Simone Biles: razões para ser feliz

A norte-americana fechou os Mundiais de Estugarda com mais duas medalhas de ouro, tornando-se na ginasta, entre homens e mulheres, com mais posições de pódio, 25.

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Quando era treinada por Marta Karolyi, Simone Biles não estava autorizada a sorrir durante o treino. A treinadora romena encarava o riso como um sinal de falta de rigor e empenho num desporto em que se chega à perfeição pela repetição. Por muitas razões – mãe toxicodependente, início de vida em lares de adopção, abusos sexuais, irmão acusado de homicídio – não sorrir seria o seu estado normal, e houve alturas em que teve de recorrer a terapia para conseguir entrar num ginásio. Mas Simone Biles tem encontrado sempre razões para ser feliz e para manter o sorriso que o mundo sempre lhe conheceu. Não apenas o sorriso. Também uma grande fome competitiva e uma grande vontade de aperfeiçoar a perfeição, o objectivo máximo de qualquer prova de ginástica.

Aos 22 anos, Simone Biles continua a fazer história, a ser uma gigante com 1,42m de altura. Neste domingo, fechou os Mundiais de Estugarda com mais duas medalhas de ouro, nas finais da trave e do solo, arrebatando, de caminho, uma série de recordes. Só neste Mundiais, Biles conquistou cinco títulos em seis possíveis – foi quinta nas paralelas assimétricas – na competição feminina, um recorde por si só que lhe permitiu chegar a outro ainda mais abrangente, o de mais medalhas conquistadas em Mundiais entre os dois géneros. O título na trave olímpica deu-lhe a 24.º medalha e a ultrapassagem a Vitaly Scherbo, que conquistara 24 a competir pela União Soviética, Comunidade de Estados Independentes e Bielorússia. Menos de uma hora depois voltou ao tapete para fazer crescer esse recorde 25, com um triunfo na final do solo, elevando o seu número de títulos para 19 – Serbo conquistou “apenas” 12.

Mas não é só pelos títulos que Simone Biles entra para a história da ginástica. Conquista esses títulos definindo novos limites que só ela própria poderá ultrapassar, inventado movimentos perigosos para as outras. Numa era em que o 10 já não é o símbolo da perfeição da ginástica, ganha quem tem mais pontos na combinação do grau de dificuldade do exercício que cada ginasta se propõe a fazer com a perfeição com que o executa. Simone Biles começa logo a fazer a diferença antes de colocar os pés no tapete porque as rotinas que apresenta têm, à partida, um nível de dificuldade inacessível a qualquer outra ginasta. Depois, a execução é quase sempre perfeita e o resultado é quase sempre o mesmo: vitória de Simone Biles. É assim desde 2013, será assim, pelo menos, até 2020.

Para se perceber a diferença entre a pequena norte-americana e a restante concorrência, a Comissão Técnica da Federação Internacional de Ginástica decidiu baixar a pontuação atribuída por nível de dificuldade à rotina apresentada por Biles (e que têm o seu próprio nome) argumentando que esta era uma forma de desencorajar outras ginastas de tentarem coisas que poderiam colocar em causa a sua integridade física. Ainda assim, na final de all-around, Simone Biles bateu o recorde de diferença pontual para a segunda classificada, a chinesa Xijing Tang – 2,1 pontos, a maior diferença desde que mudou o sistema de pontuação em 2006. Na prova do solo do all-around, Biles pisou duas vezes fora do praticável, mas não deixou de ter o resultado mais alto – a dificuldade da sua rotina era a mais alta (6,600) e mais que compensou o resultado com penalizações (8,200).

No derradeiro dia destes Mundiais, Simone foi a última a competir na final do solo, que era a última final individual feminina destes campeonatos. Fê-lo com os dois movimentos que têm o seu nome, terminou a rotina e só teve de esperar pela pontuação. “Já nem me conseguia mexer. Estava muito cansada. Mas estes foram mesmos os meus mundiais de sempre”, disse Biles depois de terminar mais uma colheita de ouro. Entre as cinco, foi a da trave a mais saborosa e a que mais festejou – foi neste aparelho que teve de contentar-se com o bronze, no Rio.

Adeus depois de Tóquio

Simone Biles é uma combinação perfeita de potência muscular e graciosidade, o que lhe permite ir subindo o nível à medida que vai avançando na idade – 22 anos é início de carreira em muitos desportos, na ginástica é quase terceira idade. Não há qualquer sinal de fadiga competitiva em Simone Biles, que compete em todas as especialidades da ginástica artística e que, por isso, tem sempre um programa carregado em todas competições. Mas, já antes destes Mundiais, a norte-americana disse que os de Estugarda talvez fossem os últimos e que fecharia a carreira nos Jogos de Tóquio, porque o corpo, agredido por toda uma vida dedicada à alta competição, estava a pedir. “O meu corpo já vai nos 30, 40 anos, talvez mais velho. Está sempre a gritar comigo”, contou numa entrevista, em Março deste ano.

Entrou na alta-roda da ginástica aos 14 e, aos 16, já estava a ganhar os seus primeiros títulos mundiais. Foram dois em 2013, quatro em 2014, quatro em 2015, quatro em 2018 e cinco em 2019. Pelo meio, a épica exibição nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quatro títulos e um terceiro lugar a fazerem dela uma das grandes figuras dos Jogos cariocas, a partilhar a ribalta com dois “monstros” que se despediam, Usain Bolt e Michael Phelps. As medalhas tiveram, no entanto, o seu preço: “Logo a seguir aos Olímpicos, descobri que tinha um dedo do pé partido em cinco pedaços.”

Depois desses Jogos, Simone Biles cumpriu um ano sabático, período em que se intensificaram as denúncias sobre os abusos sexuais a ginastas por parte de Larry Nassar, médico da equipa norte-americana de ginásticas. Centenas de atletas e ex-atletas Biles vieram a público acusar o clínico, e Biles também admitiu que fora uma das vítimas de Nassar. A sua voz nunca mais deixou de ser crítica em relação à própria federação norte-americana. “Vocês só tinham um trabalho. Literalmente. E não nos protegeram” acusou a ginasta, referindo-se à passividade com que os responsáveis da ginástica norte-americana lidaram com o caso – e os Karolyi, o casal de treinadores romenos que era dono do rancho onde grande parte dos abusos ocorreram, também caíram em desgraça e deixaram de ter qualquer ligação ao Team USA.

Quando voltou do ano sabático, custou-lhe voltar a pisar um tapete e teve de recorrer a terapia para o fazer, mas ultrapassou a dor e voltou aos títulos em 2018, em 2019 e, provavelmente, em 2020. Depois de Tóquio, e a acreditar no que tem dito nos últimos tempos, o primeiro lugar volta a ficar vago. Mas o lugar de melhor de sempre já tem dona para muitas décadas. Chama-se Simone Biles.