlook) são os tópicos principais, mas as autárquicas de 2013, o IPMA, o site desportivo ZeroZero e o nome da actriz de filmes para adultos, Érica Fontes, aparecem também entre as palavras mais pesquisadas. 

O ano de 2014 veio introduzir às categorias anteriores a categoria “Como…?” e as tecnologias autonomizaram-se na categoria “Gadgets”. Na “Música”, os hits BailandoJajão Bo Tem Mel ocupam os primeiros lugares de pesquisa. Os reality shows e os nomes de celebridades falecidas (Philip Hoffman, Robin Williams, etc.) e associadas a acidentes (Michael Schumacher) repetem-se. O padrão é semelhante nos anos de 2015 e de 2016, com a diferença de este último introduzir a categoria “como ser…”, onde se destaca “como ser motorista de Uber em Portugal”, “como ser mais confiante” e “como ser bom aluno no secundário”. Marial Leal, Nicolau Breyner, José Pedro Gomes, Pedro Dias e Marcelo Rebelo de Sousa são, por esta ordem, os cinco nomes mais pesquisados nesse ano. 

O ano de 2017 fica marcado pelas pesquisas associadas a diversos eventos desportivos (Taça das Confederações, McGregor vs Mayweather, etc.) e ao Festival da Eurovisão, com os nomes de Salvador e Luísa Sobral a figurarem no top da categoria “figuras nacionais”, a par dos de Maria Leal, Mário Soares e do actor João Ricardo, estes últimos falecidos nesse ano. Na categoria “figuras internacionais”, as mortes dos músicos Chester Bennington, Chris Cornell e Lil Peep, a vinda do Papa Francisco a Fátima e a chegada de Donald Tr**p à Casa Branca fizeram com que fossem estes os nomes os mais procurados. Os reality shows (Love on Top, Desafio Final) e as autárquicas de 2017 também constam da lista.

De resto, os reality shows também marcaram fortemente as pesquisas de 2018 (Secret StoryCasados à Primeira VistaLove on Top, etc.). Mais uma vez, as mortes do Dj Avicii, do escritor Stan Lee, dos rappers XXXTentacion e Mac Miller e o internamento da cantora Demi Lovato fizeram destes nomes os mais procurados no quadro internacional nesse ano. A nível nacional, o falecimento da jornalista Helena Ramos e o desaparecimento do cantor Zé do Pipo também suscitaram interesse por estes nomes, que aparecem junto dos de Bruno de Carvalho, a apresentadora Maria Cerqueira Gomes e novamente… Maria Leal. Esse ano é ainda marcado pela entrada da categoria “Notícias”, em que se destacam o incêndio de Monchique, as eleições no Brasil, o Furacão Leslie, o casamento real britânico e o resgate na Tailândia. 

Então e 2019? Este ano que agora termina segue desde logo a mesma cultura sensacionalista e de obituário que se parece evidenciar das pesquisas dos portugueses. Os nomes de Ângelo Rodrigues, Eduardo Beauté e Roberto Leal surgem como os mais pesquisados a nível nacional, juntamente com os de Freitas do Amaral e de José Mário Branco. A estes reúnem-se os de Conan Osíris, de João Félix, Bruno Fernandes e André Gomes, evidenciando também uma cultura de mediatização e de polémica em torno da música e do desporto, sobretudo do futebol. Nesta lista figura ainda a actriz Carolina Loureiro. Nos nomes internacionais, as mortes dos actores Cameron Boyce, Luke Perry e do futebolista Emiliano Sala também lhes valeram um lugar na lista. O Flamengo, “como saber onde votar”, “como funciona o Tinder” e a série Game of Thrones fecham alguns dos assuntos mais populares.

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