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Uma revista para pôr as crianças a viver (e compreender) o mundo, sem gadgets

Ana Lorena Ramalho e Sara Szerszunowicz criaram a Dois Pontos, uma revista ilustrada para crianças dos 7 aos 11 anos. Não querem infantilizar, mas sim estimular a descoberta e a compreensão do mundo. Com espaço para a ciência, a política, o meio ambiente e a saúde mental.

Quando Ana Lorena Ramalho e Sara Szerszunowicz se conheceram descobriram rapidamente que partilhavam o fascínio por revistas infantis. Um fascínio guardado na memória. “Lembro-me que havia um destacável do Diário de Notícias ilustrado pelo João Vaz Carvalho”, conta Ana ao P3. “Os meus pais compravam o jornal e davam-me o destacável. Tinha factos sobre o mundo, sugestões de actividades para fazer com os amigos e na escola, uma parte interactiva onde dava para desenhar no próprio papel ou dobrar”, recorda.

Sara Szerszunowicz, pintora, escultora e ilustradora que trabalha em gestão de património, guardava memórias semelhantes, mas do seu país de origem, a Polónia. Foi justamente quando Sara regressou há pouco mais de um ano de uma viagem à Polónia que pensaram criar uma revista para crianças em português. Há um ano que as duas trabalham no projecto. Para arrancar com a publicação do primeiro número da Dois Pontos — direccionada para crianças dos 7 aos 11 anos — recorreram ao crowdfunding. O objectivo? Angariar 2500 euros que possibilitem a impressão dos primeiros 1000 exemplares.

Ana Lorena Ramalho e Sara Szerszunowicz, as criadoras da Dois Pontos

“O crowdfunding também foi importante para percebermos o impacto destas ideia nas pessoas. Será que querem isto ou não?” conta Ana Lorena Ramalho, formada em Filosofia e responsável editorial da revista. A resposta parece ter sido positiva: dois dias depois do lançamento da campanha na plataforma de crowdfunding já tinham atingido metade do valor necessário. O primeiro número sairá em Janeiro de 2020.

Dois Pontos: e agora passamos explicar

Ana e Sara olharam para o passado, mas procuraram os temas que hoje interessam às crianças, escolhendo focar-se na faixa etária dos 7 aos 11 anos. “Tem a ver com o tipo de conteúdo que queremos explorar e com o podermos ter mais texto. É acessível às crianças de 7 anos, que aprenderam há pouco tempo a ler, mas também aos de 11, que são um desafio maior”, explica Ana.

O importante é não infantilizar. “Os artigos preocupam-se mais em comercializar um produto do que em estimular o conhecimento e a imaginação das crianças.” Na pesquisa de mercado confirmaram que existia espaço para uma oferta alternativa. “A maior parte das publicações infantis derivam de merchandising televisivo ou brinquedos. Ou então os conteúdos até são bons, mas descuram o lado visual. Sentimos que faltava algo que combinasse os dois”, remata.

Beberam inspiração de revistas que ambas admiram: a inglesa Anorak, a francesa Georges, ou a polaca Kosmos. O nome para a revista que queriam ver nascer em português nasceu do que Ana e Sara sonhavam para este projecto. “Dois Pontos por ser o sinal que se usa quando se vai mostrar ou explicar qualquer coisa. E é isso que queremos fazer também, mostrar coisas novas às crianças, como funcionam diferentes mecanismos e dinâmicas do mundo”, explica Ana. Foi também o nome mais votados por alunos do 3.º ano da escola de São José, em Lisboa, onde realizaram algumas sessões para testar as ideias que tinham para a revista.

PÚBLICO - A revista tem 64 páginas e cada número terá um tema
A revista tem 64 páginas e cada número terá um tema DR
PÚBLICO - No primeiro número, que sairá em Janeiro de 2020, Jaime Ferraz é o ilustrador convidado,No primeiro número, que sairá em Janeiro de 2020, Jaime Ferraz é o ilustrador convidado
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O primeiro número: Diversão

Para primeiro tema procuraram algo transversal, que lhes permitisse trabalhar um dos traços identitários do projecto: a ideia de que é possível as crianças divertirem-se offline. “Não é fazer da tecnologia um inimigo, mas, em vez de proibir o uso de gadgets, sugerir alternativas”, esclarece Ana. Esta é, de resto, umas das secções da revista, que conta com 64 páginas. Nela sugerem actividades, jogos e desafios que não dependem da tecnologia.

E por isso esta é também, garantem, uma revista com uma noção de empoderamento para a infância, incentivando a exploração, a criatividade, a autoconfiança, através da descoberta de novos interesses, da ciência à arte, da culinária ao meio ambiente. Até à saúde mental. “É um tema que não é tratado em publicações mais focadas em entreter ou distrair”, explica Ana Ramalho.

Nos encontros que promoveram com pais e crianças para afinar os conteúdos da Dois Pontos, perceberam, por exemplo, que os adultos ficaram interessados no tema da saúde mental. “Alguns disseram que não é falta de vontade de abordar o assunto em casa, mas mais falta de vocabulário para tratar um assunto como este”. Com a secção de saúde mental, da responsabilidade da psicóloga Inês Martins, vão procurar desconstruir preconceitos e encontrar o tal “vocabulário” para as coisas que as crianças sentem: medos, ansiedades, frustrações.

Mas as secções são muitas e variadas: mundo animal, ciência, mecânica, saúde mental, culinária, vida offline, política, história curiosa (história estranhas mas reais, ideia lançada por uma aluna), outras culturas (onde, na primeira pessoa, uma criança estrangeira a viver em Portugal fala do país de origem), novela Gráfica (a cargo da ilustradora Joana Estrela). Cada edição da revista contará com um ilustrador principal convidado, sendo que os textos – pelo menos a maior parte – serão sempre da responsabilidade do escritor e músico João Berhan.

Na primeira edição, Jaime Ferraz é o ilustrador convidado. Mas haverá, garantem as autoras do projecto, sempre espaço para fotografia e outros ilustradores. A edição é de Ana Lorena Ramalho, a direcção de arte de Sara Szerszunowicz. O objectivo é estarem presentes em banca (com um preço de 6 euros), com venda directa em cadeias livreiras de maior ou menor escala e até loja de brinquedos. No final de Novembro encerram a angariação de fundos e esperam conseguir ultrapassar o valor inicial de 2500 euros para que possam arrancar com a próxima etapa: um site com conteúdos complementares para crianças, pais e educadores, disponibilizando materiais de apoio trabalhados em parceria com especialistas. Outra aposta será no serviço educativo, workshops e parcerias com escolas e bibliotecas de todo o país.

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