Opinião

Liberdade, ano zero

Recordemos essa data tão auspiciosa de 9 de Novembro de 1989 – quando o impensável aconteceu com a queda do muro de Berlim –, buscando nela a inspiração e a força necessárias para voltar a acreditar no futuro.

Se, como estava previsto, a primeira edição do PÚBLICO tivesse saído para as bancas a 1 de Janeiro de 1990 e não apenas três meses depois, devido a condicionalismos técnicos que não conseguimos ultrapassar, a convergência festiva da história deste jornal com o dealbar da última década do século XX teria sido bastante mais exuberante. E essa festa era desde logo visível na capa, com o título “Liberdade, ano zero” e imagens da queda do muro de Berlim, de uma entrevista com Vaclav Havel – um dos grandes heróis da resistência checoslovaca – e do levantamento na Roménia. Uma equipa de enviados especiais do PÚBLICO, da escrita à imagem, tinha acompanhado intimamente as convulsões que foram mudando a paisagem política e social da Europa de Leste – tendo como epicentro o grande sismo de 9 de Novembro de 1989, quando o inimaginável aconteceu com a queda do muro de Berlim.

Este jornal tem, pois, inscrito no seu código genético esse sobressalto histórico que transformou a face da Europa, apesar do tal atraso verificado na data da sua saída. Fomos todos – os que partilharam as dores de parto do PÚBLICO – profundamente marcados por esses acontecimentos e eles tornaram-se parte integrante das nossas vidas – se é que não mudaram mesmo o seu sentido. Depois da conquista da democracia em Portugal, em 1974, a queda do muro e a implosão do comunismo na URSS e respectivos países satélites foram momentos absolutamente decisivos da nossa memória no final do século XX – pode mesmo dizer-se: foram os momentos mais emblemáticos da passagem de um século para outro, de uma era para outra era. A liberdade tornara-se uma palavra e um valor mágicos, que ultrapassavam as fronteiras ideológicas e os dogmas dos regimes.

Dito isto, é impossível olhar hoje para trás sem experimentar um sentimento profundo de nostalgia perante as grandes promessas desses tempos. A enorme esperança da liberdade foi sendo substituída pelo autoritarismo autocrático dos regimes pós-comunistas, ou “democracias iliberais", que se foram implantando através da Europa de Leste, para não falar, obviamente, da própria Rússia. No fundo, as raízes autocráticas do comunismo sobreviveram nos regimes que lhe sucederam, independentemente da sua matriz ideológica: as sociedades saídas do comunismo eram, em larga medida, sociedades conservadoras fechadas sobre si próprias (o catolicismo arcaico polaco, por exemplo, revelou-se uma imagem invertida do modelo comunista). Não é por acaso, de resto, que alguns dos actuais regimes da Europa de Leste – como a Hungria e outros países do grupo de Visegrado – se sintam tão identificados com o regime de Putin.

Infelizmente, a Europa actual – como o Presidente Macron advertiu numa recente entrevista ao The Economist, independentemente das ilusões que alimenta sobre o revigoramento da relação europeia com a Rússia – corre o risco de afastar-se cada vez mais daquilo que constituiu o fundamento da sua força: uma efectiva capacidade de integração cada vez mais estreita face às actuais tentações de desagregação e as tendências xenófobas e populistas. Se a Europa não souber enfrentar os seus fantasmas (velhos e novos), através de uma nova energia convergente entre as suas instituições, envolvendo os sectores financeiro, tecnológico, ambiental e de Defesa – onde a insustentável fragilidade da NATO foi também apontada por Macron ao The Economist –, a grande esperança do ano zero da Liberdade poderá converter-se num pesadelo. Recordemos então essa data tão auspiciosa de 9 de Novembro de 1989 – quando o impensável aconteceu com a queda do muro de Berlim –, buscando nela a inspiração e a força necessárias para voltar a acreditar no futuro.

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