O Irlandês, de Scorsese, é a estreia cinematográfica da semana mas não está nos cinemas

É uma estreia paradoxal: o novo Scorsese não está nos cinemas em Portugal mas é o maior filme Netflix em sala. O Irlandês gera outro fenómeno — há bilhetes à venda por 100 dólares para ver o De Niro e Pacino num cinema.

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Robert De Niro e Al Pacino, nos papéis de Frank Sheeran e Jimmy Hoffa, com Jesse Plemons e Ray Romano NETFLIX

É a estreia mais paradoxal da temporada: O Irlandês, a magnum opus de Martin Scorsese, estreia-se quarta-feira na Netflix e, embora pequenos mercados como o português não tenham a alternativa de ver o filme nos cinemas, é o maior lançamento de um filme Netflix em sala a nível mundial. Protagonizado por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, encantou a crítica e dividiu o mercado num braço-de-ferro entre o modelo tradicional de ver e mostrar cinema e o novo normal do streaming. É o primeiro drama de Scorsese que não se estreia em sala em Portugal, e mesmo noutros países com a possibilidade de o ver no grande ecrã a procura por bilhetes é tanta que enriquece o mercado secundário.

Nos últimos dias, o PÚBLICO encontrou bilhetes para uma sessão de O Irlandês no Belasco Theater, em Nova Iorque, por preços entre os 40 e 90 dólares por cabeça à venda no site de revenda de ingressos StubHub, por exemplo. O Belasco, uma sala clássica de mil lugares em plena Broadway, em Manhattan, é um lugar simbólico. A par do Grauman’s Egyptian Theater, em Hollywood (Los Angeles), foram as únicas salas das duas cidades onde o filme se estreou a 1 de Novembro – mas uma semana depois, estava noutros 48 cinemas em Nova Iorque e em 15 salas em Los Angeles. Entretanto, já se espalhou pelos dez principais mercados dos EUA, deixando de fora estados inteiros como o Arkansas ou o Havai.

Em O Irlandês, Scorsese filma salas de cinema em pano de fundo​— no início do filme, está a passar As Faces de Eva; mais perto do fim, é O Atirador, o último filme de John Wayne, que está em cartaz. 

A estreia de O Irlandês já demonstrou que nem Scorsese pode mudar as regras do jogo da nova indústria – “é uma desgraça”, dizia no início do mês ao New York Times o presidente da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas, John Fithian. Mas se as negociações em torno do tempo de exibição exclusivo para os cinemas deixaram mercados pequenos como o português sem margem negocial (foi exigida pelo menos uma janela igual à dos EUA, que acabaram por ter o filme nos cinemas 26 dias antes da estreia na Netflix, e esta não foi aceite), muitos outros mercados aceitaram mostrar o filme escassos dias antes da sua chegada aos 159 milhões de subscritores da plataforma de streaming.

É tudo um jogo de números. A Paramount, que produzia até aqui os filmes de Scorsese, não quis desembolsar os cerca de 130 milhões de euros que O Irlandês, seu elenco de luxo e seu rejuvenescimento digital, custaram. Os cinemas tentaram negociar os habituais 90 dias de exclusivo em sala antes de um filme passar para o mercado doméstico e duas grandes cadeias de exibidores chegaram mesmo a baixar a fasquia para 60 dias; a Netflix não ia mais longe do que 45 dias e, escreveu o New York Times, a conversa acabou e só algumas salas independentes aceitaram mostrar o filme. O cenário repetiu-se mundo fora mas, como constatava a revista Variety há um par de semanas, a Netflix acabou por conseguir mostrar o filme de Scorsese num número recorde de salas. Roma, a experiência anterior da Netflix no cinema e nas salas, chegou a 1200 ecrãs em todo o mundo, mas poucos tiveram o filme antes da sua estreia no serviço. Portugal teve o filme em sala durante semanas, mas só se estreou em oito cinemas na véspera da sua chegada à Netflix.

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Joe Pesci e De Niro Netflix

O Irlandês está em cerca de 80 ecrãs no Reino Unido, de cem em Itália ou na Coreia do Sul, Espanha e Alemanha rondam os 50 ecrãs com as 3h30 de O Irlandês e há também umas dezenas de salas a mostrar o filme no Japão ou na Austrália. No Brasil, estreou-se em 15 cidades no dia 14. França tem regras draconianas para o funcionamento do mercado e os 30 meses que separam a estadia nos cinemas da ida para o mercado do home video nem levantaram a questão Netflix — o filme só foi mostrado no Festival Lumière, em Lyon, e numa sessão especial na Cinemateca, em Paris.

“O objectivo de uma janela de exibição [exclusiva] nos cinemas é que os filmes atinjam todo o seu potencial comercial. A Netflix escolheu limitar artificialmente a estreia de O Irlandês nos cinemas. O sinal que deram aos cineastas é que mesmo que se seja Martin Scorsese, através da Netflix não se tem a estreia alargada que se quer”, resumiu Fithian na revista Hollywood Reporter.

A questão dos números aplica-se também noutra perspectiva: o filme “poderia seguramente fazer 90 milhões de euros” de receita de bilheteira, argumentava por seu turno Doug Stone, presidente da empresa Box Office Analyst, na CNBC, dos quais metade seriam para a Netflix. “Porque não tentar encontrar uma forma de o fazer?”, intriga-se Stone, que também é exibidor.

Para Fithian, a Netflix “falhou uma oportunidade estratégica” e “está a deixar uma quantidade significativa de dinheiro na mesa”, disse ao New York Times. “The Departed – Entre Inimigos fez 272 milhões de euros em todo o mundo. Deu o Óscar de Melhor Realizador a Scorsese. Ganhou Melhor Filme”, enumerou John Fithian, que defende que se o filme estivesse em sala um par de meses e depois fosse um exclusivo Netflix poderia chamar subscritores à mesma. “Acreditamos no box office”, contrapôs Scott Stuber, o rosto para o cinema original da plataforma de streaming com bolsos aparentemente infinitos (este ano deverá gastar 13,6 mil milhões de euros em conteúdos) mas que há muito tem um cash flow negativo de tanto investir. “[Mas] também acho que as pessoas vão gostar dele à mesma na Netflix.” Ao Los Angeles Times mostrou-se mais contemporizador: “Estamos a tentar encontrar a cadência certa para dar aos realizadores o que querem e para dar aos consumidores o que querem”.

Simultaneamente, está também a aprimorar a sua imagem, salvando agora o cinema Paris, em Nova Iorque, de fechar e dando-lhe nova vida — e garantindo um local histórico para fazer as suas estreias, como está já a fazer com Marriage Story, de Noah Baumbach, que se estreia na Netflix dia 6 de Dezembro. 

Há um ano, perante o caso Roma, O Irlandês perfilava-se como o filme que poderia mudar as regras. Paradoxalmente, tornou-se o filme que chegou mais longe que Roma mas que não mudou os padrões da indústria no que diz respeito à janela de exibição exclusiva que tanta importância tem para o mercado do cinema no mundo – Roma esteve 21 dias em algumas salas antes de chegar à Netflix, O Irlandês conseguiu 26 dias de exclusividade antes de esta quarta-feira chegar ao streaming. É que se, ou quando, os grandes exibidores concordarem com uma janela menor para a Netflix, os restantes estúdios exigirão o mesmo e o mercado mudará ainda mais.