Espanha desaconselha atum e espadarte a grávidas e crianças até aos dez anos. Portugal avalia risco

Recomendação resulta dos níveis de mercúrio encontrados no peixe. Em Portugal há uma avaliação “em fase final” que deverá resultar em “recomendações devidamente sustentadas”.

Prosciutto
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Atum Ana Marques Maia

Grávidas e crianças até dez anos devem abster-se de comer espadarte, atum-rabilho, tubarão (e cação) e lúcio, de acordo com a recomendação da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição (AESAN), emitida no final de Outubro. Em Portugal ainda não há recomendações adaptadas à realidade portuguesa — mas a avaliação dos riscos está em “fase final”.

A recomendação não é nova — pelo menos desde 2011 que a agência espanhola desaconselha o consumo destas espécies a grávidas —, mas agora deixou de se aplicar apenas a crianças até aos três anos para se alargar até aos dez.

A razão principal é a presença de mercúrio, que estas espécies absorvem através das guelras e na sua forma mais tóxica (o metilmercúrio) e que fica acumulada nos tecidos gordos.

Por serem espécies com vida mais longa e predadores maiores, como o turbarão (Selachimorpha​) ou o espadarte (Xiphias gladius), acumulam maiores quantidades da substância e oferecem um maior risco para a saúde dos consumidores habituais.

O endurecimento das recomendações da AESEN vem na senda de novas provas científicas que mostram que “as concentrações de mercúrio na população espanhola são mais elevadas do que as de outros países europeus”, defende agência de segurança alimentar, sob a alçada do Ministério da Saúde, no seu site.

Por isso, o consumo destes peixes pode ser prejudicial para crianças, grávidas e lactantes. Para além disso, o consumo deve ser limitado entre os 10 anos e os 14: apenas 120 gramas destes peixes por mês, defende a agência espanhola.

A dieta deve alterar-se para incluir espécies com baixa concentração de mercúrio (como as anchovas, lagostim, polvo, salmão, lulas ou truta) que fazem diminuir a exposição a este contaminante. As grávidas e as crianças devem consumir “entre três e quatro porções por semana” destas espécies.

Em Portugal ainda se estuda a exposição da população ao mercúrio do peixe

De acordo com as recomendações da Comissão Europeia, que se basearam num estudo científico da ​Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFJA), cada Estado-membro pode definir as próprias “medidas para minimizar a exposição ao mercúrio”, e o consumo de peixe pode ser uma das estratégias, “com especial relevância para os grupos de risco”, como grávidas e crianças.

A EFJA recomenda que este risco seja avaliado caso a caso, por cada Estado-membro, especialmente “aqueles onde espécies de peixes/marisco com alto teor de mercúrio sejam consumidos regularmente”. “Em Portugal é esta avaliação que estamos a fazer neste momento”, afirma fonte da Direcção-Geral de Saúde, contactada pelo PÚBLICO. 

“Neste sentido foi criado um grupo de trabalho”, constituído pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), “que está a avaliar a exposição da população portuguesa a este contaminante, bem como a fazer uma avaliação de risco-benefício”, esclarece a mesma fonte.

“Os trabalhos deste grupo já estão em fase final e resultarão em recomendações devidamente sustentadas e adaptadas à realidade de Portugal.”

Os últimos dados, publicados em 2012 depois de um estudo conduzido pelo IPMA, “mostravam que os valores de mercúrio eram baixos e que a sua presença estava circunscrita a espécies com consumo relativamente baixo na população portuguesa” — no entanto, nesse ano, ainda não havia dados de consumo alimentar que permitissem fazer uma “avaliação da exposição da população portuguesa”. O novo estudo já vai ter em conta esses dados.

Em Portugal, o atum usado nas conservas não é o atum-rabilho (que, pelo contrário, é apreciado para fazer sushi, pelo menos no Japão). De acordo com os sites que disponibilizam essa informação, como os das conservas Bom Petisco e da Cofaco (que detém as marcas Pitéu, Tenório e Bom Petisco), o atum usado é aquele conhecido vulgarmente como “bonito” ou “gaiado”.

O que é o mercúrio e o que provoca?

O mercúrio é um químico que está presente naturalmente no ambiente, mas que também é resultado da poluição industrial. Os riscos para a saúde são conhecidos, pelo menos desde 1972, altura em que foi pela primeira vez estudado o risco da ingestão deste metal pesado por um comité de especialistas da Organização Mundial de Saúde.

“O mercúrio é prejudicial em alturas em que o cérebro se está a desenvolver”, explica Albert Goday, chefe do serviço de endocrinologia e nutrição do Hospital del Mar, em Barcelona, citado pelo El País.

Por isso, o período pré-natal é a fase da vida humana mais susceptível à exposição ao metilmercúrio, sendo mais grave quando ocorre no segundo trimestre da gravidez, podendo provocar atrasos no crescimento e danos neurológicos permanentes. Explica-se pela maior sensibilidade do sistema nervoso em desenvolvimento, que apresenta uma barreira hematoencefálica mais permeável e facilita a absorção do metilmercúrio.

“Para os adultos o risco é menor, porque a capacidade que temos de os tolerar é maior, mas em grandes quantidades continua a ser tóxico”, continua Albert Goday.

Tanto as autoridades espanholas como as portuguesas salientam, porém, a importância de continuar a consumir peixe. “Não só é seguro comê-lo como é recomendável”, lê-se no site da agência espanhola.

“Na legislação alimentar europeia existem limites máximos de mercúrio que são de cumprimento obrigatório e que, controlados pelas autoridades de saúde, garantem um consumo seguro de alimentos pela população”, continua a organização.

O peixe é fonte de nutrientes necessários como o iodo o selénio, o cálcio e as vitaminas A e D. “A limitação do consumo de espécies com uma elevada concentração de metilmercúrio é a maneira mais eficaz de alcançar os benefícios para a saúde pelo consumo de pescado, enquanto se minimiza o risco de uma exposição excessiva” a este metal pesado, conclui a AESAN.