Dar a cara pela pobreza. “Tenho deficiência, sou mulata, desempregada, mãe solteira. Querem mais?”

Nova campanha da Rede Europeia Antipobreza – Portugal é protagonizada por pessoas que vivem ou já viveram em situação de pobreza, como Neide Conceição, com licenciatura em Línguas e Relações Empresariais e mestrado em Ciências da Educação

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Neide Conceição Adriano Miranda

Sete palavras foram escolhidas por sete pessoas que vivem ou já viveram em situação de pobreza e exclusão social: desigualdade, solidão, violência, fardo, preconceito, justiça, dignidade. Cada palavra foi pintada no corpo da pessoa que a escolheu. É a nova campanha da Rede Europeia Antipobreza – a EAPN-Portugal, na sigla inglesa.

“Vivemos numa sociedade muito desigual”, salienta Sandra Araújo, directora da EAPN-Portugal. O risco de pobreza aumenta quando se cruza género com idade, origem, etnia, capacidade/incapacidade. “Os fenómenos de pobreza continuam a atingir muitas pessoas e muitas vezes a pobreza é muito mal compreendida. Há muitos preconceitos, muitos estereótipos, muitos mitos.” Desmontá-los parece-lhe “uma dimensão muito importante”.

A palavra desigualdade foi escolhida por Neide Conceição. Aparece escrita, a preto, no braço esquerdo desta mulher de 33 anos. Há, entre os seus amigos e familiares, quem não tenha gostado da escolha dela. “Dizem que não me identifica, mas me identifica muito. Eu sou portadora de deficiência (64% de incapacidade), sou mulata, desempregada, família monoparental. Querem mais?”

Neide cresceu no Huambo. Aterrou em Portugal há dez anos com um filho de três anos e uma doença genética neurológica – uma atrofia muscular espinhal de tipo 3, caracterizada por fraqueza muscular e hipotonia. “Em Angola, os recursos de saúde são precários. Decidi vir para fazer tratamento, tirar um curso, dar uma oportunidade ao meu filho de ter uma vida melhor.”

Instalou-se na terra de um dos seus avós, Vila Real. Tornou-se  trabalhadora-estudante na Universidade de Trás-os-Montes de Alto Douro. E, lidando com a sua incapacidade motora, esforçou-se para concluir a licenciatura em Línguas e Relações Empresariais e o mestrado em Ciências da Educação. Só que isso ainda não se traduziu em emprego. “A minha maior dificuldade: não olham para as minhas capacidades. Quem me conhece sabe muito bem que a minha deficiência ou a minha cor não me impedem de fazer as minhas coisas.”

Amiúde confronta-se com o olhar dos outros. “Quando estou a passear com meu filho na rua, me perguntam: ‘É seu filho?’ ‘Sim.’ ‘Mas como?’ ‘Como é que fez um filho?’ Por amor de Deus! Não é por ter uma deficiência que não posso ter um relacionamento, que não consigo ficar grávida. Posso dizer que fiquei grávida durante nove meses. Nunca caí. Segurei o meu filho quatro anos no colo.”

Deu a cara nesta campanha para chamar a atenção para a desigualdade de oportunidades dadas às pessoas com deficiência. “Estão escondidas muitas vezes”, observa. “Não vão à rua, não vão a um cinema, não levam um filho a passear, tudo por causa das barreiras arquitectónicas. Isso também é desigualdade”, exemplifica.

Não quer inspirar pena por ela nem por outras pessoas com incapacidade. “Somos muito batalhadores”, sublinha. “Eu me desafio todos os dias.” Agora mesmo, está a cumprir um contrato emprego inserção para pessoas com deficiência e incapacidade no núcleo da EAPN em Vila Real. Está como administrativa. O contrato, de 12 meses, termina em Dezembro. Não sabe o que aí vem. 

Nem todos os membros do Conselho Nacional de Cidadãos quiseram dar a cara. “Não é fácil dar a cara por uma campanha”, sublinhou Sandra Araújo, exaltando a coragem de quem o fez. Além de Neide Conceição, de Vila Real, Natália Fonte, da Figueira da Foz, Jaime Filipe, de Setúbal, Beatriz Morais, de Leiria, Higino Costa, de Lisboa, José Belchior, de Setúbal, e Francisco Rico, de Aveiro.

Pedro Neves, da Red Desert, foi desafiado a produzir e a realizar esta campanha, intitulada “Palavras com corpo e alma. Porque a Pobreza não é ficção”. Não quis influenciar a escolha de cada um. Limitou-se a pedir que cada um escolhesse uma palavra e que explicasse porquê. Procurou, “através de um jogo de luzes e sombras”, captar as mensagens que cada um quis ver inscrita no corpo, “como se fosse uma tatuagem”. O resultado é um conjunto de sete cartazes que foram distribuídos por dezenas de organizações e oito pequenos vídeos que já estão a circular pela Internet.