Reportagem

O “duplo vencedor” Jorge Fonseca quer voltar a ser feliz em Tóquio

Foi pai aos 17 anos, superou um tumor quando tinha 22 e aos 26, em Agosto deste ano, foi campeão do mundo de judo. No Palácio de Belém, Jorge Fonseca contou a jovens o percurso até aqui.

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Rui Gaudêncio

Perante uma sala repleta de jovens estudantes, Marcelo Rebelo de Sousa chega em passo apressado e apresenta Jorge Fonseca, que se sagrou campeão do mundo de judo na categoria -100 kg em Agosto. O atleta foi convidado para falar com alunos no âmbito da iniciativa Desportistas no Palácio de Belém.

Depois de ter promovido encontros com jornalistas, escritores e cientistas, chegou a vez dos desportistas. A primeira convidada foi Rosa Mota, no dia 8. “Hoje temos um exemplo excepcional de um duplo vencedor: ganha no desporto e ganha na vida”, começou por dizer o Presidente da República sobre Jorge Fonseca. “Há aqueles que têm mais problemas na vida do que o comum dos mortais” e, para Marcelo, o judoca “venceu esse desafio [na vida] e continuou a vencer os desafios desportivos”.

O Presidente incentivou os alunos, que vieram de escolas do Seixal, Caldas da Rainha e Lisboa, a perguntar tudo o que quisessem ao atleta do Sporting. O mote estava dado e Marcelo sentou-se junto aos alunos, que não perderam a oportunidade de satisfazer a curiosidade.

Nascido em São Tomé e Príncipe, Jorge veio para Portugal para “ter melhores condições”. Por cá, já na Damaia, descobriu o judo na escola, mas a paixão não foi imediata. Começou a aprender e a gostar cada vez mais. Acabou por deixar os estudos para se dedicar totalmente à modalidade. Inicialmente a mãe “não gostou muito da ideia”, mas acabou por se tornar no seu maior apoio. Entretanto, já concluiu o 12.º ano. “A minha mãe passou muitas dificuldades para eu ser quem sou hoje. Passei muitos momentos difíceis que me fortaleceram”, afirma. A medalha de ouro ganha no campeonato do mundo está pronta para ser colocada num quadro no quarto da mãe, conta Jorge.

Um dos momentos mais complicados foi o tumor que lhe foi detectado na perna esquerda, em 2015, quando tinha 22 anos. “Foi muito duro. Fazia quimioterapia e estava no hospital o dia todo. Não podia treinar mas queria muito ir aos Jogos Olímpicos [em 2016, no Brasil]”, explica. Conseguiu ir, mas foi eliminado na primeira ronda. O tumor deixou-lhe uma lição: “Fez-me acreditar que sou capaz de muito mais.”

A glória chegou em Agosto de 2019. Em Tóquio, no Japão, sagrou-se campeão do mundo ao vencer o russo Niyaz Ilyasov. “Trabalhei muito. Cheguei a um momento em que não aguentava mais. Treinar, comer e dormir, não fazia mais nada. Tive o apoio do meu treinador e das pessoas certas”, garante. O treinador, Pedro Soares, é a sua maior referência. “A minha maior inspiração é o meu treinador. É um pai para mim. Ensinou-me muito sobre judo e sobre a vida.”

Também Jorge é pai. O filho tem oito anos e diz muitas vezes, na escola ou no supermercado, que o pai é campeão do mundo, o que já fez Jorge passar algumas vergonhas. Isto porque, define o próprio, é uma pessoa muito tímida, humilde e simples, que quer sempre aprender o que têm para lhe ensinar.

O próximo objectivo é ser campeão olímpico, assume Jorge. Os Jogos Olímpicos de 2020 acontecem em Tóquio, “no mesmo tapete” onde se sagrou campeão mundial. Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz, diz a música de Rui Veloso. Jorge Fonseca quer contrariar esta versão.