A sala mais silenciosa do mundo, na Microsoft, nos Estados Unidos.
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A sala mais silenciosa do mundo, na Microsoft, nos Estados Unidos. DR/Microsoft

Megafone

Quanto tempo aguentarias num quarto em silêncio total?

Nunca achei que o silêncio fosse sinónimo de paz mas sim de tranquilidade, ou uma excelente oportunidade para pensar devagar, coisa que pouco fazemos. Gosto de silêncio, ainda que, na realidade científica, o silêncio que conhecemos está bem longe dos níveis de silêncio acústico.

Por mais incrível que nos possa parecer, o recorde de permanência de um ser humano num quarto fechado a roçar as condições mais próximas ao silêncio total é de apenas 45 minutos — ainda que algumas fontes indiquem os 50 minutos como limite. Depois desse período, a mente humana revela entrar naquilo que são os caminhos dos transtornos de percepção e se revelam pelas decorrentes alucinações.

O que começou por despertar a minha atenção neste campo foi o facto de ser a Microsoft a detentora actual do lugar mais silencioso do mundo, que se situa nas profundidades do edifício 87 da sua sede, em Redmond, no estado norte-americano de Washington.

Este local foi criado por engenheiros da Microsoft para os ajudar a desenvolver tecnologias e equipamentos, tais como a funcionalidade alta-voz dos tablets e portáteis Surface, e para melhorar o rendimento das chamadas Skype sem ruído exterior.

Posteriormente, tanto a Microsoft como outras empresas passaram a utilizar a câmara para testar os níveis de ruído dos equipamentos. A própria NASA utiliza esta câmara, uma vez que as condições de silêncio são semelhantes às que os astronautas enfrentam no espaço. Este local consegue absorver 99,99% dos sons através de seis capas, uma espécie de ninho de quartos dentro de quartos que bloqueiam o som do mundo exterior, tendo cada estrutura cerca de 30 centímetros de espessura.

O nível de ruído na câmara “anecoica” (sem eco) ronda os -20.6 decibéis (dB), sendo esse o recorde actual do Guinness Book. A título de exemplo, o limite do ouvido humano é de zero decibéis. Quando sussurramos, o valor está próximo dos 30 dB, a nossa respiração nos 10 e um quarto em silêncio nocturno ronda os 30.

Por outro lado, este espaço onde reina o bendito silêncio demonstra que o mesmo se encontra bem longe de ser sinónimo da paz a que o associamos. Quando nos aproximamos do silêncio absoluto, o cérebro entra em tensão e começa uma busca desesperada por ruído. De repente, o nosso corpo passa a ser a única fonte de ruído e o gerador de tudo. Ouvimos o nosso organismo falar através do batimento cardíaco, da motilidade gastrointestinal e, por fim, o som da nossa própria respiração.

Seria interessante colocar os campeões e gurus mundiais de meditação e mindfulness dentro desta câmara; no fundo, todos aqueles que nos vendem e bem a vantagem de silenciar os pensamentos de forma a nos reposicionarmos no agora, no momento presente.

Nunca achei que o silêncio fosse sinónimo de paz mas sim de tranquilidade, ou uma excelente oportunidade para pensar devagar, coisa que pouco fazemos. Gosto de silêncio, ainda que, na realidade científica, o silêncio que conhecemos está bem longe dos níveis de silêncio acústico.

Gosto do silêncio que levita palavras, do silêncio entre olhares, do silêncio no meio de uma discussão, do silêncio em harmonia com as luzes de uma madrugada que em breves minutos se transformará num ritmo acelerado de gente em hora de ponta matinal, como se o silêncio das vidas quotidianas tivesse um nascer ou pôr do sol através das notas acústicas de todos os nossos dias.

Já privei com pessoas a quem o silêncio é sinónimo de irritabilidade e cometi o enorme erro de abdicar dele. Hoje percebo que não posso abdicar porque, se com silêncio acústico o cérebro entra em tensão, sem ele deixa escapar os detalhes mais bonitos do agora, do ontem e do amanhã. No fundo, a vida tem tudo para ser mais bonita e construtiva quando passa por todas as tonalidades acústicas que compreendem não só os ruídos mas também o silêncio.